Como fazer um cavalo dançar
Programação é o que as pessoas fazem quando decidem acordar antes das galinhas, pegar um trem e viajar 100km por um país que não conhecem só para ver uns cavalos trotando de lado. Um viajante precavido teria entrado no site da Real Escuela Andaluza de Arte Eqüestre, teria checado os dias das apresentações - num surto de preciosismo, teria até mesmo comprado os ingressos e escolhido os melhores lugares. Isso é o que as pessoas sensatas fazem.
Em "História de Cronópios e de Famas", o escritor Julio Cortazar chama os seres assim, coerentes e organizados, de famas. Meu conto preferido é justamente o que trata dos costumes que os famas têm quando em viagem, algo que inclui ir aos hotéis e indagar "cautelosamente, os preços, a qualidade dos lençóis e a cor dos tapetes", fazer "um inventário do conteúdo de suas malas" e copiar "as listas dos médicos de plantão e suas especializações".
Mas há uma outra espécie de criaturas cortazianas, os passionais e atrapalhados cronópios. "Quando os cronópios saem em viagem, encontram os hotéis cheios, os trens já partiram, chove a cântaros e os táxis não querem levá-los ou lhes cobram preços altíssimos. Os cronópios não desanimam porque acreditam piamente que essas coisas acontecem a todo mundo e, na hora de dormir, dizem uns aos outros: ´Que bela cidade, que belíssima cidade´."
Feitos os esclarecimentos, é claro que eu não sou um fama e cheguei em Jerez de La Fronteira, uma cidadezinha perdida no sul da Espanha, dois dias depois da última apresentação de balé eqüestre do ano. Está claro, também, que todas as lojas do centro da cidade se fecharam dez minutos depois que pisei no lugar. E, óbvio, o próximo trem só partiria quatro horas depois. Tive de me contentar em ver o pequeno Museu das Carruagens, onde, é claro, não se pode fotografar. Tudo muito claro, como se vê.
"Eu sou um cronópio infeliz e úmido."

Rosa-dos-ventos no telhado da Real Escuela Andaluza de Arte Eqüestre
Weather vane on the roof of the Real Escuela Andaluza de Arte Eqüestre
PS: Amanhã, a garota do cabelo verde.
To Make a Horse Dance
Planning is what people do when they decide to wake before the crack of dawn, catch a train and travel 100 km through a country they don’t know just to see horses trotting sideways. A wary traveller would have first gone to the Real Escuela Andaluza de Arte Eqüestre website, would have checked the show dates – and in a surge of insight, would even have chosen the best seats and bought the tickets. That’s what sensible people do.
In "História de Cronópios e de Famas", the writer, Julio Cortazar calls beings like that, coherent and organized, famas. My favorite story is precisely the one that deals with the habits that the famas have when they travel, things like going to hotels and questioning “cautiously” about the prices, the quality of the sheets and the color of the rugs”, put together an “inventory of the contents of their suitcase” and copy “ the lists of doctors available and their areas of expertise”.
But there’s another kind of Cortazian creature, the passionate and awkward cronopio. When cronopios travel, they run into overbooked hotels, trains that have already left the station, constant rain and the taxis either don’t want to take them or overcharge them. The cronopios don’t dismay because they believe that these things happen to everyone and when they settle down to sleep, they say to each other: “ What a beautiful town, indeed a breathtaking town.”
Distinctions made, of course I’m not a fama and arrived at Jerez de La Frontera, a little inconspicuous town in the south of Spain, two days after the last presentation of equestrian ballet of the year. It should also be clear that all the stores in the town closed ten minutes after I had set foot in the place. No surprise, either, that the next train would only be leaving four hours later. I had to content myself with the small Stagecoach Museum, where obviously, taking pictures is forbidden. Everything very clear, as can be seen.
“I´m a sad and wet cronopio.”
P.S. Tomorrow, the girl with green hair.
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Seu texto me fez sorrir hoje (e isso foi um grande mérito!). Adoro o livro História de Cronópios e de Famas do Julio Cortazar. E acho muito meritório ser cronópio, embora isso não seja fácil... rsrsrs. Gostaria de convidá-la a visitar meu fotoblog... onde procuro dar o ponto de vista da menina interior ( e as crianças são sempre um tanto cronópios, não?), que tem me mostrado o lado bonito e valoroso da vida.
http://valzen.fotoblog.uol.com.br/index.html
Abço,
Valéria.
As crianças são perfeitos cronópios, Valéria, tem razão. Belo blog!
Beijo.
Eu é que agradeço, Valéria.
Vc infeliz???.....impossível!!!
Aproveitando para desejar um feliz 2008!
beijos,
Norma
Ah, só de imaginar a faxina que terei de fazer para aquele lugar ficar habitável, dá uma tristeza... Bom 2008 para você também, Norma!








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