Profissão: repórter

Minha temporada na televisão durou exatamente um ano, tempo suficiente para eu perceber que meu negócio é mesmo o jornalismo escrito e não o falado. Trabalhar num telejornal dá um pique alucinante. Você precisa inventar uma pauta boa, arranjar os personagens, entrevistar todo mundo e botar o link ao vivo em poucas horas. Hoje, é matéria sobre ataque de pitbull; amanhã, alagamento no viaduto; depois, coletiva com o presidente da Fiesp. A coisa não pára nem na madrugada. Fiquei besta em perceber que eu era a única incomodada por tirar as pessoas da cama às 6h ou ligar no celular de um especialista às 23h: de uma maneira geral, todos se prontificavam a falar rapidamente comigo, ainda mais se a matéria fosse ao vivo. Coisa espantosa. Também já fui corrida com minha equipe de um evento, me neguei a fazer entrevistas em velórios, participei de debates políticos. Este desenho, quase um auto-retrato, fiz depois de uma avaliação da fonoaudióloga. "Sua voz é ótima para TV, você precisa só perder o sotaque. Agora, se quiserem que você vire repórter, você vai passar por uma reformulação completa de imagem: alisar o cabelo, mudar essas roupas, mudar esses sapatos. Repórter é uma coisa mais clássica, sabe? Você é alternativa demais para a TV." Ainda bem que, ao menos aqui, posso ser quem eu sou.
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Isso significa que eu teria que torturar meus entrevistados? Omg...
Olha, dona Carolis, também acho que você sendo você tá bom demais.
Inclusive, obrigado pelas dicas de escrita. Pedi demissão do colégio, e agora sou escrivinhador de dissertação em tempo integral.
Não postei mais no blog, pois não me permitem loggar naquela merda.
Só por isto.
Agora, sim, vou abrir a Terapia de Rock, e mandar às favas a Ozzylandia.
É isso.
No mais, saudades.
Ave!
Numcredito que não deixam você escrever no próprio blog! Que sacanagem! Mas tá mais que na hora de começar sua Terapia, mesmo. Já tenho até consulta marcada. E vê se não some!
Esse negócio de tomar suco de mato e viver de luz não é comigo, não...
Bem, eu tenho cabelo encaracolado, adoro roupas coloridas e não consigo me imaginar longe dos meus sapatos boneca. TV não é mesmo para mim, Stella.
Rá, ela é uma profissional de TV, Danilo. Tendeu como funciona a coisa?
É de máxima urgência; em caráter de urgência vaptivuptissima a instalação de uma força tarefa, um comitê, ou qualquer coisa assim. Devemos formar barricadas em todos os meios de comunicações de que dispormos no país. Fortalecermos todas as academias literárias regionais, estaduais, nacionais, internacionais (Portugal, Timor Les-te e etc.). Devemos fazer uma ampla aliança com todo aquele que faz uso da palavra em português. Uma aliança que açambarque o clero, os ecologistas, os comunistas, os liberais, os capitalistas, os capitalistas selvagens e vigaristas de todos os tipos com um só objetivo: o extermínio a longo prazo do vírus do Gerundísmo. Em médio prazo é ta-refa impossível, ele já avançou demais. Devemos prevenir os outros países de língua portuguesa para este grande cataclismo.
Acompanho com certo distanciamento a questão da polêmica em torno dessa cor-ruptela em nossa lígua-pátria; desde 2004, quando retornei aos estudos para prestar concurso público. O primeiro artigo que li sobre este fenômeno foi no Jornal Folha de São Paulo na coluna do Pasquale Cipro Neto. Eu tinha observado esta expressão e a-chava que alguma coisa estava errada na expressão, mas não tinha clareza sobre ela; o artigo me ajudou a compreendê-la, mas não sabia o quão grave era a situação. Na épo-ca, me pareceu ser coisa endêmica, estava circunscrito às operadoras de tele marketing. Hoje o vírus se espalhou. É epidêmico, de forma tal que toda e qualquer pessoa que trabalhe com o público se não se contaminou se contaminará. É tão somente uma ques-tão de tempo.
Há semanas, ouvi a notícia que um governador de estado tinha proibido o uso do gerúndio em sua administração. A primeira vista pensei que fosse um exagero. Ao co-mentar no trabalho outros pesaram também. Me enganei, não foi.
Uma repressão digna de um Pit-bull feroz para o uso do gerúndio parece ato de extrema severidade de um governante. Assim pode pensar, também, quem nunca viu uma criança ser dilacerada por uma destas feras. Este ato é justificável, muito embora o governante não o confesse, se ele, como eu, se visse flagrado falando: "...eu posso es-tar assinando."
Sim, é verdade. Infelizmente é verdade. Confesso! Falei e não vou negar. Não sou governador de coisa alguma e, atualmente, não estou governando nem a minha própria vida.
Abria uma conta no banco, quando a responsável pelo procedimento me disse:
- O senhor pode estar assinando, aqui; aqui; aqui e aqui, enquanto me mostrava as folhas e os lugares.
Titubeei em dos lugares e perguntei:
- Aqui; eu posso estar assinando aonde?
Pronto, perdi!
Junto com o flagra, subiu-me um pavor; uma sensação horrível de mal estar, que senti saindo do plexo solar e subindo pelo pescoço em direção a cabeça. São estes os sintomas de quem está conscientemente acometido pelo vírus. Foi como se eu assistis-se ao vídeo em que me visse roubando uma gravata num shopping center. Por isso o motivo deste apelo desesperado de alguém que além de não falar corretamente, tam-bém não escreve direito. Mas, não gostaria de morrer contaminado por um vírus que algum descuidadoso de nossa língua deixou passa pela alfândega das traduções auto-máticas. Não sou um filólogo, mas me considero um simpatizante.
Bem! Com isto dá para entender como é que se sentiria um filólogo que - num co-chilo do hemisfério esquerdo de seu cérebro¬ – se visse em um flagrante como este. Te-ria uma síncope, não a literária, mas a médica. O vírus o levaria a morte sem sombra de dúvida. Maior a consciência, maior a gravidade dos sintomas.
Não sei qual o nome do governador e nem se ele é um filólogo ou simpatizante e muito menos o estado que ele governa, mas tem o meu apoio. Todos os outros gover-nadores deveriam imitá-lo, para o bem de nossa língua. Os políticos subiriam também em meu conceito se além de reprimirem o gerundísmo reprimissem também os Pit-bulls, para o bem de nossas criancinhas.
Vida longa as criancinhas, aos filólogos e aos simpatizantes!
Carlos Eduardo da Silva e Taubaté para cidade grande. 30 de outubro de 2007.
Socorro! Espero que não seja contagioso, Carlos!








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