Por um fio
Talvez porque minha mãe prendesse meu cabelo de menina em tortuosas marias-chicas, hoje sofro de compaixão capilar. Quase sempre, acontece quando estou perto de algum completo desconhecido: bastam dez minutos olhando para um cabelo bem cuidado para eu ter ganas de acariciá-lo. Pior é que, se for um velhinho, vai dar vontade de niná-lo.
Também os rabos-de-cavalo das menininhas me despertam ternura, e as tigelinhas dos garotos, os cachinhos dos adolescentes ou uma longa cabeleira brilhante presa em uma intrincada trança. Tenho vontade de fazer cafuné em todos - com uma clara aversão a chapinhas, bobes e outros artifícios que roubem a autenticidade da cabeleira.
Eis um insólito fetiche, mais pro assédio amoroso que pro sexual. Por sorte, o recato que eu (não) tenho me impede de sair por aí fazendo carinho em cabeça alheia.
Só não entendo como alguém assim pode ter tão pouco cuidado com as próprias madeixas. É triste admitir, mas meu cabelo me odeia. Até o último fio.

Hair whore
Maybe it’s because my mom used to make my hair into crooked pigtails, that now I suffer from capillary compassion. It almost always happens when I’m next to some complete stranger: ten minutes looking at well-tended hair is enough to give me the urge to stroke it. Even worse if it’s an elderly man, it’ll make me want to sing him a lullaby.
Little girls’ ponytails also bring out the tenderness in me, and boys’ bowl cuts, teenagers’ curls or a long shiny mane tied into an intricate braid. I want to stroke them all – with a clear repulsion for hair curlers, straighteners or any other utensil that’ll take away from the hair’s authenticity.
It’s an unusual fetish, closer to the amorous than the sexual. Luckily, the pudity that I (don’t) have prevents me from walking around, caressing strangers’ heads.
What I don’t get is how a person like me can treat her own locks so carelessly. It hurts to admit it, but my hair hates me, down to the last split end.
Posts similares:
Cabelo, cabeleira
Pretos, como a asa da graúna. Brancos, como a neve.
Desensebator anti-Poodle
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Ah, mas se não for cabeça alheia não tem graça, Danilo!
Depois do puxão, e minha mãe já recuperada do susto, olhou pra trás, e a criatura perguntou a ela: "É de verdade, é?! Valha, pensei que fosse peruca!!"
Taaaaarja Preta nessa doida!!
Super Tarja Preta! Afffff...
Pior que admitir que meu cabelo me odeia, é admitir que amo o dos outros...
Seu cabelo é lindo, Karina! Não doma ele, não!
Ai, nem me fale, o meu deu até uma arrepiadinha de desgosto...
Um super fora!! Que puxa!!
Hehe, prometo um cafuné quando pisar em solo cearense, combinado?
(Olha que 'assédio amoroso' pode trazer complicações legais, imagina... "Ela, ela... foi carinhosa comigo! Atenciosa! Eu quero dinheiro!")
Depois de ler seu comentário, fiquei pensando cá com meus botões que as pessoas que foram assediadas sexualmente não o foram amorosamente. Que coisa, né?
Hmmm, vai ver, meu cabelo dever ser leonino e quer aparecer, só pode ser isso...
Isso é que é praticidade...








RSS feed