A moleira
Preciso confessar: bebês me dão medo. Não é só o fato de eles serem absolutamente imprevisíveis, morderem, cuspirem e babarem o tempo todo, nem de se parecerem com pequenas miniaturinhas de gente, não (se bem que tudo isso conta a favor). Não me assusta eles estarem sempre molhados de alguma coisa, não importando de que lado você os segure. Também não ligo pro lance sobrenatural de eles olharem fixamente para um ponto um palmo acima da minha cabeça, um hábito que sempre me faz ir até o espelho para ver se minha áurea está apresentável e bem penteada. Embora devesse, nada disso me dá medo.
Meu problema com os bebês é que eles são meio gelatinosos. Pior, eles têm um buraco na cabeça, um vão enorme e cartilaginoso que as pessoas – mães, principalmente – preferem chamar de "moleira", para não lembrar que seus filhos, bem, têm um bu-ra-co-e-nor-me. Na cabeça.
Eu sei que o cara que projetou esses bípedes precários que somos nós foi bem-intencionado ao criar a "moleira". Afinal, pobres das mães que tivessem de parir um rebento com a cabeça do tamanho normal de uma criança desmoleirada. Então, bolaram a "moleira", saca só: deixaram o crânio dividido em placas meio móveis, que se sobrepõem no momento do parto. Tipo pecinha de Lego, só que, depois, elas não formam um forte apache e sim um bebê. Com "moleira". E é por isso que nenês são tão molengas. Você também ficaria chapado se soubesse que tem um buracão na cabeça, não?
Aí, acontece de a criança ir crescendo e o tal do buraco ir sendo preenchido com Responsabilidades, Obrigações, Valores e Moral. Quando a cabeça é capaz de segurar as idéias quietinhas lá dentro, diz-se que o moleque virou hominho. E é quando eu, enfim, deixo de ter medo deles.

The Soft Spot
I must confess: babies make me scared. It’s not just the fact that they are completely unpredictable, bite, spit and drool all the time, nor is it because they look like little miniatures of people (although all this counts as a plus). It doesn’t scare me that they’re always wet of something, no matter what end you hold them from. I also don’t mind that supernatural way they keep staring at a fixed point about 5 inches above my head, a habit that always makes me laugh and check my aura in the mirror to make sure it’s well combed and presentable. Although it should, none of this frightens me.
My problem with babies is that they’re kind of gelatinous. Even worse, they have a hole on their heads, an enormous, cartilaginous gap that people – mothers mainly – prefer to call a “soft spot”, to avoid thinking that their kids, well, have an e-nor-mous-hole. On their heads.
I know that the guy who designed these precarious bipeds, which are us, had all the best intentions when he created the “soft spot”. After all, I pity the mother that would have to endure giving birth to a baby with a “soft spotless” head in all its size and glory. So, they came up with the “soft spot”. Check it out: they divided the skull into semi-mobile parts, which sort of cram over each other at the moment of birth. A bit like Lego, but afterwards, instead of an Apache fort, you get a baby; with a “soft spot”. You’d also act weird if you knew you had a hole on your head, wouldn’t you?
Then, the child grows up and the hole on their head gets filled in with Responsibilities, Obligations, and Moral Values. When the head is capable of keeping these ideas still inside, it is said that the boy has become a man. And, that’s when I finally stop being afraid of them.
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Debaixo do pano*
ORAÇÃOZINHA
Dente molar tem raiz quadrada?
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Claro que não: bebês quicam. É horrível.
Acho que é, a partir daí que, 'cê deveria sentir mais medo. Quando eles começam a achar que pensam e podem mandar em tudo e em todos.
E eu lá sou mulé pra sentir medo de ômi, Danilo? É por isso que eu sempre ando com um spray de pimenta na bolsa.
Mas que conste dos autos que eu a-do-ro criança, Ingrith! Especialmente quando elas estão naquela fase boa de fazerem mil perguntas, minha idade preferida.
Ai, jisuis, achei que ninguém dava pelota pra Resenhinhas e coloquei em Livros. Vai lá que estão todos os textinhos lá. Ah, em breve, teremos livros infantis falados por aqui! Me aguarde, Márcia!
Ai, Márcia, fiquei tão emocionada que até vou voltar a escrever as resenhinhas! Daqui a pouco subo uma em sua homenagem!
Se puder divulgar ou ajudar de alguma forma, eu agradeço.
Já ajudei um pouco com a ração deles, mas o que os bichinhos precisam mesmo é de donos carinhosos, como ela mora perto de SP, talvez você conheça alguem que queira os filhotinhos.
abraços,
Mila
Ai, Mila, que dó! Vamos lá, leitores guindásticos de SP, que tal adotar um gatinho?
descobri vc no ozzi.
Gostei do seu site/blog, dos (poucos) textos que li (Moleira, gata-vaquinha, etc), achei voce ótima, criativa. Parabéns.
Quando eu crescer, quero ser igual ao Ozzy, que está proibido pelo seu login de entrar no próprio blog e, ainda assim, tem audiência! Seja bem-vindo, Luis! Senta, fica à vontade... quer um café?
Quanto tempo será que demoram para sumir? Porque conheço muito adulto cabeça oca...
O Leonardo é uma coisinha gelatinosa linda....que me dá um certo medo/insegurança em relação ao banho e a moleira....
E espero também que os espaços a serem preenchidos, sejam iguais ao que disse: - Aí, acontece de a criança ir crescendo e o tal do buraco ir sendo preenchido com Responsabilidades, Obrigações, Valores e Moral.
E de tudo que li...são 6 pequenas aberturas (duas superiores e quatro laterais)temos mtos espaços para serem preenchidos.
Att
Cassia
Seis aberturas?!? Santo Deus, Cassia, depois dessa, não pego mais bebê nenhum no colo!








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