Banner do Barão de Itararé





O brinquedo perfeito

As lojas de artigos infantis andam repletas de bonecas que sabem distinguir pizza de mingau, robôs que andam sozinhos e games com gráficos tão realistas que fazem a realidade parecer desenho de criança. Acho engraçado que os pais se disponham a desembolsar até R$ 2.000 em um "pônei em tamanho real que emite sons de relincho iguais aos de um cavalo de verdade" ou numa fantasia de princesa de R$ 500 com cristais swarovski, quando uma criança se divertiria muito mais dando umas voltinhas num pangaré qualquer ou vestindo as roupas e sapatos da mãe.

Na contramão dessas inovações tecnológicas, cresce o nicho dos brinquedos que estimulam a coordenação motora, desenvolvem a imaginação, melhoram a auto-estima e promovem a paz entre as nações. Acho bonito isso, mas desde que me conheço por gente, sei que esse negócio de brinquedo educativo é coisa de pai desocupado. Criança gosta mesmo é de qualquer coisa que faça muito barulho ou sujeira, suscite brigas e, claro, envolva algum grau de proibição. Bloquinhos de montar podem até entreter, mas encha um moleque com canetinhas, coloque-o perto de uma parede branca por mais de meia hora e veja o que é diversão de verdade.

Quando eu era criança, meu segundo passatempo preferido era rabiscar as Barbies da minha irmã (o primeiro era esconder meus pôneis para não serem alvo de vingancinha). Adorava uma tesoura: passei longas tardes testando novos cortes de cabelo nas bonecas, redecorando as cortinas e fazendo franjas no lençol. A fase durou até que eu iniciasse uma carreira de design de sobrancelhas. Com apenas uma tesourada, descobri que mães podem virar seres assustadores e que sobrancelhas são mais que toldos dos olhos, além de demorarem um bocado para crescer novamente.

Subi em árvore com espinho, desci escorregador de ponta-cabeça, passei trote por telefone, escrevi palavrão em vidro de carro empoeirado, botei sal no açucareiro. Colecionei chiclete mascado, dente de leite caído e bigode de gato, isso sem falar num vidro com casquinhas de ferida que mantive abastecido por anos, escondido no estrado da cama. Fiz experimentos gastronômicos com pasta de dente, pecinha de Lego, tijolo, papel higiênico encharcado, bituca de cigarro, areia, lustra-móveis, grama, ração de gato, giz de cera, terra e, provavelmente, alguma formiga desavisada. E adorava ver como as coisas eram por dentro: desmontei um despertador, um controle remoto e duas caixinhas de música. Só abandonei a eletrônica depois de tentar consertar sozinha um aparelho de som portátil e ter de jogá-lo em partes no lixo, um saquinho por semana, para minha mãe não descobrir.

Depois de uma infância tão pacata como essa, acho que o melhor brinquedo que uma criança pode ter hoje é uma boa coleção de hidrocor, uma tesoura e uma caixa bem grande de papelão. Se bem que vai ser difícil transformar em castelo a caixa fininha das TVs modernas...

Pés de crianças vistos debaixo de uma casa na árvore



Posts similares:
A xícara de porcelana chinesa
A fada banguela
Uma idéia sem pé nem cabeça?

(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Comentário de: Katia Lopes Email
Concordo plenameeeeeeeeeeeeeeente!!!
Não podemos mais brincar na rua, não temos mais Xuxa, Trem da Alegria, Balão Mágico... As crianças dos anos 80 foram felizes e nem sabiam...

Ah, Katia, acho que nós fomos felizes e sabíamos, sim.
PermalinkPermalink 12.10.07 @ 21:11


Comentário de: Aline Email · http://casadocacete.blogspot.com
Carol, concordo total. Nem mesmo a vaidade adulta me faz não ter orgulho das 'medalhas' adquiridas em tombos de bicicleta sem freio e arranhões quando brincava de pique-esconde e achava uma árvore o melhor esconderijo.

Ah, eu também era hair stylist das minhas Barbies - e minha tb, rs.

Beijoca.

Eu também tenho algumas medalhas espalhadas pelo corpo, Aline.
PermalinkPermalink 13.10.07 @ 15:57


Comentário de: Camila Email
Ola Carol!! descobri a pouquíssimo tempo o seu blog e agora me pego vindo aki todas as semanas pra bisbilhotar o que vc escreve =D
Tb era viciadaa numa tesoura.. cortava tudo que via pela frente (so nao cortava o cabelo das minhas barbies pq elas eram a minha maior paixão) e o que me fez parar foi o dia que minha mae soube que eu tinha cortado meus cílios (sim, isso mesmo, os meus cílios!!!) detalhe: eu jah nao era nenhuma criança... foi uma fase dificil de passar.. hehe

Puxa, sempre quis cortar cílios! Se demorarem que nem sobrancelha para crescer, menina, você deve ter ficado com um olhar estranho por uns bons meses, não?
PermalinkPermalink 15.10.07 @ 17:36


Comentário de: bia Email
Por que sera que as pessoas tendem a esconder seus mais pecaminosos pecados? Voce náo citou o dia em que resolveu redecorar as paredes do quarto de empregada de nosso apartamento ALUGADO, com uma linda paisagem, criada com muita canetinha hidrocor e uma enorme dose de criatividade.

Eu podia estar matando, eu podia estar roubando...
PermalinkPermalink 17.10.07 @ 09:15


Comentário de: Denis
Eu nunca gostei da Xuxa, e desses trem da alegria... preferia escutar os discos do meu pai. E sempre fui muita mais de brincar na rua, sempre tive videogame em casa e nunca fui nerd ou me trancafiava dentro de casa, isso vai de cada um, infelizmente não é os brinquedos de hoje, é a violência e a tendência das crianças a se isolarem por conta da retribalização dos povos que acontece hoje por conta da tecnologia que é evidente... Esses dias conversando com uma menina de 6 anos perguntei se ela sabia brincar de pega-pega me assustei qdo ela disse que não...

"Retribalização dos povos"? Ai, jisuis...
PermalinkPermalink 17.10.07 @ 11:31


Comentário de: Ana Paula Email
Olá, como vai?
Descobri por acaso seu blog hj, e pretendo me tornar frequentadora, pois adorei seus posts. eu tb tive essas fases, e adorava descer de carrinho a rua de casa q era cascalho e pedras..rss
Detalhe, o freio do carrinho eram os pés, imagina a situação q eles ficavam depois.... rss
beijos

Adulto que não tem orgulho de suas marcas de ralado não mereceu ter tido infância, não é?
PermalinkPermalink 17.10.07 @ 12:19


Comentário de: Gutemberg Email · http://www.eitagota.blogspot.com
Rapai, fui criança na decada de 80 e fui feliz sim, não tinha irmã, muito pelo contrario em 88 naceu meu irmão, ai distroçou o qu eeu tinha, mas antes disso acho que fiz todos os esperimentos possiveis do meu tio, que é um pouco masi velho que eu hehe, cai de bicicleta, de arvore, comi terra, matei bixinhos ( varias atrocidades de criança) sinto saudade claro, mas isso passou, realmente sinto pelas criança de hoje não poderem fazer nem 1/3 do que a gente fazia =D

há, parabéns pelo texto!

E viva os comedores de terra!
PermalinkPermalink 17.10.07 @ 14:03


Comentário de: carol · http://www.dislexicamente.blogspot.com
falava sobre isso hj mesmo, pq vi numa loja uma moto enooorme que acelera, acende luz e custa R$2.000.
triste mesmo, essas crianças que nunca vão saber o que é cair de uma árvore.

Vamos propor um Tratado dos Direitos das Crianças com um artigo "Toda criança tem a obrigação de cair de árvores, skates e bicicletas", que tal, xará?
PermalinkPermalink 28.10.07 @ 23:07


Comentário de: gflghj Email
Boa

Valeu!
PermalinkPermalink 11.03.08 @ 14:51


Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.

Tags XHTML permitidas: <p, ul, ol, li, dl, dt, dd, address, blockquote, ins, del, span, bdo, br, em, strong, dfn, code, samp, kdb, var, cite, abbr, acronym, q, sub, sup, tt, i, b, big, small>
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Set cookies for name, email and url)
(Allow users to contact you through a message form (your email will NOT be displayed.))

Post anterior: Mais tabuada na cama

Próximo post: O reflexo infinito

 

O que é Carol Costa?
Busca







Receba por e-mail
 


Guindaste no
Twitter




Translations by
Maubuch

 

[ La Brute - Jogo Online em Flash Grátis ]
PageRank