A língua intransponível
No metrô, nos ônibus, em bares e restaurantes, até mesmo nas ruas, o que menos se ouve em Barcelona é o espanhol. Apesar de a cidade estar cheia de turistas - principalmente italianos e franceses, mas muitos marroquinos, chineses e sul-americanos em geral -, ainda é o catalão o idioma oficial.
Depois de uma semana tentando fisgar algumas coisas nessa cidade babélica, desenvolvi um ouvido apurado para conversa alheia. Minha técnica é a seguinte: se ouço e não entendo nada, é francês; se consigo entender quase tudo, é espanhol; mas se só pesco uma ou outra palavra no meio de uma maçaroca ininteligível, só pode ser catalão.
Imagine um francês tentando falar espanhol com sotaque português. Agora, imagine que as frases são escritas cheias de apóstrofes esquisitos, mas lidas de um fôlego só, de modo que você não saiba onde termina uma palavra e onde começa outra. "Cuida´t amb els nous productes de la temporada, els reconeixeràs aixì." Isso é catalão.
Estava achando o idioma mais bizarro do mundo até que a professora de espanhol deu uma palhinha do basco. "Zorionak eta urte berri on!" Me pareceu uma das línguas que eu inventava quando era criança, com coisas escritas de trás pra frente ou sílabas começadas com pê, e soltei uma ruidosa gargalhada, assustando um russo e duas japonesas. "Não é possível que essa língua tenha sido criada por algum adulto!"
A questão é que o basco não faz sentido de nenhuma maneira que você tente lê-lo. Pode até arriscar ler de trás pra frente ou jogar todas as letras para o alto e tentar construir uma frase legível com todas elas que ainda continuará imperscrutável. Para saber as horas em espanhol, por exemplo, basta pronunciar "que hora es?", sem esforço. Adicionando um pouco de hopiharês, tem-se "quina hora es?", em catalão. Mas para perguntar as horas em basco, é preciso decorar um impenetrável "zer or du da?".
Nem mesmo nas palavras curtas os bascos dão trégua. "Adeus", que em espanhol é "adiós" e em catalão, "adeu", vira "agur"; "olá" é "kaixo"; "obrigada" se transforma em "ezkarri kazko", o auge do hopiharês. E os palavrões, como são em basco? "Não temos palavrões", disse a professora, um pouco desapontada. "Quando um basco precisa xingar a mãe de alguém, usa o espanhol." Agora as coisas começam a fazer sentido.

Faixas de futebol em banca de jornais nas Ramblas: Babel é aqui
PS: Depois, a cavalgada dos Reis Magos.
The Unconquerable Language
On the subway, on buses, in bars and restaurants, even on the street, what you hear the least in Barcelona is Spanish. Although the city is full of tourists - mainly Italians and French, but many Morrocans, Chinese and South Americans in general – Catalan is still the official language.
After a week trying to pick up information in this Babelic city, I developed a refined talent for eavesdropping. My technique is the following: if I listen and can’t understand a word, it’s French; if I can understand most of it, it’s Spanish; but if I can only pick out one word or so in the midst of an uninteligible mess, it can only be Catalan.
Imagine a Frenchman speaking Spanish with a Portuguese accent. Now, imagine that all the phrases are written with strange apostrophes everywhere, but spoken in one breath, so that you can’t tell when one word begins and the other ends. "Cuida’t amb els nous productes de la temporada, els reconeixeràs aixì." That is Catalan.
It was already on my list as the most bizarre language on the planet until our Spanish teacher gave us a taste of Basque. "Zorionak eta urte berri on!" It sounded like one of those languges I used to make up as a child, with stuff written backwards, or placing “P”s in front of every syllable, and I burst out laughing, startling a Russian guy and two Japanese girls. “This language can’t have been created by an adult!”
The issue is that Basque doesn’t make sense anyway you read it. You can even try reading it backwards or throwing the letters up into the sky and hope to put together a readable sentence which will still defy analysis. To ask the time is Spanish, for example, just pronounce “que hora es?” effortlessly. Adding a bit of HopiHariish*, you get “quina hora es?” in Catalan. But to ask the time in Basque, you have to memorize an impenetrable “zer or du da?”.
Not even the short words are spared in Basque. “Goodbye”, which in Spanish is “adios”, and in Catalan “adeu”, becomes “agur”; “hello” is “kaixo”, “thank you” mutates into “ezkarrik azko”, the height of HopiHariish. And what are the swear words like in Basque? “We don’t have swear words”, said the teacher, a tad disappointed. “ When the Basque need to insult someone, they use Spanish”. Now things begin to make a bit more sense.
*Hopihariish is a language made up exclusively for an amusement park, near São Paulo, called Hopi Hari
P.S. Coming up: the horseride of the Three Wise Kings.
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Procê também!
Beijocas!
Pois é, Danilo!
Jisuis, a volta dos que não foram! Leandro, qualquer hora dessas a gente vai se trombar nas Ramblas! Vamos amanhã ao Palau de la Música Catalana, se você ainda não tiver enjoado de ver aquele lugar maravilhoso, está convidado! Depois, comemos uns tapas e tomamos una copa de vino, ¿que te parece?
Escuta, não peguei a coisa do começo, como tu foi parar ai na Espanhalândia?
bj
T§
Rapaz, e grua é o que não falta por aqui: estou fazendo um monte de fotos de guindastes! A viagem às Zorópa começou no dia 19 de dezembro dos idos 2007 e termina esta semana, Tarsis. Faz parte de um ambicioso projeto para colocar dois exércitos em 18 territórios. Portugal e Espanha já eram, agora, só faltam 16 países...
Sobre o teu texto: aposto que você volta falando basco.
Juliano, se eu voltar falando português, estou feliz da vida, porque já me peguei duas vezes dizendo que determinada coisa custa "diez reales". Traduzir a moeda do seu próprio país é o primeiro passo para falar portunhol...
Foi o que a professora comentou, Fábio, que o basco ficou séculos encerrado em pequenos povoados, separados do resto do mundo pelas montanhas. E está em risco de extinção, algo que não consigo ouvir sem sentir um certo alívio...
Hmmm, antes mudos que falando aquelas asneiras que eles costumam dizer...
Beijo!
Pois é!









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