Uma porquinha chamada Olivia

Se você, como eu, não tem filhos, há uma boa desculpa para dar um pulo numa seção de livros infantis: Olivia. Como você não tem herdeiros, é possível que nunca tenha ouvido falar nessa porquinha genial, criada pelo escritor e ilustrador americano Ian Falconer, em 2000. Então senta que eu explico.
Olivia já ganhou dezenas de prêmios, prova de que mesmo um livro com imagens e textos simples pode ser, sim, uma obra-prima. Conta a história da porquinha do título, uma típica criança hiperativa que deixaria O Menino Maluquinho no chinelo – aliás, como o clássico de Ziraldo, Olivia também tem ilustrações quase monocromáticas, com um bom uso do vermelho aqui e ali.
Como o livro tem poucas palavras, costuma ser recomendado para crianças bem pequenas, o que é uma dupla sacanagem. Primeiro, porque leitores assim tão jovens não são capazes de captar as ironias e sutilezas da obra. Segundo porque, com uma classificação dessas, é preciso ser bem fanático para alguém que não tem filhos se aventurar nas seções infantis, com garotinhas chorando, moleques tirando meleca do nariz, bebês chacoalhando livros como se fossem brinquedos e pais histéricos.
Por algum motivo que me foge à compreensão, a editora Globo, que publicou o livro no Brasil, em 2001, até agora não acordou para os outros volumes da série, que cresce a cada ano. Quando fui para Buenos Aires, o segundo passeio estranho que fiz foi conferir a seção de infantis da livraria Ateneo Grand Esplendid. Assim que bati os olhos em Olivia Salva el Circo, Olivia... y el Juguete Desaparecido e Olivia y Su Banda – escritos em um idioma que eu entendo! – fiz questão de comprar. Y lo digo: Olivia continua muy graciosa!

PS: Essas duas esculturinhas aí de cima fazem parte de uma série de papel machê que fiz inspirada na porquinha, de quem virei fã
A Piglet Named Olivia
If you, like myself, don’t have children, here’s a good excuse to pop down to the kiddie corner of book store: Olivia. As you have no heirs, it’s possible that you’ve never heard of this incredible little piggy, created by the American writer and illustrator Ian Falconer, in 2000. Well, take a seat and I’ll explain it all to you.
Olivia has won dozens of prizes, proof that even a book with simple text and images can become a masterpiece. It tells the story of the eponymous little piggy, a typical hyperactive child that would put O Menino Maluquinho (think Dennis the Menace) to shame – which, by the way, uses practically monochromatic illustrations, just like Ziraldo (the author of Menino Maluquinho), apart from some clever uses of red here and there.
As the book has few words, it’s recommended for very young children, which basically hits two birds with the same stone. Unfortunately they’re the wrong birds. First, children that young won’t be able to fully appreciate the subtleties and ironies of the book. Second, due to its classification, if you’ve got no kids of your own, you’ve got to be an Olivia the Pig fanatic in order to venture into the kiddie corner with all those crying, little girls, nose-picking, little boys, babies shaking books as if they were toys, and hysterical parents.
For some incomprehensible reason, editora Globo, which published the book in Brazil in 2001, has not woken up to the other volumes in the series, which grows annually. When I went to Buenos Aires, my second weird daytrip was to the kiddie corner of the Ateneo Grand Esplendid bookshop. As soon as I saw Olivia Salva el Circo, Olivia... y el Juguete Desaparecido and Olivia y Su Banda – written in a language I could understand! – I just had to buy them. And I must say: Olivia is still muy graciosa!
PS: The two little sculptures above are part of a series in papier-mache, which I made inspired by the piglet, of which I’ve become a fan.
A moleira
Preciso confessar: bebês me dão medo. Não é só o fato de eles serem absolutamente imprevisíveis, morderem, cuspirem e babarem o tempo todo, nem de se parecerem com pequenas miniaturinhas de gente, não (se bem que tudo isso conta a favor). Não me assusta eles estarem sempre molhados de alguma coisa, não importando de que lado você os segure. Também não ligo pro lance sobrenatural de eles olharem fixamente para um ponto um palmo acima da minha cabeça, um hábito que sempre me faz ir até o espelho para ver se minha áurea está apresentável e bem penteada. Embora devesse, nada disso me dá medo.
Meu problema com os bebês é que eles são meio gelatinosos. Pior, eles têm um buraco na cabeça, um vão enorme e cartilaginoso que as pessoas – mães, principalmente – preferem chamar de "moleira", para não lembrar que seus filhos, bem, têm um bu-ra-co-e-nor-me. Na cabeça.
Eu sei que o cara que projetou esses bípedes precários que somos nós foi bem-intencionado ao criar a "moleira". Afinal, pobres das mães que tivessem de parir um rebento com a cabeça do tamanho normal de uma criança desmoleirada. Então, bolaram a "moleira", saca só: deixaram o crânio dividido em placas meio móveis, que se sobrepõem no momento do parto. Tipo pecinha de Lego, só que, depois, elas não formam um forte apache e sim um bebê. Com "moleira". E é por isso que nenês são tão molengas. Você também ficaria chapado se soubesse que tem um buracão na cabeça, não?
Aí, acontece de a criança ir crescendo e o tal do buraco ir sendo preenchido com Responsabilidades, Obrigações, Valores e Moral. Quando a cabeça é capaz de segurar as idéias quietinhas lá dentro, diz-se que o moleque virou hominho. E é quando eu, enfim, deixo de ter medo deles.

The Soft Spot
I must confess: babies make me scared. It’s not just the fact that they are completely unpredictable, bite, spit and drool all the time, nor is it because they look like little miniatures of people (although all this counts as a plus). It doesn’t scare me that they’re always wet of something, no matter what end you hold them from. I also don’t mind that supernatural way they keep staring at a fixed point about 5 inches above my head, a habit that always makes me laugh and check my aura in the mirror to make sure it’s well combed and presentable. Although it should, none of this frightens me.
My problem with babies is that they’re kind of gelatinous. Even worse, they have a hole on their heads, an enormous, cartilaginous gap that people – mothers mainly – prefer to call a “soft spot”, to avoid thinking that their kids, well, have an e-nor-mous-hole. On their heads.
I know that the guy who designed these precarious bipeds, which are us, had all the best intentions when he created the “soft spot”. After all, I pity the mother that would have to endure giving birth to a baby with a “soft spotless” head in all its size and glory. So, they came up with the “soft spot”. Check it out: they divided the skull into semi-mobile parts, which sort of cram over each other at the moment of birth. A bit like Lego, but afterwards, instead of an Apache fort, you get a baby; with a “soft spot”. You’d also act weird if you knew you had a hole on your head, wouldn’t you?
Then, the child grows up and the hole on their head gets filled in with Responsibilities, Obligations, and Moral Values. When the head is capable of keeping these ideas still inside, it is said that the boy has become a man. And, that’s when I finally stop being afraid of them.
Citoplasma, nucleotídeo e outros babados

Não me arrependo de nenhuma musiquinha cretina ou diagrama tosco que fiz para decorar tudo quanto é fórmula e informação inútil que me foram enfiadas goela abaixo na escola. "Agumas Zebras Correm Felizes, Ninguém Sabe Porque", me ajudou a memorizar uma parte da tabela periódica, mas é claro que não lembro mais qual. Aliás, a aula de química era recordista em musiquinha boba, "o-que-que-o-ácido-faz?-Li-be-ra-o-a-gá-mais-Na-base-o-que-vemos?-Li-be-ra-o-a-gá-menos" e outras composições primorosas. A questão é que, por imbecilizantes que fossem, essas gracinhas ajudavam a memorizar coisas que foram feitas para serem decoradas. Pra que eu vou usar Molibidênio na vida, alguém me diz? Ou Vanádio? Háfnio...
Apesar de a química ser a minha provação na Terra, foi na biologia que me sai melhor em fazer desenhos para memorizar. E como eu adorasse citologia, fiz uma ilustração tosquíssima de uma célula com todas as organelas e funções: as mitocôndrias eram uma usina elétrica, o Complexo de Golgi, um português num mercadinho, o retículo endoplasmático, um complexo sistema de metrô – e ainda desenhei bolinhas para diferenciar o retículo endoplasmático rugoso (RER) do retículo endoplasmático liso (REL). Como a ilustração está num estado deplorável, só vou colocar aqui alguns detalhes, como a autofagia (representada por um homem mordendo o próprio braço), o ergastoplasma com o metrozinho do RER e o vacúolo digestivo (uma psicodelia completa, com um liquidificador processando o fagossomo e o pinossomo, simbolizados por uma coxinha de frango e uma gota, respectivamente).
Espero que não apareça por aqui nenhum professor de biologia...
A oração
– É mais fácil do que parece.
Vá por mim, nunca acredite em alguém que diz uma coisa dessas segurando as rédeas de um cavalo.
– Quer experimentar?
E lá fui eu para minha primeira aula de volteio, depois de ficar meia hora debruçada na cerca, olhando os alunos fazerem acrobacias inacreditáveis enquanto galopavam.
– Eu vou montar esse aí?
– Não, esse aqui já trabalhou muito por hoje. Fica tranquila que vou arranjar um outro bem macio para você trabalhar.
Ficar tranquila é a segunda coisa que você não deve fazer. Dez minutos depois, chega o tal do bem macio para trabalhar.
– Bons posteriores, assento confortável, força de tração. Um brinco.
Pareceu a descrição de um trator, mas, surpreendentemente, era de um cavalo bege que a professora falava. Um cavalo bege gigantesco. Sério. Descomunal. Um coice e ele derrubaria uma parede.
– Como ele chama?
– Jadida. É ela.
Dei aquela conferida perto das patas traseiras, duas colunas de músculo que sustentariam um prédio de três andares.
– Mas... e aquilo ali?
– Cavalos são bem-dotados, não são? Éguas também precisam ser.
– Wow! Tem certeza de que isso é um cavalo? Não pegaram um mamute sem querer, não?
– Ela é bretã. É uma raça de tração; uma égua dessas puxa um carro. Para você ter uma idéia, um cavalo normal pesa o quê?, uns 400, 500 quilos. Ela pesa 750 quilos. Ou melhor, pesava, ela deu uma emagrecida depois que veio para o volteio.
– É?
– Ah, agora está uma miss. Pesa 730 quilos. A dieta deixou a bichinha meio temperamental. Mas hoje você não vai derrubar a moça, né, Jadidinha?
– Vai lá e corra ao lado dela, acompanhando o galope. Quando estiver pronta, dê um impulso com a perna e suba.
– Como assim, "suba"? Cadê a sela?
– Não tem sela.
– Nem estribos?
– Nem estribos. Você vai se apoiar naquela estrutura que está no cavalo, tá vendo? Chama cilhão.
– Senhordeus.
– Relaxa, eu te ajudo a subir na primeira.
– A subir e a permanecer em cima, você quer dizer, né?
– Você consegue, é mamão com açúcar.
Depois de três tentativas – uma escada ia bem –, cá estou eu três metros acima do chão, tendo entre mim e uma égua de quase uma tonelada apenas uma mantinha preta. A coisa ia bem até que ela resolveu abaixar a cabeça.
– Ahhhhhh!!!
– Ela coçou a pata.
– Faz ela parar!!!
– Não precisa ficar com medo, ela já voltou a cabeça.
– Eu quase cai!
– Isso aí embaixo de você está vivo. É normal o bicho se mexer, espantar uma mosca, se coçar. Às vezes, eles tropeçam, escorregam. Acontece.
– Ahhhhh, agora eu quero MESMO descer!
– Você está indo muito bem. Vamos ver se consegue ficar de joelhos.
– Avemaria...
– Boa, continua rezando que está ótimo.
– Painossoqueestaisnocéu...

Profissão: repórter

Minha temporada na televisão durou exatamente um ano, tempo suficiente para eu perceber que meu negócio é mesmo o jornalismo escrito e não o falado. Trabalhar num telejornal dá um pique alucinante. Você precisa inventar uma pauta boa, arranjar os personagens, entrevistar todo mundo e botar o link ao vivo em poucas horas. Hoje, é matéria sobre ataque de pitbull; amanhã, alagamento no viaduto; depois, coletiva com o presidente da Fiesp. A coisa não pára nem na madrugada. Fiquei besta em perceber que eu era a única incomodada por tirar as pessoas da cama às 6h ou ligar no celular de um especialista às 23h: de uma maneira geral, todos se prontificavam a falar rapidamente comigo, ainda mais se a matéria fosse ao vivo. Coisa espantosa. Também já fui corrida com minha equipe de um evento, me neguei a fazer entrevistas em velórios, participei de debates políticos. Este desenho, quase um auto-retrato, fiz depois de uma avaliação da fonoaudióloga. "Sua voz é ótima para TV, você precisa só perder o sotaque. Agora, se quiserem que você vire repórter, você vai passar por uma reformulação completa de imagem: alisar o cabelo, mudar essas roupas, mudar esses sapatos. Repórter é uma coisa mais clássica, sabe? Você é alternativa demais para a TV." Ainda bem que, ao menos aqui, posso ser quem eu sou.
Seguro anti-Nero
– Putaqueupariu, sete da madrugada e os gatos já estão com fome!
Acordei com o inconfundível som de quatro pares de patas arranhando a porta. Eram 7h, horário que nem os passarinhos ousam piar perto da minha janela, com medo de retaliações. Abro a porta e dou de cara com o Oto, naquela calma que só um gato cego é capaz de ter.
Mas tinha alguma coisa errada nele, algo que não percebi de pronto. Me abaixei para um afago mau-humorado, onde já se viu, acordar a dona tão cedo... Foi só então que senti o cheiro, aquele aroma de plástico derretido. Depois, reparei que o gato tinha uns pêlos meio fumegados no peito, epa, e os bigodes também estavam retorcidos, como cabelo queimado. Com seus olhos míopes, Oto me olhava de um jeito que só pode ser pena. Levei uns bons trinta segundos para fazer a equação: cheiro de queimado + gato com pêlo fumegado + bigodes retorcidos = putz...
O leite estava fervendo no fogão desde as 22h do dia anterior. A leiteira torrou, o teflon derreteu, o cabo se liquefez e o Oto deve ter ido tentar uma boquinha na madrugada. Do que só posso concluir que anjo da guarda de gato é bem mais eficiente do que de gente.

PS: Este post é inspirado no texto "Gagá", de outro aprendiz de Nero, o Michel.
Copa Júnior de Apetrechos Bizarros
Cabedal em mesh aberto e sistema shot com plylon na parte frontal. Essa poderia ser a descrição de uma aspirador de pó ou de uma caldeira industrial, mas é de um simples tênis, ou melhor, de uma "solução inteligente para suas corridas", algo que promete melhorar a performance do velocista – além de deixá-lo R$ 569,90 mais leve.
Só em São Paulo para existir uma megastore como a Decathlon, o templo do consumo para atletas profissionais ou esportistas de final de semana como eu. E a loja não só existe como vive lotada: são 3.200 metros quadrados de toda a sorte de roupas e quinquilharias para práticas tão variadas quanto canoagem, escalada ou balé. De sofisticados equipamentos de mergulho a petecas, há acessórios para quase todo tipo de esporte por água, terra ou ar.
A variedade de produtos atordoa. Só na categoria pisante, há nadadeiras, sapatilhas de balé, patins, chuteiras, meias de hidroginástica, botas de escalada, de montaria ou de neve, tênis para skatistas, corredores, maratonistas, mochileiros. Ao todo, são dez mil itens, alguns com nomes bem estranhos, caso de um tal de cobrejão favo, uma espécie de cobertor para cavalos, ou do jumping jig, uma isca de chumbo em forma de lebiste que os peixes engolem achando que é petisco. Por falar em aperitivo, meio quilo de snacks para eqüinos saem por R$ 9,90 – e você ainda pode escolher entre os sabores melaço e maçã.
Um kit de arco e flecha amador custa R$ 449 (não quero nem imaginar quanto vale um arco profissa). Já brincar de Tiger Woods é para quem tem destreza e nenhuma dó de torrar R$ 2.499,90 num kit com 17 tacos de golf variados, desde um especial para tacadas na areia até outro tão grande que poderia ser facilmente confundido com um chuveiro. Para quem acha isso caro, há bicicletas que custam o preço de um carro. Uma delas, com o quadro feito em fibra de sabe-se-deus-o-quê, sai por R$ 7.999,90. "E nem é a mais cara, tinha uma de R$ 15 mil", comentou um atendente.
Fui à Decathlon comprar roupas de baixo térmicas, para me manter aquecida no inverno espanhol que devo enfrentar no final do ano. Estava animada com a viagem até que bati os olhos em um par de luvas com um buraquinho do lado de fora para você assoprar e aquecer as mãos. Se eu precisar de uma coisa dessas para agüentar o frio catalão, desisto de passar no Reveillón em Barcelona!

E a gente se xuringando
– Dona Carol, aquela planta da sala tá doente.
– Qual planta, Joice?
– Aquela bem folhuda, do vaso grande. Tá bichada, dona Carol, cheia de caxombilha!
– Cheia do quê?!?
– Ué, caxombilha, daqueles bichim branco, sabe aqueles besourim peludo?
– Joice do céu, aquilo chama cochonilha! Co-cho-ni-lha!
– Tá, tá. Mas fica preocupada, não, viu, dona Carol, eu vou buscar um baldo com água e acabo com as marvada.
– Balde, Joice! É balde!
– Quem vai buscá é você?
Guimarães Rosa só pode ter se inspirado em gente como a Joice para escrever aquelas boniteza tudo. Ou na Marlene, que há anos é a responsável pela organização e limpeza da casa do meu amigo Luca. Marlene tem um dialeto tão particular que você precisa ficar dias em imersão para captar a poesia de sua conversa. Eis alguns exemplos de marlenices:
– Tô desmariscando o frango, depois, eu levo a cavernagem. (afinal, fazer o quê com uma cavernagem...)
– Arre, seu Luca, pare de aluí com o bicho! (ao que consta, ele estava azucrinando um de seus gatos de estimação)
– Venha ver a gata de cangalha! (para a gatinha que estava ronronando de barriga para cima)
– Tá vendo, seu Luca, éramos tão novinhos e agora tamo aí, tudo xuringando... ("xuringando" seria com "x" ou "ch"?)
A mulher é uma esteta!

A Moça do Tempo vai à escola
Quem conhece o Guindaste de outros carnavais talvez se lembre de algumas tentativas desastradas de oferecer os posts do blog também em áudio. Achei que seria um poRta ou veRde de Peracecaba que acabaria com minha valentia, mas não. "Ficou legal, mas, hmmm parece a Moça do Tempo lendo o blog", foi o comentário mais animador que eu recebi.
Meses depois, comecei a gravar audiolivros de maneira corsária e a Moça do Tempo nublou. Com um pouco de prática, você deixa de se sentir uma imbecil por ler para um computador e a coisa flui melhor – o que, para mim, significa mais poRRRRtas e veRRRRdes por página.
Agora, estou participando de uma oficina de formação de leitores para cegos do projeto Livro Falado. "Vocês videntes sobrecarregam demais a visão: vocês vêem para saber se querem, vêem para saber se gostam, chegam ao cúmulo de ver para ouvir", comenta a Márcia, para arrematar: "vocês têm cinco sentidos e usam um, eu não tenho um, mas uso os outros quatro".
O curso é gratuito e vai até sexta-feira, em São Paulo; depois, migra para Brasília (de 24 a 26 de outubro), sempre nos prédios da Caixa Cultural. Trata-se de uma rara oportunidade de compartilhar a experiência de AnaLu Palma, que há sete anos desenvolve um trabalho de gravação de livros falados para portadores de deficiência e, em breve, deve colocar na internet uma audioteca com mais de 500 obras.
Quem quiser acompanhar um pouco da história de como o Guindaste se envolveu nessa causa, pode dar uma fuçada aqui, aqui e aqui. Não deixe de ler o mais importante de todos os textos, escrito por meu amigo Marlon, cego de nascença. Em breve, a previsão do tempo estará de volta.
Os dois tipos de cretinices
É só o tempo esquentar um pouquinho para eu ser tomada por surtos de cretinice. Cá estou eu, olhando as pessoas do banco do passageiro, quando vejo um judeu ortodoxo atravessando a rua. Vinha com suas roupas longas e pretas num calor de rachar, a barba grisalha e os cabelos compridos presos numa trancinha. Tinha também aquele chapeuzico que eles usam no cocoruto e que eu nunca decoro o nome (solidéu? kibutz? mitzvah?). Não sei o que me passou pela cabeça – juro que não foi de sacanagem –, só sei que, quando dei por mim, estava acenando entusiasticamente para o homem. Foi um aceno feliz, do tipo que as crianças fazem quando encontram o Mickey na Disneylândia ou coisa assim. Por sorte, alguém lá em cima teve pena de mim e o homem nem me viu.
As coisas estúpidas que sou capaz de fazer se dividem em duas categorias. Na primeira, estão as cretinices que eu já fiz, quase sempre sem me dar conta, como foi o caso do tchau pro judeu. Mais comum é eu ficar horas procurando onde foi que eu enfiei os malditos óculos, quando eles nunca saíram de cima do meu nariz. Ou, então, insistir em abrir a porta com a chave errada ou em escrever com a caneta tampada. Tenho vergonha de dizer, mas sempre estou sóbria nessas ocasiões.
O pior tipo de estupidez é aquela que já é sabida de antemão e, mesmo assim, sei que, cedo ou tarde, vou acabar cometendo. Porque gente como eu precisa só contar os dias até que acabe saindo de casa com sapatos trocados, feche o carro com a chave dentro ou use uma meia de cada cor. Ou saia da aula de equitação e só se dê conta de que ainda está com o capacete de montaria no terceiro farol, depois de o motorista do lado olhar estranho.
Eu adoraria dizer que esses são exemplos hipotéticos.

Eis-me aqui!
Primeiramente,
Obrigada por participar!
Sei que não foi fácil chegar aqui.
Também, quem mandou gostar de desafios?
Logo que terminar de ler este texto,
Antes mesmo de comemorar,
Resolva qual dos prêmios você quer.
Afinal,
Não se sabe quantos mais aparecerão!
Já que foi um dos primeiros,
Agarre seu brinde!
De agora em diante, será difícil me achar —
O que é bom para você que já me achou.
Invente um jeito de guardar este endereço
Se é que ele não se apagou!
O reflexo infinito
A cena era a seguinte: em cima da mesa, havia uma fatia de pão, uma faca e um copo de requeijão, cujo rótulo vermelho trazia a imagem de uma mesa com uma fatia de pão, uma faca e um requeijão, em cujo vidro se via uma fatia de pão, uma faca e um requeijão, em cujo. Eu era criança e lembro de ficar horas pensando que o desenhista só podia ter parte com o demo para fazer uma ilustração daquelas, que ia diminuindo ao infinito. Era, sem dúvida, a propaganda mais assustadora de toda a indústria alimentícia dos anos 80.
Desenhos caleidoscópicos como esse sempre me tiraram o sono. Uma vez, vi uma ilustração numa propaganda de revista que mostrava uma mulher de óculos escuros segurando um pequeno espelho. A coisa toda já era meio pirante – os óculos refletiam a imagem do espelho, que refletia a mulher de óculos, cujas lentes refletiam novamente a imagem no espelho... –, mas o autor resolveu tornar sua obra um surto psicótico completo e colocou mais dois espelhos, um atrás da mulher, outro, na frente, de modo que toda a cena era refletida, trifletida e quatrufletida, até o limite da lucidez humana.
Pensando bem, só agora consigo entender porque nunca fui uma criança muito normal.

O brinquedo perfeito
As lojas de artigos infantis andam repletas de bonecas que sabem distinguir pizza de mingau, robôs que andam sozinhos e games com gráficos tão realistas que fazem a realidade parecer desenho de criança. Acho engraçado que os pais se disponham a desembolsar até R$ 2.000 em um "pônei em tamanho real que emite sons de relincho iguais aos de um cavalo de verdade" ou numa fantasia de princesa de R$ 500 com cristais swarovski, quando uma criança se divertiria muito mais dando umas voltinhas num pangaré qualquer ou vestindo as roupas e sapatos da mãe.
Na contramão dessas inovações tecnológicas, cresce o nicho dos brinquedos que estimulam a coordenação motora, desenvolvem a imaginação, melhoram a auto-estima e promovem a paz entre as nações. Acho bonito isso, mas desde que me conheço por gente, sei que esse negócio de brinquedo educativo é coisa de pai desocupado. Criança gosta mesmo é de qualquer coisa que faça muito barulho ou sujeira, suscite brigas e, claro, envolva algum grau de proibição. Bloquinhos de montar podem até entreter, mas encha um moleque com canetinhas, coloque-o perto de uma parede branca por mais de meia hora e veja o que é diversão de verdade.
Quando eu era criança, meu segundo passatempo preferido era rabiscar as Barbies da minha irmã (o primeiro era esconder meus pôneis para não serem alvo de vingancinha). Adorava uma tesoura: passei longas tardes testando novos cortes de cabelo nas bonecas, redecorando as cortinas e fazendo franjas no lençol. A fase durou até que eu iniciasse uma carreira de design de sobrancelhas. Com apenas uma tesourada, descobri que mães podem virar seres assustadores e que sobrancelhas são mais que toldos dos olhos, além de demorarem um bocado para crescer novamente.
Subi em árvore com espinho, desci escorregador de ponta-cabeça, passei trote por telefone, escrevi palavrão em vidro de carro empoeirado, botei sal no açucareiro. Colecionei chiclete mascado, dente de leite caído e bigode de gato, isso sem falar num vidro com casquinhas de ferida que mantive abastecido por anos, escondido no estrado da cama. Fiz experimentos gastronômicos com pasta de dente, pecinha de Lego, tijolo, papel higiênico encharcado, bituca de cigarro, areia, lustra-móveis, grama, ração de gato, giz de cera, terra e, provavelmente, alguma formiga desavisada. E adorava ver como as coisas eram por dentro: desmontei um despertador, um controle remoto e duas caixinhas de música. Só abandonei a eletrônica depois de tentar consertar sozinha um aparelho de som portátil e ter de jogá-lo em partes no lixo, um saquinho por semana, para minha mãe não descobrir.
Depois de uma infância tão pacata como essa, acho que o melhor brinquedo que uma criança pode ter hoje é uma boa coleção de hidrocor, uma tesoura e uma caixa bem grande de papelão. Se bem que vai ser difícil transformar em castelo a caixa fininha das TVs modernas...

Mais tabuada na cama
É nisso que dá fazer pouco do meu prontuário de quase-TOC: hoje tem dobradinha de post. A questão é que quanto mais converso com as pessoas, mais vejo que sou bem normal, normalíssima. Eu já achava estranho que uma amiga tivesse revertérios cada vez que visse alguém escovando os dentes – quando criança, algum cão raivoso deve ter atacado a pobrezinha –, mas aí, hoje, me aparece uma que tem chiliques morfológicos. Isso mesmo: a garota tem calafrios quando ouve palavras. "Não posso falar 'axila' que me sobe uma coisa, ih, olha só, já começou..." Tentei "navalha" e ela quase levantou da mesa.
Perto de gente assim, minha mania de ler bula de remédio não é nada. Gosto também de arrumar frascos e garrafas com os rótulos virados para a frente. Precisa ver que beleza é a minha prateleira de produtos de limpeza – parece foto de revista de decoração. E faço o mesmo com shampoo e condicionador. Também tenho coisas com livros, que organizo por gênero, depois por sub-gênero, depois por ordem de tamanho, depois por cor de lombada e, por último, por ordem cronológica de leitura. Dá uma trabalheira danada medir as lombadas, uma a uma. Preciso gostar muito da pessoa para ela merecer um empréstimo de livro meu.
Mas isso não é nada perto de um figura que conheci na faculdade, que marcava o dia e a hora de tudo quanto é machucado, arranhão, esfolado e casquinha que ele arranjava. Andava com um livrinho pra baixo e pra cima, uma verdaderia enciclopédia de fatalidades. Quero só ver quem vai anotar quando o cara bater as botas de vez. Depois dizem que eu sou estranha...

Cinco vezes sete para dormir
É uma equação cruel: quanto mais velha fico, mais manias acumulo. Não poderia ser diferente, afinal, vim de uma família exímia em normalizar as coisas mais prosaicas possíveis. Quando morava com meus pais, havia observações sobre como dobrar meias, regras para colocar os talheres na mesa e até orientações quanto ao lado certo em que deveria ficar o rolo de papel higiênico. Faca com manteiga na ponta era um delito grave que só perdia para faca engordurada dentro de xícara vazia – isso, sim, um crime inafiançável.
Como boa virginiana – não obstante ser filha e neta de virginianas –, logo passei a criar eu mesma minhas regras, cuidando sempre de não atormentar demais a vida alheia. De todas as manias que adquiri, a maior delas certamente é minha coleção de restrições para dormir: sem meias, com os armários fechados, o quarto na penumbra, um travesseiro magro debaixo da cabeça e outro, gordo, entre as pernas. Passo um terço da noite virada pro lado esquerdo, um terço deitada de costas, o terço final para o lado direito. Ah, e preciso de água no criado-mudo, porque a simples constatação de que a garrafa está pela metade é motivo para desespero e, claro, vou passar o resto da noite acordada. Dosando a sede com a preguiça de levantar.
Conheço muita gente que usa os pés como termômetro do sono, mas eu consegui ir além e transformá-los na minha revisão diária de matemática: esfrego um no outro enquanto mentalizo a tabuada, começando pela família do zero, para animar minha auto-estima. Sempre durmo antes da tabuada do sete, mas fazer o quê se multiplicação é o melhor sonífero que conheço?
Se você acha que contar tabuada antes de dormir é coisa de gente estranha, não tem idéia do que eu sou capaz. Separo as roupas nos cabides por ordem de cor e tamanho. Tenho as bolinhas de meias mais milimétricas do mundo e só uso lingerie de parzinho – aliás, como alguém consegue sair de casa com um sutiã de um conjunto e uma calcinha de outro, valhamedeus?!! Consigo detectar em segundos um quadro torto em qualquer ambiente, incluindo aquelas pinturas medonhas que estampam as paredes de motéis ou os calendários de padarias. Chego a suar frio se alguém não endireita o bendito quadro.
A coisa vai mal, como se vê, e eu poderia encher muitas linhas com outras manias estranhas, como não comer comidas azuis ou odiar manequins de loja com peruca. Um dia, ainda chego no nível de sofisticação de uma amiga, essa sim, doida de pedra, que faz as refeições em um prato com compartimentos porque não gosta que as comidas se encostem. “Não como feijão, feijão é indomável!”, ela explica, pragmática. Me aguarde daqui uns anos.

Malditas - 18

Que o Photoshop é uma ferramenta imprescindível para quem faz ilustrações, todo mundo sabe. O que começo a descobrir é que meu trabalho vem perdendo a "sujeira" comum a todo rascunho não-editado. São detalhes, coisa que só percebe quem já se acostumou a analisar desenhos: um risco que escapou, um traço falho num cantinho, um pescoço longo ou curto demais, várias marcas da estrutura do esqueleto, até mesmo o borrão que minha mão inevitavelmente faz no lado direito do desenho quando uso um grafite mais macio. Com um mínimo de treino no Photoshop, todas essas "manchas" somem num piscar de olhos e o esboço fica com aquele jeito lindo de arte final. É claro que é bom poder apagar com facilidade um erro de proporção ou uma poça de nanquim, mas o problema é que a edição em computador vicia. Olho para meus desenhos mais antigos e fico pensando em retocá-los – esta loira, por exemplo, teria ficado bem melhor sem as marcas no cabelo. Também poderia engrossar um pouco o braço e descer uns milímetros o olho direito. Aí, lembro que esta Maldita, feita com riscos rápidos de BIC e hidrocor amarela, não foi pensada para ser nenhum quadro, não foi desenhada para ser uma arte maior. É um simples rabisco feito ao telefone, dez anos atrás. Isso deveria bastar, mas se eu afinasse um pouco os lábios e encurtasse o tronco só um centímetro, e...
Mais Malditas?
Vicío de nobre, pose de ralé
Tenho dificuldade em entender o que leva uma pessoa de 1,50m a ficar sessenta segundos agachada em cima de um animal de meia tonelada, disparando a 100 km por hora, cercada de outras pessoinhas em cima de seus bichos, todos correndo tão próximos que se um abrir os braços, é capaz de atingir o outro com uma cotovelada. Ainda assim, tenho amigos que faliram por causa de corridas de cavalos, gente que perdeu carro, casa e família porque Éissoai chegou dez centímetros antes de Fight Fenix ou porque Zitroneo simplesmente não tinha acordado num bom dia.
O mais impressionante no turfe não é que exista gente louca o bastante para apostar fortunas em cavalos com nomes engraçados – Udigrudi, Pacman, Francotiratore, Deixa Disso, Miss Amalucai, Fetuccine. O que mais causa surpresa é a rapidez com que alguém vai do Porsche à bancarrota por ter confiado numa quadrifeta 4-6-1-3 e ter vencido a corrida o quarteto 9-6-1-3, com o azarão Aleluia Aleluia em um emocionante primeiro lugar. Nem heroína acaba assim com alguém tão rápido.
Corridas de cavalo têm outra peculiaridade: apesar de ostentarem a mesma pompa e circunstância dos cassinos, com exigência de traje a rigor e desfile de jóias caras, em nenhum outro vício nobreza e ralé estão tão próximos. Os cavalos que chegam facilmente a valer R$ 10 milhões são os mesmos que terminam o páreo cagando e andando. Podem ter manicure e cabeleireiro particulares, mas vão rolar gostoso na terra se tiverem oportunidade ou se coçar num tronco sem a menor cerimônia. Eu, que a vida toda tive tamanho de jóquei, vou torcer para vir Pitchula na próxima encarnação, ah, se vou.

O cofre do leite
Tenho acompanhado com crescente assombro a evolução das embalagens de leite. Em algum momento da pré-história do design industrial, deve ter existido uma criatura capaz de se emporcalhar toda ao entornar uma caixinha Tetra Pak no copo. Graças a esse cidadão obtuso, hoje temos de usar maçaricos para abrir o leite.
Minha mãe sempre ignorou a lei da física que atesta ser impossível dois corpos ocuparem o mesmo espaço. Se você quisesse deixá-la irritada, bastava cortar os dois lados da caixinha de leite e esperá-la se servir. Era diversão e castigo garantidos. De nada adiantava explicar que o ar saía por um lado e o leite pelo outro: em casa, a física vai para a cama sem sobremesa.
Hoje, os supermercados ostentam embalagens longa vida com uma porção de bicos diferentes, na tentativa de tornar o consumo de leite uma experiência realmente transcendental. Há caixinhas com tampas grandes ou pequenas, de pressão ou encaixe, fixas ou removíveis, com travas de segurança e outros opcionais.
O supra-sumo da aparvalhação é uma embalagem quase cilíndrica, com cantos arredondados e um bico plástico redondo, fechado por uma rosca. O aparato todo foi concebido para ser uma espécie de bunker, onde o leite pode repousar tranquilamente sem ser incomodado pelo consumidor. Para abri-lo, você precisa de um pedaço de durex, um alicate e duas camisas limpas. Aqui vão as instruções, previamente testadas: 1) Pegue a caixinha de leite e rompa delicadamente o lacre que prende a rosca, usando para isso uma faca e um alicate; 2) Use um pedaço de durex para tampar o furo que você fez na embalagem; 3) Segure a caixinha com a mão esquerda e vire a rosca três vezes para a direita, uma vez para a esquerda e duas em sentido anti-horário; 4) Recoloque o durex no furo e passe um pano no leite que escorreu no chão; 5) Você saberá que concluiu a operação com êxito quando ouvir sucessivos tlécs dentro da embalagem; 6) Troque de camisa; 7) Beba o que sobrou do leite – você merece.

A anta cibernética*
É nisso que dá deixar que as máquinas dominem o mundo. Mal você passa o corretor ortográfico num texto, o computador já vem com intimidade. Acabo de terminar uma longa reportagem sobre cursos a distância e veja só o que o saliente do meu Word fez com o trecho inicial: “Para quem gostaria de fazer uma pós-graduação lato cinto, Márcia Bote-lhos recomenda uma busca nos currículos cadastrados no sistema latente”. Não entendeu? Não te culpo.
Quem como eu depende de sua produção escrita para não passar fome já deve ter se descabelado com o corretor ortográfico do Word. Espero que esteja se revirando na cova a mente maligna que resolveu “ajudar” os escritores modernos. Agora, cada vez que termino um texto, tenho o duplo trabalho de passar o corretor e checar as alterações cretinas que ele fez à revelia. Senão, vejamos. Para “lato sensu”, aquela graduação dos cursos de curta duração, minha CPU espertinha sugeriu “lato Celso”, “lato seixo” e o ótimo “lato sendo”, que só pode ser a mais nova maravilha da tecnologia on line.
Nem nomes próprios minha anta cibernética poupa, e é por isso que posso escolher entre ouvir uma especialista chamada “Márcia Bote-lhos” (onde? onde?) ou uma militante ecológica com o meigo sobrenome “Botinhos”. “Botelhos”, nem pensar – é claro que não consta do cadastro do corretor ortográfico um sobrenome extravagante desses.
Quando você acha que já viu o analfabetismo digital a fundo, vem a melhor das substituições, capaz de transformar o conhecido sistema de currículos Lattes em um obscuro “sistema latente”. Tenho medo de imaginar que tipo de currículos um sistema desses agrega, mas deve ser melhor do que o conteúdo do “sistema latejes” ou do impressionante “sistema latia”. Não sei o seu computador, mas o meu seria reprovado no Enem – ou “Enchem”, “Enfim”, “Inibem”.
*este post é baseado no ótimo Crônicas de um País Bem Grande, do jornalista Bill Bryson.

O sofá anti-gato
Tenho 20 anos de convívio com felinos – marca só superada pelo fato de eu ter conseguido sobreviver quase sem arranhões a uma estada de três anos em uma casa com 34 gatos. Depois de perder três sofás, oito cortinas, um tapete e várias contas de celular e cartão de crédito, descobri alguns segredos para ter gatos, roupas pretas e uma sala bonita. Tudo ao mesmo tempo, claro.
O primeiro sofá que tive era de brim, material que enchia de pêlos só de os gatos respirarem nas imediações. Em poucos dias, eles desfiaram o tecido e transformaram o encosto numa instalação modernista, com fios pendurados e espumas sobressalentes. Chamei um restaurador. Assim que abri a porta, o homem olhou do sofá para mim, de mim para os gatos, balançou a cabeça negativamente e foi embora sem falar uma palavra. Então, saí em busca de um sofá de couro, na certeza de que o material seria resistente a unhadas. Doce ilusão. A bicharada reduziu uma das almofadas a uma pasta de couro quebradiço.
Resolvi não me entregar sem luta. Afinal, não é porque peguei quatro delinqüentes das ruas que sou obrigada a assistir TV em pé. Adquiri um sofá de vime – a segunda coisa mais estúpida que um dono de gatos pode comprar, perdendo somente para o granulado higiênico de sílica “que não deixa nenhum odor!” e custa R$ 40 um pacote com 1,8kg. Para dificultar os ataques da gangue de bigodes longos, entupi de resina os furinhos da palha. Ficou lisinho e definitivamente à prova de gatos – ao menos até que eles descobrissem como entrar por BAIXO do sofá e o destruíssem de dentro para fora. Um dia, fui sentar e senti que o assento não estava mais macio e acolhedor. Foi quando descobri que estava sentada no chão, tendo entre mim e o piso uma fina camada do que outrora foi uma almofada cheia de espuma.
Com isso, a guerra ficou declarada e passei a me concentrar em estratégias militares. Estudei a curvatura das unhas, a textura dos pêlos, testei diversos materiais e formatos. Quase revesti o sofá com uma lâmina de kriptonita, mas desisti quando soube que o frete é os olhos da cara. Quando já estava desistindo, descobri numa loja de velharias um grande banco de madeira de demolição: era lindo, resistente e custava uma mixaria. Chamei um tapeceiro e apontei com orgulho para uma amostra de chenille creme, ultra chique.
O estofado ficou pronto um mês depois e é preso ao banco por tiras de tecido. Sentei para estreá-lo. Perfeito. O Grafite deu aquela espreguiçada e saiu da toca para inspecionar o inimigo, mas não conseguiu encostar um fio no sofá: eu tinha mandado fazer uma capa impermeável de couro com elástico. Agora, quando saio de casa, abaixo as almofadas do encosto e fecho a capa. Os gatos bem que tentaram, mas não conseguiram fazer mais que alguns furinhos na capa. O chenille creme saiu de moda, mas o sofá continua tão novo quanto no dia em que chegou. Os gatos me olham com despeito.

Atendendo a pedidos, aqui vão três closes do sofá: à esq., Oto fareja uns biscoitinhos em cima do sofá fechado (a branquela no chão é a Lua), à dir., detalhe do elástico da capa e das tirinhas que prendem a almofada ao encosto de madeira, na foto maior, Grafite pula do sofá meio aberto, meio fechado (ele sabe que não pode subir quando tiro a capa).
Jurada de morte
– Não precisa ter medo, viu? Ele vai cuidar bem de você. Toma, a água está aqui. Trouxe Delícias da Granja, olha que gostoso, tem carne, peru, miúdos de frango... E veja só: seu rato preferido! Aqui tem mais espaço, dá uma olhada, um sofá, dois, três sofás inteirinhos para você destruir! Que maravilha, hein? Ah, e não tem nenhum gato com instintos assassinos no pedaço, olha que coisa boa?
Há três meses, Quelé foi jurada de morte pela famiglia. Não sei o que ela andou aprontando, mas os ânimos andavam tão exaltados que bastava cair um prego no chão para os gatos pularem estatelados nas quatro patas, o pêlo eriçado e o rabo igual a um espanador. Quando ela ia até o prato de comida, era abordada por um sujeito alto, forte, de bigodes castanhos e cara de poucos amigos. Se resolvia dar uma espreguiçada no sol, tinha de sair na unha com uma branquela de 5 kg. Isso sem falar nos tufos de pêlos espalhados pela casa, resultado dos embates mais sangrentos. Depois de passar oito horas apartando brigas a cada vinte minutos, resolvi buscar asilo para minha gatinha preta.
Foi uma decisão difícil. No começo, borrifava água nos briguentos e deixava o agressor de castigo na área de serviço, mas bastava abrir a porta para um falar coisas indecorosas a respeito da mãe do outro. Tentei florais e homeopatia, mas os gatos se mostraram céticos quanto a tratamentos alternativos. Apelei para a boa e velha psicologia: quando eles estavam juntos sem brigar, fazia carinho e dava biscoitos por bom comportamento. Como eles nunca tivessem lido sobre Pavlov, nem isso adiantou: assim que eu virava as costas, Grafite e Quelé se atracavam.
Ontem, consegui finalmente levar a Quelé para um lugar acolhedor. Coloquei-a numa caixa de transporte, levei a cestinha com seu cheirinho, suas próprias tigelas de água e comida, seu rato com catnip preferido. Achei que ela ficaria assustada e fosse se refugiar no primeiro buraco que encontrasse. Em quinze minutos, ela já tinha rastreado todo o terreno, esfregado o nariz em cantos e quinas e xeretado embaixo da cama. Depois da inspeção, sumiu por uma meia hora e voltou com os bigodes cheios de teias de aranha. Deu um pulo gracioso no sofá, lambeu o rabo e tirou uma soneca.
Fiquei olhando que nem mãe de primeira viagem, quando leva o filho na escolinha e o moleque entra saltitando, feliz da vida. Custava ela ter ficado só um pouquinho triste?

Quelé, enquanto ainda não era uma gata perseguida pela máfia
Catalão é uma língua difícil, mas basco é de outro mundo! Onde coloquei os acentos para escrever durante a viagem?
Aprendiz profissional
Braços firmes, cotovelos junto ao corpo, joelhos para dentro, força nas panturrilhas, calcanhares para baixo, postura ereta, quadril solto. Isso – e um cavalo – é tudo de que você precisa para ser uma verdadeira amazona. Pode respirar de vez em quando que é bom.
Braços ao lado das orelhas, joelhos flexionados, abdomen contraído e pés unidos são a pose de preparação para dar um mortal. É preciso ter corpo forte, mas flexível para se sair um bom circense. Um colant justo e meias coloridas ajudam. É bom prender a respiração na hora de saltar.
Braços ao lado do corpo, batidas de perna lentas e grandes, cabeça para cima, pescoço esticado: suba nove metros por minuto, faça uma pausa de segurança de três minutos, depois continue a subir e, voilá, temos um mergulhador. Colete não é elevador, por isso, você deve esvaziá-lo para subir e não o contrário. Jamais esqueça de respirar.
Braço esquerdo num abraço, mão direita na mão esquerda do parceiro, tronco próximo, joelhos relaxados e ritmo. Para dançar tango, garotas afobadas como eu precisam controlar a ansiedade. Não vale se antecipar ao parceiro – se deixe conduzir. Respire, senão, dá soluço.
Uma hora dessas, eu ainda descubro algo que eu saiba fazer assim, sem nenhum esforço.









RSS feed