Falha na CPU
Tenho uma memória notável para guardar informações inúteis. Aos seis anos, li num livro infantil – num livro infantil! – que os lemingues são os únicos roedores que cometem suicídio coletivo. Nunca mais esqueci, ainda que jamais tenha visto um lemingue sequer. Sei de cabeça pelo menos cinqüenta raças de cachorros, possivelmente, mais de cem. De gatos, decoro poucas raças, porque, afinal, siameses ou persas, eles vão me ignorar de qualquer jeito.
Também tenho um ouvido musical estranho, capaz de identificar trechos semelhantes de músicas diferentes, mesmo que uma seja uma sonata de Mozart e a outra, um chorinho de Maurício Tapajós. Só não posso me gabar da minha capacidade de guardar letras, afinal, ela não acontece sem dor: tenho que ouvir a música dezenas de vezes até decorar cada estrofe. Ainda bem que mp3 não fura.
Para quê serve uma memória dessas? Não tenho a menor idéia. Muito melhor seria decorar datas históricas, fórmulas químicas ou mesmo trechos inteiros de livros, o suprasumo da supermemória. Acontece que o cérebro que guarda nomes de flores de maneira tão prestativa é o mesmo que esquece capitais de países, teorias filosóficas, notações científicas, fórmulas químicas, expressões triviais em inglês. Nomes de pessoas que acabaram de se apresentar. Leiteiras no fogo.
Para se ter uma idéia do estado da minha CPU, por 15 anos consecutivos, eu esqueci o aniversário da Tati, amiga desde 1990 (ela fica doida comigo até hoje, mas eu lembro da data os outros 364 dias do ano, juro). Raramente recordo o que comi no almoço, mas decorei um jogo americano inteiro do Mc Donald´s que trazia 50 dicas sobre reciclagem e meio ambiente.
E tenho calafrios só de pensar no dia em que um detetive bater em minha porta e perguntar coisas como "O que você fez na madrugada de 06 de dezembro de 2001" ou "Onde você estava na noite passada". Minha memória será a culpada.

Flawed CPU
I have an incredible memory for useless information. When I was six years old, I read in a kid’s book – in a kid’s book! – that lemmings are the only rodents that commit collective suicide. Even though I’ve never even seen a lemur, I never forgot it. I know at least fifty breeds of dogs by heart, possibly, more than one hundred. Of cats, I know less because, after all, Siamese or Persian, they’ll ignore me anyway.
I also have a strange ear for music, capable of identifying similar parts of different songs, even if one is a sonata by Mozart and the other, a “chorinho” by Mauricio Tapajós. I cannot, however, brag about my lyric-memorizing abilities, for it’s never painless: I have to listen to the same song dozens of times until I can commit all the words to memory. Thank god Mp3s don’t wear out.
What is a memory like this for? I have no clue. It would be far better to be able to memorize historical dates, chemistry formulas or even whole excerpts from books, the cream of super memory. It just so happens that the brain that memorizes names of flowers in such a useful way is the same that forgets capital cities, philosophical theories, scientific notations, chemistry formulas, trivial expressions in English. Names of people I’ve just met. Milk warming on the stove.
An example of what my CPU is like: for 15 consecutive years I’ve forgotten Tati’s birthday, a friend I’ve had since 1990 (she still gets angry at me, but I swear I remember it the other 364 days of the year). I rarely remember what I had for lunch, but I memorized an entire Mc Donalds’s tray sheet, which had 50 tips on recycling and environment on it.
And it gives me the shivers just thinking about the day a detective is going to knock on my door and ask me things like “Where were you in the early hours of December 6, 2001?” or “Where were you last night?”
Malditas em revista

Promessa é dívida: cá está a primeira foto do ensaio que a revista Sexy Premium deve publicar em dezembro sobre as Malditas. A imagem é do fotógrafo Ricardo D'Angelo e o grafite ao fundo é obra de Sergio Fabris sobre ilustração de uma de minhas meninas (nossa, isso soou tão cafetina, não?). Entre as perguntas que o jornalista Edgard Reymann me mandou, só temas sérios, como "para qual estátua você daria?" ou "como o jornalismo melhora sua performance sexual?". Não dá para não ler.
Wantonesses hit the stands
A promise made is a promise kept: here’s the first pic from the session that the magazine Sexy Premium will publish in December about the Wantonesses. The photo is by Ricardo D'Angelo and the graffiti on the wall in the background is a piece by Sergio Fabris inspired by an illustration of one of my girls (wow, that sounded very pimpish, didn’t it?). The questions that the journalist Edgard Reyman sent me, had only serious topics, such as “what statue would you get nasty with?” and “how does journalism improve your sexual performance?”. Not to be missed.
Por um fio
Talvez porque minha mãe prendesse meu cabelo de menina em tortuosas marias-chicas, hoje sofro de compaixão capilar. Quase sempre, acontece quando estou perto de algum completo desconhecido: bastam dez minutos olhando para um cabelo bem cuidado para eu ter ganas de acariciá-lo. Pior é que, se for um velhinho, vai dar vontade de niná-lo.
Também os rabos-de-cavalo das menininhas me despertam ternura, e as tigelinhas dos garotos, os cachinhos dos adolescentes ou uma longa cabeleira brilhante presa em uma intrincada trança. Tenho vontade de fazer cafuné em todos - com uma clara aversão a chapinhas, bobes e outros artifícios que roubem a autenticidade da cabeleira.
Eis um insólito fetiche, mais pro assédio amoroso que pro sexual. Por sorte, o recato que eu (não) tenho me impede de sair por aí fazendo carinho em cabeça alheia.
Só não entendo como alguém assim pode ter tão pouco cuidado com as próprias madeixas. É triste admitir, mas meu cabelo me odeia. Até o último fio.

Hair whore
Maybe it’s because my mom used to make my hair into crooked pigtails, that now I suffer from capillary compassion. It almost always happens when I’m next to some complete stranger: ten minutes looking at well-tended hair is enough to give me the urge to stroke it. Even worse if it’s an elderly man, it’ll make me want to sing him a lullaby.
Little girls’ ponytails also bring out the tenderness in me, and boys’ bowl cuts, teenagers’ curls or a long shiny mane tied into an intricate braid. I want to stroke them all – with a clear repulsion for hair curlers, straighteners or any other utensil that’ll take away from the hair’s authenticity.
It’s an unusual fetish, closer to the amorous than the sexual. Luckily, the pudity that I (don’t) have prevents me from walking around, caressing strangers’ heads.
What I don’t get is how a person like me can treat her own locks so carelessly. It hurts to admit it, but my hair hates me, down to the last split end.
Seja um cego por oito minutos
Muita gente acredita que cegos se informam exclusivamente com livros em braille ou quando alguém resolve ler para eles. A verdade é que há pouca oferta de obras em braille. Além disso, esses livros ocupam muito espaço – para se ter uma idéia, são quase três vezes maiores que o mesmo livro em impressão comum. Não bastasse isso, o braille sofreu alterações significativas recentemente: muita gente que foi alfabetizada vinte anos atrás, tem dificuldade em entender o braille moderno. O mesmo acontece com as crianças cegas que estão aprendendo a ler hoje e que dificilmente compreenderão o que foi escrito em braille até o final dos anos 90.
Com isso, a maneira mais rápida de um cego manter suas leituras em dia são os livros falados e audiolivros, cujas propostas são ligeiramente diferentes (o livro falado grava tudo, incluindo capa, contra-capa, folha de rosto e ficha técnica). Para se ter uma idéia de como funciona esse processo de transposição das letras para a voz, dê uma olhada no belo vídeo que Marcelo Pontes fez sobre a oficina do projeto Livro Falado que aconteceu em São Paulo. Adivinha só quem é a garota de chapéu...
Be blind for eight minutes
Many people believe that the blind get their information exclusively from books in Braille or when books are read to them. In reality, there are few Braille books on offer. Besides, these books take up too much space – comparatively, they are three times bigger than the same book in regular print. If that wasn’t enough, Braille itself, has been significantly altered recently: several people who learned how to read twenty years ago, have trouble understanding modern Braille. The same happens to blind children who will probably not understand what was written in Braille prior to the 1990’s.
Therefore, the quickest way for the blind to keep up to date with their reading is via the talking books or audio books, which have slightly different approaches ( the talking book records everything, including the covers and the publishing information). Transferring the written word to spoken, is a process which can be better understood by watching this beautiful video that Marcelo Pontes made about the workshop held in São Paulo by Projeto Livro Falado. Guess who the girl in the hat is…
Malditas - 21

Busco referências para desenhar as Malditas em toda a sorte de lugares torpes e proibidos para menores. Às vezes, acabo descobrindo mundos bem estranhos, como da vez em que, procurando imagens de amazonas, fui parar em um site de mulheres que transavam com cavalos. Nunca mais me recuperei do trauma e posso dizer que, nas minhas aulas de equitação, passo a quilômetros de distância dos garanhões. Para fazer esta Maldita, comecei a procurar imagens de mulheres de botas, um dos fetiches masculinos mais recorrentes. Vieram montes de resultados nas minhas buscas, mas muita coisa sadomasô. Depois de muito clicar, fui parar num site com a foto que serviu de referência para este desenho – mudei bastante coisa, mas gostei muito do ângulo dos pés, equilibrados em saltos despropositadamente altos. E, bem, não digo sobre o que era o site nem sob tortura. A ignorância é uma bênção.
Mais Malditas?
Wantonesses - 21
I constantly catch myself in all sorts of sordid spots and underage, no-go zones, looking for references to draw the Wantonesses. I sometimes stumble upon very weird worlds, like the time I was searching for pics of Amazons and ended up on a website for women that had sex with horses. I never fully recovered from the trauma and to this day, still steer clear of the stallions when I go to horse-riding lessons. In order to draw this Wantoness, I began searching for pictures of women in boots, a recurrent male fetish. Many results popped up, but mostly S&M. After an eternity of clicking, I found a website with the picture that became a reference for this drawing – I changed a lot of stuff, but I liked the angle of the feet, balancing on unnecessarily, high heels. And, well, not even torture will make me say what the site was about. Ignorance is bliss.
More Wantonesses?
De bar em bar
Bêbados de plantão, tremei-vos: dois dos mais queridos bares paulistanos aderiram à internet e agora podem ser visitados virtualmente.
Velho de guerra, o Filial inaugura, hoje, um sofisticado site, com direito a fabriqueta de chopp animada e dados sobre todas as cachaças que lotam as prateleiras do lugar. Dos mesmos donos dos lendários Clube do Choro, Vou Vivendo e Gargalhada, além do Genésio e do Genial (que, aliás, faz um ano hoje), o Filial se consagrou como o primeiro bar a oferecer chopp na Vila Madalena, até então tomada por botecos de cerveja em garrafa. De lá para cá, não passa um dia sem que suas mesas estejam cheias, o chopp Brahma gelado e a conversa animada. No site, além de conhecer os funcionários da casa – os perfis foram feitos por esta blogueira que vos escreve –, o internauta terá acesso às receitas de alguns dos pratos famosos e pode ainda trocar idéias com o Ombardsman Albano Ribeiro, tão bom de texto quanto de copo.
Também estréia sua URL o jovem Barão da Itararé, que em pouco mais de um ano já se consolidou na região da Augusta como uma referência de boa música e bom garfo, além de um delicioso chopp (também Brahma) cremoso e bem-tirado. Seguindo o belo visual art decô do bar, o site foi criado pela designer Suzana De Bonis, a mesma que desenhou este Guindaste. Autor de frases célebres como "Tem políticos cuja vida pública é a continuação da privada" e "A adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que ficará chato como o pai", entre outras pérolas, Barão de Itararé tem suas frases compiladas no site e nas paredes do bar (que fica na esquina da Peixoto Gomide com a Itararé, daí o trocadilho do nome). Coisa rara, o cardápio on line do Barão traz também os preços dos pratos, além de fotos de dar água na boca. Agora, é torcer para que coloquem a receita do Cosmopolitan, o melhor da cidade.
Bar-hopping
Piss pots, beware: two of the best loved bars in São Paulo have taken to the internet and can now be visited virtually.
The good ol’ Filial is launching today, a sophisticated website, including a li’l animated beer factory and info on all the “cachaças” that stock the bar’s shelves. Owned by the same people who brought you the legendary bars: Clube do Choro, Vou Vivendo and Gargalhada, as well as Genésio and Genial (which is 1 year old today, by the way), Filial has made its name as the first bar to sell draft beer in Vila Madalena, a neighborhood which up to then, had been dominated by bars that sold bottled beers exclusively. There’s not been a day since, when its tables were not full, the Brahma draft beer cold and the conversation spirited. On the website, besides meeting the place’s employees – the profiles were written by the blogger in question -, the internaut will have access to the recipes of some of the famous dishes and can speak to the Ombardsman Albano Ribeiro, as good a speaker as he is a drinker.
Also making its debut in URL, the young Barão da Itararé, which in less than a year has made a mark in the Augusta region as a spot for good food and music, as well as its delicious, creamy and well-drawn draft beer (also Brahma). Following the bar’s beautiful art-deco look, the website was created by the designer Suzana de Bonis, the same one which designed this Guindaste. Author of the quips: “ The public life of some politicians is an extension of their privates” and “Adolescence is the age in which boys refuse to believe that they’ll become just as crabby as their fathers”, among others, Barão de Itararé has its famous phrases gathered on the site and spread on the wall in the bar (which is on the corner of Peixoto Gomide and Itararé, hence the name). A rare thing, the online menu of the Barão features the price of the dishes as well as mouth-watering pictures. Now, keep your fingers crossed and they might just post the recipe of their Cosmopolitan, the best in town.
Mar adentro
Um curso de mergulho funciona mais ou menos assim: primeiro, você paga R$ 290 para ter palestras sobre manômetros, seios faciais, câmaras hiperbáricas, correntes de vazante, princípio de Arquimedes, nitrox, tempo de fundo e outros termos assustadores. De todas as palavras estranhas, a que decorei foi "narcose", a designação do que sofre o sujeito que fica embriagado pelo ar do cilindro e acaba o mergulho jurando de pé junto que conversou com uma barracuda e ela respondeu.
Dezesseis horas e oitenta e cinco questões depois, você está pronto para passar por um teste no mar, que vai custar mais R$ 580 e atestar, finalmente, se está apto para ser um mergulhador ou se tem pela frente uma promissora carreira de afogador de parceiros. É aí que começa o ritual secreto.
A liturgia do mergulho conta com uma preparação realmente estranha. Para começo de conversa, você viaja num barco carregado com dezenas de cilindros de gases comprimidos potencialmente explosivos. Depois de ter aprendido a defender seu respirador com unhas e dentes e a compartilhar seu ar — sim, ele pode acabar enquanto se está lá no fundo —, você leva uma boa meia hora montando o equipamento e checando se tudo funciona direito. Então, aperta válvulas, conecta torneiras, ajusta um sem-fim de fechos e fivelas e checa tudo novamente. E gasta mais meia hora para entrar numa roupa que ficaria pequena numa criança de dez anos. Se passar incólume a todas essas etapas e tiver pago sua taxa de sol direitinho para São Pedro, já pode cair na água — quase sempre fria, não raro, gelada, às vezes, insuportavelmente congelante.
Tudo isso para ver meia dúzia de lebistes, um monte de corais paradões e um ou outro peixe maiorzinho, que certamente vai sumir de vista quando vir você e todas aquelas bolhas por perto. Se der sorte, é possível que encontre uma tartaruga assustada ou uma moréia apavorante, mas elas vão aparecer bem naquela hora em que você se distanciou dos outros e, no fim, ninguém vai acreditar, mesmo.
Então, depois de vinte minutos a dez metros de profundidade, com os ouvidos tampados e doloridos, você vai começar a sentir frio ou vai ter se perdido do grupo ou então seu ar vai estar no talo — tudo isso junto, muito provavelmente — e terá de subir e gastar mais uma hora para sair da roupa e desfazer o intrincado bolo de mangueiras e tirantes no qual seu colete se transformou. Quando o sol começar a se pôr e você estiver jogado num canto do barco, com os dedos ainda roxos, os lábios machucados de água do mar, o cabelo armado e o corpo moído, queimado e cheio de sal, vai por mim, aí, sim, você vai saber o que é a felicidade suprema.

PS: Meu inglixi-translation escreveu um post engraçadíssimo sobre sua iniciação no mergulho. De dar inveja: foi na Tailândia, em uma ilha tombada pela Unesco, com direito a ver tudo que é tipo de peixe, "o bairro todo do Nemo".
Out to sea
This is, more or less, what a diving course is all about: first, you pay R$290 for lectures on pressure gauges, nasal cavities, hyperbaric chambers, the Archimedes Principle, nitrox, bottom time and other equally discouraging terms. Of all the strange new words, the one I managed to memorize was “narcosis”, the drunken-like state induced by the air in the tank, which makes people swear they had long, productive, underwater conversations with barracudas or the like.
Sixteen hours and eighty-five questions later, you get to pay R$580 for the privilege of being tested in the open ocean in order to finally prove that you are now a diver, or that you have a promising career in partner drowning. That’s where the secret ritual begins.
The diving liturgy is initiated with some very strange preparations. For starters, you go off on a boat with dozens of cylinders containing compressed, potentially, explosive gases. After learning how to protect your breather voraciously and share your air supply – yes you may run out of air when you are at the bottom – you spend a good half hour prepping the equipment and making sure everything works. After tightening valves, connecting hoses, adjusting endless straps and buckles, and checking everything over again, spend another half hour putting on a wetsuit that wouldn’t fit a ten-year old. If you get past all these obstacles unscathed, and have paid your sun fee to St. Peter (the patron of weather), you’re ready to hit the almost always cold, frequently icy, sometimes intolerably, freezing water.
All that to see half a dozen guppies, a bunch of boring coral and one or other bigger fish which will surely scuttle away once it sees you and that bunch of bubbles surrounding you. If you’re lucky, you might run into a frightened turtle or terrifying moray, but they’ll show up right when you’ve distanced yourself from the rest of the group, and in the end, nobody’s gonna believe you anyway.
Then, after twenty minutes under ten meters of water, with your ears blocked and sore, you’ll start to feel cold or you’ll get lost or your air will be almost up – probably all of the above – and you’ll have to come up and spend another hour getting out of your suit and untangling the mesh of straps and hoses your vest has become. When the sun starts to set and you find yourself strewn in a corner of the boat with purple fingers, lips bruised from the sea water, hair in a pulp and an aching, burnt, sea-salt covered body, then, only then, will you know the true meaning of happiness.
PS: My personal, all-purpose, translator (hey y'all) posted a side-splitting account of his own diving initiation, seeing all kinds of fish including Nemo's whole neighborhood, on a world heritage listed island... in Thailand. Eat your hearts out.
Se ela dança, eu danço
Balada quente, pista cheia e você doida para mostrar a pernada e o três por quatro que aprendeu na aula de dança de salão, mas os garotos parecem te ignorar e só dançam com aquela gostosa de calça justa e top... Ou então, casamento da prima chata, você quer mostrar pra toda a parentaia que continua solteira, sim, mas que agora é a deusa do tango e... cadê um bendito tio velho pra dançar? Sabe como chama o cara que vai salvar a sua noitada? Personal dancer.
De domingo a quinta, por míseros R$ 80, você tem um exímio bailarino a seu dispor – pronto para atravessar o salão ignorando saradas e bailarinas e vir tirar tudo que é mulher tímida, tia encalhada, velhinha jeitosa e barangas em geral, sempre as que a cruel seleção masculina deixa de fora do baile. Se quiser dar um show às sextas e aos sábados, claro, eles estão à disposição, desde que você pague a entrada da balada, pague o estacionamento do carro deles, pague o que eles consumirem e, claro, desembolse também R$ 150, afinal, as noites no final de semana são bem mais animadas.
"Danço tudo, menos axé e música country", comenta LG, um dos personais mais requisitados pelo mulherio paulista acima dos 40. Tão requisitado que tem um grupo especial só para dar conta de todos os convites, com 25 dançarinos (todos homens) prontos para rodopiar qualquer dama ao som de valsa, bolero, zouk, forró, gafieira, salsa, merengue, samba rock, lindy hop e o que mais o DJ tocar.
E tango? "Fazemos também, mas sai por R$ 200." Às sextas e sábados? "Não, qualquer dia da semana. Tango é complicado..." É, meninas, se não quiserem passar a noite na cadeira, melhor escolher outra coisa para dançar.

I’ll dance if he does
The night’s pumping, the dance floor’s bopping and you’re ready to show off those nifty moves you learned at ballroom dancing class, but the guys seem to ignore you, and only dance with that hot chick in tight pants and a tank top… or maybe it’s your obnoxious cousin’s wedding and you want to show all your relatives that yes, you’re still single, but you’re now the goddess of tango and… there’s not a single old uncle to dance with. So, who’s the guy that’s going to save your night? He’s called a Personal Dancer.
From Sunday to Thursday, for a measly R$80, you have dance perfection, at your service – ready to strut across the dance floor, ignoring hotties and ballerinas, to ask all the shy women, old maids, elderly babes and dogs in general, to dance - always the ones rejected by the cruel male selection. If you’d like to be a dancing queen on Fridays and Saturdays, sure, the Personal Dancers are available, as long as you pay for parking, drinks, nightclub admission and, of course, fork out R$150. After all, weekend nights are a lot more fun.
“I dance everything except axé and country music”, says LG, one of the personal dancers women, over 40 in São Paulo, ask for the most. He’s so popular he has a special group to assist him in keeping up with the requests. A troupe of 25 dancers (all male) ready to shake to the sound of waltz, bolero, zouk, forró, salsa, merengue, samba rock, lindy hop or whatever else the DJ plays.
How about tango? “Yes, we tango as well, but it costs R$200.” Fridays and Saturdays? “No, any day of the week. The tango is complicated…” See girls? If you don’t want to spend the night in a corner, better choose something else to dance…
Malditas - 20

– Nossa, quanto pano...
– É... Mas é um vestido bem sexy, vá!
– Mas é muito longo.
– Longo? Mas pára no meio das coxas! Ah, e tem esse decotão meio transparente, você reparou?
– O decote tá bom, mas a parte debaixo... Melhor levantar. Aliás, você não quer fazer só de calcinha e sutiã?
– Boa, aproveita e manda uma foto pros meus editores na Folha e na Abril, que tal? Assim, quando eu ligar sugerindo uma matéria sobre reciclagem de papel ou educação de autistas, eles já sabem com quem estão falando.
– Mas é uma revista de mulher pelada! Você vai ter que mostrar alguma coisa.
– Que tal o pezinho? É um autêntico 33, com todas as peças originais.
– Hmmm, pode ficar bom. Você sentada, batonzão bem vermelho, mordendo o dedão, que tal?
– Batom vermelho? Afe.
– Você não trouxe maquiagem?
– Só o batom. Achei mesmo que a cinta-liga não ia dar conta do recado sozinha.
– Tudo bem, a gente arruma no Photoshop.
– Você vai precisar é de um Fotochopp pra me consertar, vai por mim.
– Toda mulher precisa de um retoque. Esse é o grafite que vai sair no fundo?
– É esse, sim. É uma obra do Sergio Fabris sobre uma ilustração minha.
– Essa arreganhada é uma das Malditas?
– A própria.
– Uau. E se a gente te colocasse na mesma posição que ela? Ficaria duca!
– Ela está meio caída, eu teria de apoiar em algum lugar...
– Você está depilada?
– Pérai, vamos conversar. Eu sou a ilustradora das Malditas e não uma Maldita. Sou jornalista, rapaz, não posso aparecer arreganhada por aí. Tendeu? A revista vai falar sobre meu trabalho, a foto é só para ilustrar.
– Nem um peitinho básico?
– Nécas.
– Tá bom, vamos pro pezinho...
Veja aqui uma foto do ensaio.
Mais Malditas?
Wantonesses – 20
– Geez… all that fabric…
– Yeah, but c’mon… it’s a really sexy dress!
– But it’s too long.
– Long? But it’s mid-thigh high! AND it’s got this semi-transparent cleavage, see?
– The cleavage is alright, but the bottom part…you’d better pull it up. Actually, wouldn’t it be better if you did it in your lingerie?
– Good one. Why not send it my editors at Folha and Abril while you’re at it? That way when I call suggesting a story about paper recycling or autistic education, they’ll know who they’re talking to.
– But it’s a girlie magazine! You’re gonna have to show something.
– How about my foot? It’s an authentic size 5, with all the original parts.
– Hmmm, it may work. You, sitting down, blood red lipstick, biting your toe. How’s that?
– Red lipstick? Please.
– Didn’t you bring any make-up?
– Just lipstick. I figured the lingerie straps, alone, wouldn’t do the trick.
– That’s alright. We’ll fix it on Photoshop.
- It'll take a Photoshot of tequila, believe me.
– All women need a touch up. Is that the graffiti that’ll be in the background?
– That’s the one. It’s one of Sergio Fabris’ pieces on an illustration of mine.
– Is this spread-legged chick one of the Wantonesses?
– In the flesh.
– Wow. What if we put you in the same position? That would be awesome!
– She’s kind of bent over, I’d have to lean on something…
– Have you waxed?
– Hang on, let’s get something straight. I draw the Wantonesses, I’m not a Wantoness. I`m a journalist, my friend. I can’t be seen spread-legged everywhere, get it? The magazine is going to talk about my work, the photo is just for illustration.
– Not even a basic little boobie?
– Nope.
– Alright, let’s get to that foot pic…
More Wantonesses?
Atentado ao Guindaste
A Blog Hunters é uma das empresas mais divertidas de se trabalhar em parceria. Quando este blog ainda era um guincho de brinquedo, foi aprovado para fazer parte de uma lista de 30 blogueiros brasileiros que teriam acesso exclusivo a cabines e estréias de grandes produções da Fox Filmes. Mediando essa relação, a Blog Hunters/Bloggers Cut poderia ser simplesmente o contato entre um bando de insanos que produz conteúdo devezenquandário e a megaprodutora, não fosse o fato de os próprios integrantes da Blog Hunters serem tão malucos quanto nós blogueiros.
No primeiro contato que tive com Marcelo Träsel e equipe, eles fizeram uma pequena apresentação em Power Point para os blogueiros. Tive de conter um bocejo só de imaginar aqueles vídeos cheios de tópicos e palavras que piscam que os palestrantes adoram projetar – e ainda fazem cara feia se você não anota tudo. Mas tratava-se de um power point analógico, feito em cartolinas coloridas, que uma garota segurava escondidas e ia apresentando assim que o Marcelo pedia "próximo quadro". Ah, e também eram animadas: uma cartolina era virada rapidamente, outra, vinha balançando ao sabor de ondas invisíveis, algumas até pulavam. Efeitos visuais de primeira.
Depois disso, é claro que faço um tremendo esforço para levar a sério todas as campanhas que a Blog Hunters inventa. Com a chamada para a pré-estréia de Leões e Cordeiros, com Meryl Streep, Tom Cruise e Robert Redford (na direção e elenco), não foi diferente.
Attack on Guindaste
Blog Hunters is one of the partner/companies I’ve had the most fun working with. When this blog was still thinking about what it wanted to be when it grew up, it was chosen to be part of a list of 30 Brazilian bloggers which would have exclusive access to VIP sections and previews of great Fox Filmes productions. As middle men in this relationship, Blog Hunters/Bloggers Cut could simply be the link between a group of lunatics that write few and far between…ish, and the aforementioned megaproducer, if not for the fact that the people who run Blog Hunters are just as mad as us bloggers.
At my first meeting with Marcelo Träsel and his team, they did a small powerpoint presentation on bloggers. I had to hold in a yawn just thinking about those videos filled with topics and blinking words that speakers love to project – and give you an ugly look if you don’t jot down everything they say. But, alas, it was an analogical powerpoint presentation, made with colorful A3 sheets of paper, that a girl held up and changed every time Marcelo said: “next slide”. Oh, and they were also animated: One sheet was quickly turned while another one would come floating on invisible airwaves, some even jumped. Top of the line visual effects.
After that, I evidently do my utmost to take all the campaigns Blog Hunters invents seriously. With the invitation to the preview of Lions and Lambs, with Meryl Streep, Tom Cruise and Robert Redford (acting and directing), it was no different.
A bomba da procrastinação
Tropecei na rua e torci o tornozelo. Não, não rola, vai que alguém resolve vir em casa e vê que o pé não inchou... Hmmm, então peguei uma gripe daquelas, altamente contagiosa, e cai de cama. Instantâneamente. Meio tétrica, melhor tentar uma saída sem doença. Vejamos, vi uma senhora ser assaltada, recuperei a bolsa dela, mas tive que passar a noite na delegacia para preencher o B.O. Arrã. Não, melhor esta: meu carro foi roubado dez minutos antes da apresentação (mas vão encontrá-lo, no dia seguinte, são e salvo). Ai, senhor...
É sempre assim quando estou em véspera de fazer algo meio assustador: passo o dia todo pensando em toda sorte de desculpa para não fazer o que combinei fazer. O motivo do pânico pode ser qualquer coisa, tipo entregar uma matéria em prazo apertado ou fazer uma ilustra para algum lugar muito bacana. Não é que eu não cumpra meus compromissos, não. A questão é que eu entro em parafuso com a expectativa alheia. Piro. Surto mesmo.
Ontem não foi diferente: ensaiei três meses a bendita coreografia de salsa, mas cometi ao menos um errico a cada ensaio. Por mais que eu e meu parceiro nos empenhássemos, terminava a música uns segundos adiantada ou dava um giro muito devagar ou me atrapalhava com um passo fácil. Ou, pior, o grupo todo ia para a direita e eu, para a esquerda. Às vésperas de entrar em cena, já com o figurino completo, tudo o que eu pensava era em que desculpa pseudo-ruim eu daria para sumir dali em segundos. A sandália quebrou e não posso dançar descalça! Não...
O que não entendo é como uma pessoa com um perfil de pânico em potencial como eu ainda recebe convites para o que quer que seja. Eu sou uma espécie de bomba atômica da procrastinação, prestes a atrasar o que eu tiver prometido fazer. E, sei lá como, no fim das contas, dá tudo certo e eu me sinto uma cretina por ter ficado em pânico.
De uma coisa eu tenho certeza: segunda-feira vou pegar uma intoxicação alimentar e passar 24 horas de cama. Batata.

The procrastination bomb
I tripped and sprained my ankle. No, not a good idea, what if somebody decides to come over and sees that my foot isn’t swollen… hmmm, so then I’ve got a terrible case of the flu, highly contagious, and I’ve become bedridden. Instantaneously. A bit harsh, better try a way out that doesn’t involve illness. Let’s see, I saw an old woman get mugged , retrieved her purse, but had to spend the night at the police station in order to help her file the complaint. Aha! No, this one’s better: my car was stolen ten minutes before the presentation (but they’ll find it safe and sound the next morning). Oh, lord…
It’s always like this when I’m on the eve of doing something a bit daunting: I spend the whole day thinking up excuses to get out of doing what I said I’d do. The generating reason for this panic attack can be anything, like handing in an article on a tight deadline or doing an illustration for some very cool joint. It’s not that I don’t keep my commitments. I do. The issue is that I freak out on other people’s expectations. I flip out. I really lose it.
Yesterday was no exception: I rehearsed the damn salsa choreography for three months, but I made at least one little mistake in each rehearsal. No matter how hard my partner and I tried, we’d end a couple of seconds before the song finished or we’d spin a bit too slowly or I’d mess up some easy step. Or worse, the entire group would go left and I’d go right. Minutes before taking to the stage, in dress, all I could think about was half-ass excuses I could make up to vanish from there in seconds. My heel just broke and I can’t dance barefoot! No…
What I don’t understand is how a person with such a penchant for potential panic like me, still gets invitations to do whatever. I’m a sort of procrastination atomic bomb, ready to delay anything I’ve promised to do. And, I don’t know… in the end, it all works out and I hate myself for having panicked.
One thing I’m certain of: Monday I’m getting food poisoning and spending 24 hours in bed. That’s a given.
Malditas - 19

Gosto muito de desenhar o pós-coito, o momento de relaxamento total que sucede uma (boa) transa. Graficamente, é difícil buscar essa expressão de desapego e malemolência, uma preguiça típica de quem acabou de se esbaldar nas delícias do orgasmo. Ao mesmo tempo em que sugere um erotismo muito forte, o pós-coito é também um momento de cansaço e melancolia. Tentei representar isso nesta Maldita, mas ela me parece muito mais uma mocinha oferecida do que uma mulher saciada...
Mais Malditas?
Wantoness – 19
I love drawing post-coitum, the moment of total relaxation that follows (good) sex. It’s graphically hard to capture that expression of detachment and listlessness, that lazy feeling typical of one that’s been immersed in the delights of orgasm. At the same time that it suggests strong eroticism, it is also a moment of weariness and melancholy. I tried to represent all that in this Wantoness, but she looks more like a flirt than a satiated woman…
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