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A cavalgada

As crianças se amontoam dos dois lados da calçada da Plaça Catalunya, os menores passando à frente dos maiores para enxergar melhor. Aos poucos, vão invadindo o espaço delimitado pelo guarda civil, que faz uma cara de enfado e se aproxima para avisar às crianças que cheguem mais para trás. É a quinta vez que ele pede.

Esqueça Papai Noel, renas, trenós, neve. Em Barcelona, como em toda a Espanha, o Natal acontece mesmo é no dia seis de janeiro. É quando as crianças boazinhas ganham presentes e os garotinhos que não obedeceram os pais encontram suas meias cheias de carvão. "Melchor, Gaspar y Baltasar, este año fuimos buenos!", grita a molecada mal a cavalgada começa.

Se a festa lembra carnaval de rua de cidadeca do Brasil, com figurinos simples e pouco entusiasmo, o esquema de segurança é coisa de primeiro mundo. Os reis chegam à cidade de navio, são recebidos com pompas de chefes de estado e seguem em carros alegóricos por um circuito que passa pelas principais vias da cidade. Tudo na mais perfeita paz, exceto pelo empurra-empurra dos adultos, disputando o melhor ângulo para seus rebentos.

Por mais que neve na Espanha, é num cenário de deserto que a cavalgada se dá. Em lugar de gorros, os figurantes levam lenços e turbantes. Não há duendes nem ajudantes de Papai Noel e sim símbolos africanos e dançarinas árabes. Três camelos de verdade aparecem no auge da festa com aquela cara de indiferença que os bichos costumam ter quando se dão conta de que, façam o que fizerem, terão comida, sombra e água fresca até o fim dos dias. As crianças vão ao delírio. O guarda ajeita a boina negra, se aproxima e avisa, com firmeza, que os niños têm de se afastar.

Surge, enfim, o primeiro carro alegórico com um rei mago meio apático e montes de crianças de roupas coloridas, mais entretidas em abrir os pacotes de balas do que em arremessá-las para a platéia. O capuz de uma garotinha fica cheio de balinhas, mas ela continua hipnotizada, com um fio de baba cai-não-cai da boca aberta.

Mais alguns minutos e aparecem os outros reis magos. Baltazar acena alegremente para a platéia. No chão, a molecada dá gritinhos ansiosos e invade a rua pela sexta vez. O guarda olha, impaciente.

Guarda observa a cavalgada de reis com cara de tédio
Nosso amigo incorpora o retrato do espírito natalino espanhol

PS: Depois, o Grande Dia das Liquidações.

The horseride

Children gather on both sides of the Plaza Catalunya, the smaller ones pushing past the bigger ones in order to see better. Slowly, they begin to spill into the area marked off by the policeman, who approaches the children and with an expression of weariness, tells them to get back; for the fifth time.

Forget Santa Claus, reindeer, sleighs, snow. In Barcelona, as in all of Spain, Christmas really comes on January sixth. It’s when good children get their presents and the misbehaved ones find charcoal in their stockings. "Melchor, Gaspar y Baltasar, este año fuimos buenos!", yell the children, as soon as the horseride begins.

If the celebration is similar to carnaval in small, backwater towns of Brazil, with simple costumes and little enthusiasm, the security system is anything but. The kings reach the town by ship, are met with all the ceremony of heads of state and sail through the town’s main roads atop floats. Everything perfectly peaceful, except for the adults elbowing each other in an attempt to find the best viewing spot for their offspring.

As much as it may snow in Spain, the horseride takes place in a desert scenario. Instead of snowcaps, the actors wear scarves and turbans. There are no dwarves or Santa’s helpers, but African symbols and Arab dancers. Three real camels, at the peak of the celebration, overlook the festivities with the characteristic lack of interest that animals have when they realize that, no matter what they do, they’ll get food, water and shelter at the end of the day. The children go mad. The guard adjusts his black beret, steps up and warns the niños, sternly, to back off.

Finally, the first float carrying one of the wise, fairly apathetic, kings and heaps of children in colorful clothes, more intent on opening the candy bags, than throwing them to the spectators. A little girl’s hood is full of candy, but she hangs mesmerized, just like the single line of drool from her open mouth.

Another couple of minutes and the other wise kings show up. Balthazar waves gleefully at the crowd. On the ground, the kids scream with excitement and anxiety, and push into the street for the sixth time. The guard looks at them impatiently.



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Comentário de: juliano machado
No belo contraponto que você criou entre adultos e crianças, indiferença e euforia, fiquei triste por os camelos estarem do lado dos adultos. Talvez que seja características de alguns animais mais que outros se parecerem com adultos, quando na verdade deveriam ser mais aparentados, sempre, com crianças. Aliás, sobeja a pergunta, Barcelona é uma cidade assim dada às crianças ou foi só pela data específica? Não falará o Guindaste de Gaudí?

Sempre achei que só os cães são meritórios de uma comparação com crianças, Juliano. A maioria dos outros bichos costuma ser mais blasé e, não raro, detesta criança. Quanto a Gaudí, o Guindaste está pensando o que pode dizer a respeito do gênio catalão que ainda não tenha sido dito...
PermalinkPermalink 09.01.08 @ 10:42


Comentário de: Ágata Email
Queridona, seus textos todos estão maravilhosos, divertidos, uma delícia! Obrigada por escrevê-los! Bjs e Feliz Ano Novo!
Sua Dona

Minhocuda, feliz ano procê também!
PermalinkPermalink 10.01.08 @ 13:46


Comentário de: karina Email
Não volta nunca mais?
Está matando os seus leitores de inveja...

Ô, judiêra, né isso não, flor, é que arranjar lan house barata é das coisas mais inglórias por aqui...
PermalinkPermalink 11.01.08 @ 12:47


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