Adote um pinheirinho
Levo uma fechada de um motorista nervosinho bem no momento em que passo em frente a um banco praticamente soterrado por sua decoração de Natal. É tanta luzinha e enfeite que os correntistas devem estar sacando em outro caixa só de vergonha de serem pegos entrando naquele monumento ao kitch.
Não sou a única a detestar essa deturpação do Natal, mas sou, provavelmente, a mais feroz defensora dos pinheirinhos. É fato que as pessoas já não consideram as plantas uma espécie de ser vivo. A despeito do que aprendi nas aulas de biologia, para a maioria dos mortais, o reino vegetal se resume ao que pode ser temperado com sal, vinagre e azeite. O resto faz parte da decoração e, como tal, está sujeito às tendências da estação - de moda, que fique claro.
Nem bem chega novembro, todos os lugares exibem montes de pinheirinhos, bicos-de-papagaio e outras variações de vermelho e verde. Vejo potenciais assassinos de cactus saindo das floriculturas com os braços cheios de vasos e morro de pena dessas árvores todas, que vão morrer tão logo terminem os fogos do Ano Novo.
Não entendo o que leva uma pessoa a comprar uma planta de verdade e tratá-la como planta de plástico. Não passa pela cabeça das pessoas que um pinheiro não foi feito para viver em vaso? Que precisa de água, luz, adubo e espaço?
Recentemente, passei por um terreno baldio que tinha pilhas de bromélias secas, algumas ainda com flor. Perguntei ao rapaz o motivo daquela matança já imaginando que tivessem sido vítimas de alguma praga bíblica. Eram trezentos vasos, todos recém recolhidos de shoppings. "Fica mais fácil para as lojas alugar as plantas, assim, elas estão sempre bonitas", me explicou o moço. Você leu direito, é aluguel, mesmo. Uma empresa passa semanalmente nos estabelecimentos para renovar as plantas. As que estavam lá - quase sempre em ótimo estado, talvez um pouquinho empoeiradas - vão para o lixo. O mesmo destino da sua árvore de Natal.
Quer começar o ano bem? Assim que acabarem as festas, procure uma praça ou parque para replantar seu pinheirinho. Leve apenas uma pá e um saco de adubo. Não vai levar mais que vinte minutos. E, quem sabe, te dará sombra por muitos anos.

Em Barcelona, cartazes como esse anunciam a época da coleta de pinheirinhos: as árvores são recolhidas em pontos espalhados por toda a cidade e, depois, são replantadas e cuidadas por jardineiros
Adopt a little pine tree
I get cut off by a testy driver right when I’m driving past a bank practically buried under its Christmas decorations. It’s got so many lights and decorations that the customers probably withdraw their money elsewhere from the sheer embarassment of being caught in that immense monument to kitsch.
I’m not the only one who hates this deturpation of Christmas, but I’m probably the fiercest defender of the little pine trees. It’s a fact that people no longer consider plants to be living things. Despite what I learned in biology, for most mortals, the Plant Kingdom is surmised by whatever can be seasoned with olive oil, vinegar and salt. The rest is decoration, and as such, is subject to the tendencies of the season – the fashion season, that is.
November’s barely in and everywhere you look: little pine trees, poinsettias and other variations of red and green. I see potential cactus murderers walking out of flower shops with their arms full of vases and I feel terribly sorry for all these trees that´ll die just as soon as the New Year’s fireworks are over.
I don’t understand what makes someone buy a real plant and treat it like a plastic one. Doesn’t it cross their mind that a pine tree wasn’t made to live in a vase? That it needs water, light, manure and space?
Recently, I walked past a vacant lot that had piles of dried up bromelias, some still sprouting flowers. I inquired about the reason for that slaughter, fully expecting they had been decimated by some biblical plague. There were three hundred vases, all recently taken from shopping malls. “It’s easier for the stores to rent plants, that way they’ll always look nice”, explained the man. It’s what you see, we really rent them out. There’s a company that comes by the stores weekly in order to change the plants. The ones that were there – almost always in good condition, maybe a little dusty – go straight to the bin. The same fate of your Christmas tree.
Wanna start the year well? As soon as the holidays are over, look for a square or park to relocate your little pine tree. Take only a shovel and a bag of manure. It won´t take more than a twenty minutes. And who knows? It might provide you with shade for several years to come.
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Muito bom puxão de orelhas aos incautos e destruidores da Natureza. Isso é o preço DA IGNORÂNCIA AOS APELOS DA MÍ
IA,á ESTUPIDEZ HUMANA, AS ESTULTICES.
BRAVO, CAROL!!!
"Estultices"?!? Mas que palavra mais chique! Vai pra minha coleção.
mas ninguem quer se dar ao trabalho. é como se estivem violentando as árvores e depois jogassem fora.
Consciência ecológica PRA QUE?
Pois é, Marcos. E é tão simples fazer o plantio deles nas praças, né?
Jardinagem libertária? Adorei!
Gostei muito do seu blog. Especialmente desse texto. Tenho realizado ações de Jardinagem Libertária aqui em Curitiba. Em que cidade você mora? E esse "matadouro de plantas" onde fica? Pensei em ir buscar algumas para replantar pela cidade.
abraços libertários!
walfrido
Pô, Walfrido, descobri há pouco esse lance de jardinagem libertária e adorei! O matadouro fica próximo ao shopping Villa-Lobos, no Alto de Pinheiros, bairro nobre de São Paulo. Trouxe algumas órfãs comigo quando vi a matança. Estão indo muito bem.
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