O apartamento assombroso
À primeira vista, parece um inofensivo alojamento estudantil em Barcelona, espaçoso e velho, com quatro quartos, uma sala razoável e até uma varandinha. Mas basta passar uma noite no lugar para descobrir que ele é, na verdade, uma espécie de teste de nervos para jovenzinhos brasileiros desavisados.
Os quartos têm números na porta e três deles ficam trancados o dia todo. Posso apostar como ouvi risinhos do outro lado da porta quando passei em frente ao número 2. Apesar de estar vazio, tudo tem vida própria: as luzes do banheiro se apagam sozinhas quando você está com o cabelo cheio de shampoo, o chão range, as portas se abrem durante a madrugada.
Aliás, de qualquer cômodo é possível ver portas. Na cozinha e no banheiro, há portinholas no teto, ambas emperradas. Na certa, devem dar na cabeça de John Malkovitch. Dizem que um estudante esloveno desapareceu por uma delas e nunca mais foi visto.
Na cozinha, tudo é terrivelmente velho, gasto e sujo. Nas panelas - uma frigideira com o cabo quebrado, uma leiteira de teflon sem teflon no fundo e duas panelas que parecem ter sido atiradas sucessivamente contra a parede -, uma amostra do que comeram os estudantes que moraram no apartamento três gerações atrás. Talheres, copos e pratos têm restos de molho de tomate seco, arroz grudado e macarrão instantâneo carbonizado. Gastei uma tarde inteira tentando limpar uma travessa, mas o máximo que consegui foram bactérias mais brilhantes. A única coisa que parece funcionar razoavelmente é o fogão - isso se você conseguir girar o botão, porque a sujeira está tão alegremente incrustrada no plástico que já faz parte dele.
Olhar o banheiro dissipa qualquer idéia de uma relaxante imersão na banheira. Como os buraquinhos do chuveiro estão entupidos de ferrugem, a água jorra por todas as partes, menos por onde deveria sair. A cortininha, que um dia foi azul, está cheia de respingos brancos que eu prefiro não saber a procedência. A banheira tem a pintura descascada e as bordas cheias de trincas. Uma rachadura foi preenchida com algo semelhante a massinha de modelar azul. No lugar do que outrora foi um rejunte, há limo e todo um ecossistema em franca expansão. O ralo, é claro, está entupido: bastam cinco minutos de chuveiro ligado para que a água chegue aos tornozelos e comecem a boiar fios de cabelos de todas as cores e comprimentos, invariavelmente, nenhum parecido com os que você próprio tem na cabeça.
Talvez eu não sobreviva.

Lar, assombroso lar
PS: Depois, a língua intransponível.
The abominable apartment
At first, it seems to be a harmless student dorm in Barcelona, roomy and ancient, four bedrooms, a reasonable-size living room, and even a nice little balcony. But all it takes is one night there to discover that it is, in fact, a nerve-wrecker of sorts, for young, unsuspecting Brazilians.
The bedrooms have numbers on the door and are kept locked all day. I could swear I heard laughter from behind door number 2 when I walked past it. Despite being empty, the place has a life of its own: the bathroom lights go out by themselves when you’ve got shampoo in your hair, the floor squeaks, the doors swing open in the middle of the night.
Plus, you can see doors from any room. In the kitchen and the bathroom, little doors in the ceiling, both jammed. I’ll bet they go straight into John Malkovitch’s head. They say a student from Eslovenia disappeared through one of them and was never seen again.
In the kitchen, everything is terribly old, worn and dirty. In the pots – a frying pan with a broken handle, a teflon kettle with no teflon left, and two pots that look like they’ve been continuously thrown against the wall – are the remnants of what the students who lived in this apartment three generations ago, had for lunch. Cutlery, glasses and plates have the remains of dried tomato sauce, sticky rice and carbonized, instant noodles. I spent a whole afternoon trying to clean a cooking tray, but the best I got was shinier bacteria. The only thing that seems to work reasonably well is the stove – if you can turn the knob, because the filth is so gladly stuck to the plastic that it’s become part of it.
One look in the bathroom will dismiss any thought of a relaxing bubble bath. As the holes in the shower head are clotted with rust, water sprays everywhere, except where it should. The shower curtain, which was once blue, now has white spots, the origin of which, I’d rather not know. The bathtub has peeling paint and cracked edges. One of the cracks was fixed with what looks like blue play-doh. In between the tiles, has become pure grime and an expanding ecosystem in its own right. The drain is clogged, of course: five minutes into your shower will find you up to your ankles in water and all colors and lengths of hair, except for the kind you actually find on your own head.
I may not survive.
P.S. Coming up: the unconquerable language.
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Uêba!
Cheirão!
E a cada dia descubro algo ainda mais apavorante, Danilo. Hoje, achei uma grande mala de viagem no maleiro do guarda-roupas. Tenho certeza de que tem um estudante chinês dentro.
Nem me fale, Ingrith, nem me fale...
Boa sorte com os fantasminhas espanicos.
Ah..e como sempre seus textos estão excelentes. Tô adorando esse tour pelo velho continente. Apesar de estar aqui trabalhando, me sinto como se estivesse dano uma volta por aí.
Bjo
Puxa, Léo, é muito bom saber quem não tenho só a companhia de amigos imaginários...
Eu num gostei muito nao,achu que meu irmao de 1 ano tem mas criatividade que issu ai
Esses miguxos...
feliz ano novo!
beijoca,
Ô, querida, procê também!!!
Eu naum goxtei du comentariu dessi Auguxto ,naum! Axu que ele poderia tê fikadu kaladu.
Cába mais besta da p*rra!! ¬¬'
Eu axei xuper criativu, Danilu!
e bichos, não tem tb?
coloque algumas fotos p/ gente ver (se bem que eu já tenho idéia de como seja, hehe)
gostei do texto!
Até agora, só ouvi relatos das cucarachas, mas nenhuma delas deu o ar da graça lá em casa. Vai ver, está sujo demais até para as baratas.
Obrigado por compartilhar a experiência com a gente. Vc chora e a gente ri!!!! Mas um dia vc vai rir dessas histórias muito mais do que a gente!!!!
Força!!!!
Rogério
Oxalá você esteja certo, Rogério!
Pela lógica, você está segura: o que não sai depois de esfregar por horas também não vai sair ao colocar comida em cima.
Beijo!
Éca, e não é que você tem razão?
P.S.: Vc demora alguns dias para postar (depois de prometer que tem um post novo no dia seguinte) depois q terminar com "talvez eu não sobreviva"... q maldade...
Ulisses, ao menos o preço do apartamento estudantil é razoável. Quanto à demora em atualizar, rapaz, precisa ver como são disputadas as lan houses daqui!








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