Hermeticamente embalado* – 2
Quando a paranóia da limpeza se associa à neurose da praticidade, o resultado pode ser assustador. Cada cidadão norte-americano consome 130kg de plástico por ano (contra 24kg dos brasileiros). É um consumo tão grande de resina fóssil que espanta que eles ainda tenha petróleo para transformar em gasolina.
As pessoas simplesmente levam para casa qualquer coisa que seja feita de polietileno ou polipropileno – desde que seja de graça, tenha alças e possa servir para forrar o cesto de lixo. Numa estimativa bastante otimista, uma família média brasileira consome cerca de 66 sacolinhas descartáveis por mês. Se você esticar bem e enfileirar os sacos plásticos coletados durante um ano, terá uma trilha de 396 metros de material impermeável, que vai precisar de um ou mais séculos para desaparecer do planeta. Se quiser deixar um recado para seu tataraneto abrir em 2107, já sabe, coloque-o em um saquinho plástico.
Tornadas vilãs do pensamento ecológico, as sacolas plásticas começam a ser alvo de uma porção de projetos de lei bem intencionados, mas pouco esclarecedores. Ao menos seis estados vêm tentando normatizar a venda e a distribuição de sacolinhas em supermercados e padarias. Se aprovar o projeto de lei n. 12.443, Florianópolis (SC) deve ter uma das normas mais duras do país, com multa de R$ 5 mil para o estabelecimento que ousar embalar as compras do cliente com sacolas de plástico tradicional.
Em São Paulo, tanto a proposta municipal quanto a estadual foram vetadas até que se descubra mais sobre o potencial tóxico do plástico oxibiodegradável, um polímero aditivado oferecido como alternativa ao plástico tradicional por, teoricamente, conseguir se decompor em 18 meses. No Paraná, boa parte dos estabelecimentos comerciais já trabalha com sacolas feitas desse material, embora muitos especialistas afirmem que ele possui metais pesados – níquel, cobalto, ferro e manganês – em sua composição, o que tornaria as sacolas plásticas invisíveis, mas não menos danosas ao meio ambiente.
Enquanto não se chega a um consenso a respeito do oxibiodegradável, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Copersucar começam a produzir as primeiras sacolas plásticas feitas de cana-de-açúcar. Resultado de seis anos de pesquisa e investimentos de mais de R$ 2,5 milhões, o bioplástico se decompõem em cerca de cem dias, liberando apenas água e gás carbônico no meio ambiente.
Além da cana e do milho, batata, beterraba, mandioca e mamona são algumas das outras matérias-primas que também vêem sendo testadas para originar o chamado plástico verde. E, por mais estranho que possa parecer, há quem ache essa uma solução tão nefasta quanto os próprios sacos plásticos. “Não tem cabimento usarmos terra fértil para plantar mandioca que vai virar plástico”, protesta Cláudio José Jorge, presidente da Fundação Verde, entidade que há 8 anos batalha pela implementação de sacolas de pano no comércio de Maringá (PR).
Alguns países resolveram a questão obrigando o consumidor a abrir a carteira. Irlanda, Alemanha e Austrália instituíram uma taxa pelo uso de sacolas plásticas. O sociólogo e escritor Marcelo Coelho é a favor de tributações como essa. “Não dá para querer um pensamento ecológico sem pensar no bolso. Enquanto o plastiquinho não me custar nada, enquanto uma folha de papel custar centavos, ninguém vai conseguir que as pessoas levem menos sacolas para casa ou usem os dois versos do papel.” Segundo ele, fazer ecologia sem seguir a lógica econômica é “irrealismo”. “É ilógico não porque é feio derrubar uma árvore ou porque o ursinho vai morrer asfixiado, é porque muito barato ser anti-ecológico.”
*Trecho de reportagem originalmente publicada na revista Página 22, da Fundação Getúlio Vargas, que está este mês nas bancas. Leia a primeira parte aqui.

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Diga "bù" às sacolas plásticas
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adorei a reportagem. Adoro seu texto e quando o tema é dos meus favoritos (como lixo, plástico, essas coisas assim) não tem como não ler e reler e reler.
=) Parabéns, garota Guindaste!
Reler? Que honra, dona Carlinha...
Carol, se vc não se importa, eu a reverberei no blog Faça a sua parte:
http://facaasuaparte.blogspot.com/2007/09/guindaste-sobre-sacola-plstica.html
Lucia, obrigada pelo post! Se tiver dificuldade em encontrar a revista e quiser ler a matéria na íntegra, basta me mandar um e-mail que eu te envio a reportagem completa.
Bem lembrado, Claudia!
Já mandei procê, Lucia.
Caso você ainda necessite de um cão de guarda, para uma mijadinha rápida no WC masculino, permaneço à disposição,
até breve,
Opa, maravilha. Ninguém merece ficar na fila do WC feminino...
Acho importante começarmos alterar hábitos de consumo e às vezes até mesmo não consumir de terminados produtos.
Embalagens pet e tretrapak/longa vida são muito danosos ao meio ambiente, muito pior que sacos plásticos, por exemplo.
Obrigada, Ana!
Um abraço
Suzana
Pode linkar, claro, Suzana.
Como sugestão, experimentem pedir umas caixas de papelão para colocar suas compras no supermercado, recusando-se a levar as detestáveis sacolinhas. Eu já fiz isso, e foi muito mais prático e organizado! Tentem e verão.
Engraçado, nada: faz todo o sentido que o povo mais consumista do planeta seja também o maior poluidor do mundo.
Essa mania-americana-anti-germes infelizmente contamina o mundo todo e isso vem desencadeando uma serie de problemas gigantes que teremos que enfrentar.
O bom é saber que nesse mundo cheio de pessoas de plástico, existem pessoas organicas que se conscientizam e tentam fazer a sua parte, para que esse problema diminua de forma gradativa e consideravel. Textos informativos, como esse, cheio de dados e informaçoes precisas, deveriam ser mais divulgados pra uma melhor conscientizaçao e disciplina ambiental.
E essa mania de super-limpo tem que acabar, afinal de contas, todo mundo ja colou de volta à boca um pirulito que caiu no chão e nem por isso morreu.
a vovó estava certa quando dizia que o que não mata, engorda.
O pior de tudo é que a profusão de produtos de limpeza anti-germes tem tido o efeito contrário: assim como acontece com o uso indiscriminado de antibióticos, o excesso de antigermicidas também deixa as bactérias mais resistentes. O que só aumenta o ciclo da neurose. Para mim, nada mais natural para deixar uma criança resistente a germes do que deixá-la brincar na terra.








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