Hermeticamente embalado* - 1
A cena é bem familiar a quem tem o hábito de comer na rua: mal você se aproxima do balcão, surge um atendente de avental, cabelos presos numa redinha, luvas de plástico transparente envolvendo as mãos e, às vezes, até um protetor descartável escondendo o nariz e a boca. Enquanto o paladino da higiene prepara um singelo misto-quente, você se distrai lendo a propaganda impressa no papel que reveste a bandeja plástica. Lanche pronto, o atendente vai lhe entregar um saquinho com talheres de plástico, outro com o guardanapo descartável e um copo plástico, além de açúcar, mostarda e catchup acondicionados em pequenas embalagens. Não se esqueça de levar canudo e palito de dente, meticulosamente ensacados em invólucros de papel. De posse de sua refeição, vem a melhor parte: é quando o rapaz lhe devolve o troco com a mesma mão que ele usou para preparar seu lanche.
Numa sociedade obcecada por higiene, a indústria dos descartáveis deita e enrola. A cada minuto, um milhão de sacos plásticos são consumidos no mundo. Só no Brasil, são produzidas 210 mil toneladas de plástico filme por ano, o material que origina as sacolinhas que vão infestar supermercados, padarias, vídeo-locadoras e outros estabelecimentos comerciais. Embalagens plásticas isolam alimentos de microorganismos nocivos à saúde. Protegem brinquedos que bebês levam à boca. Envolvem de remédios a sementes, passando por material escolar, roupas, jornais e revistas. Até mesmo pedágios já oferecem o troco hermeticamente embalado em um saquinho plástico.
A assepsia é o argumento mais contundente para o crescimento avassalador de embalagens descartáveis. Afinal, quem não se sente bem ao entrar em um banheiro público e notar que há um protetor de assento descartável, um saquinho para embalar o absorvente e um porta toalhas com papel de alta absorção? Dez anos atrás, esse aparato de limpeza não fazia parte nem mesmo dos sonhos dos maiores higienistas – e isso porque ele era absolutamente dispensável.
É claro que um banheiro limpo ou um canudo sem germes são coisas louváveis. No entanto, não há estatísticas que apontem um crescimento no número de tóxico-infecções: não há muitos relatos de gente que morreu por ter freqüentado vasos sanitários suspeitos ou que tenha ficado de cama depois de tomar refrigerante com um canudo que foi tocado por outras mãos.
E não é só que os donos de restaurantes não confiem na higiene de seus funcionários. Eles também não confiam na higiene de seus clientes, motivo pelo qual a casquinha do sorvete vem agora envolta em um invólucro de papel, mesmo depois de ter sido preparada por um atendente que usasse luvas, avental, redinha de cabelo, boné, óculos especiais e, possivelmente, pinças e um escafandro. Do que se conclui que você não tem as mãos limpas o bastante para você segurar seu próprio sorvete.
Num país quente como o nosso, esse cuidado com a assepsia é bem saudável. Se souber escolher bem aonde vai fazer sua próxima refeição, você pode ir tranqüilamente a um restaurante sem medo de pegar uma hepatite: basta pedir um jogo de copo, garfo e faca descartáveis. Ao recebê-los embaladinhos, pode-se ter a certeza absoluta de que, antes de você, nenhuma pessoa tocou neles. São os seus talheres, e de mais ninguém.
“Vivemos em uma sociedade cada vez mais individualista. A embalagem que envolve o produto vende uma idéia de que aquilo é único, feito exclusivamente para você”, pondera o psicanalista Rubens Volich, do Instituto Sedes Sapientae. Volich chama atenção para o limite tênue que existe entre uma justificada preocupação com a higiene e a pura neurose.
Uma rápida passada por uma loja de produtos de limpeza mostra como o mundo tem levado a sério o medo da contaminação. De desodorantes a lâmpadas fluorescentes, há uma crescente oferta de produtos com germicidas, bactericidas, fungicidas e outros icidas essenciais. É possível banir os germes dos dentes, do cabelo, do corpo, dos brinquedos, de roupas íntimas, meias, colchões e edredons. Melhor dizendo: é possível ter a ilusão de que você está desinfetado porque, de fato, a única coisa que você consegue ao lavar seus travesseiros é ter ácaros mais limpos, como bem aponta o jornalista Bill Bryson em seu best-seller “Breve História de Quase Tudo”.
“Se você tem bons hábitos de higiene, terá um rebanho de cerca de 1 trilhão de bactérias pastando em suas planícies carnudas – cerca de 100 mil em cada centímetro quadrado de pele”, afirma Bryson, para depois explicar que “elas estão ali para consumir os aproximadamente 10 bilhões de flocos de pele que você perde todo dia, além dos óleos saborosos e minerais fortificantes que gotejam de cada poro e fissura”.
Se o ser humano não passa de um agradável hotel ambulante de germes e bactérias – e, na maior parte do tempo, nossa vizinhança é relativamente tranqüila, exceto por um eventual resfriado ou dor de garganta –, então por que vivemos tão preocupados em não nos contaminar? Por que todas essas embalagens e saquinhos protetores para tudo? “A pergunta é contra que tipo de contaminação queremos nos proteger”, diz Volich. “O germe é uma ameaça, é a representação do diferente, é aquilo que a formação de guetos representa na escala social. Conheço gente que, se pudesse, usaria um germicida para acabar com toda uma cidade.”
*Trecho de reportagem originalmente publicada na revista Página 22, da Fundação Getúlio Vargas, que está este mês nas bancas. Leia a segunda parte aqui.

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Elas sempre me olham feio, Tiago. Até você conseguir convencê-las de que não é pessoal... Ah, as sacolinhas estão na segunda parte do texto, clique aqui.
As maiúsculas foram para me deixar com medo? Ui.
Não, isso é só de ácaros. Tem mais uns bons trilhões no estômago, na saliva...
Obrigada,
Dani
Dani, a revista se chama Página 22.
Tadinhas das tartarugas...
Sempre imaginei que esse excesso de embalagens para uma proteção maior é desnecessário e sem fundamentos científicos.
Não dá mais para deixar que a mídia e os meios de produção nos envolvam em artimanhas que só vão beneficiar a esses mercados.
Fiquemos em alerta!
Divulguemos, divulguemos.
venho acompanhando esta discussão no blog,Faça parte, rico em informações e na televisão...
A midia Burguesa, já esta vendendo sacolas de algodão com grife...
Acho que seria interessante se as redes de supermercados fizessem uma troca com seus clientes,já que são capitalistas...(na compra a partir de tanto, vc leva uma sacola de algodão...etc) ou pelo menos entrassem em contato com os representantes dos sacos recicláveis, (imaginação fértil, a minha...)pois não é todo mundo que compra sacos de lixo mesmo, ou mesmo esses representantes fossem até os grandes mercados para poder gerar compra maior e sucessivamente, baratear o valor para os menores....
Conscientização do topo da pirâmide para baixo....
Soluções em tempo de crise...rs
Abraço grande
Hanah
Acho que os supermercados só vão se importar quando começarmos a fazer boicote às redes que ainda têm sacolas plásticas, Hanah.
E.Exija vidro e papel. O orgânico não precisa ser caro, bem pelo contrário sua ação reciclatória é mais barata e não agride a natureza.
É isso aí, Alexandre. Papel e vidro são o que há.
O pão de forma que consumo já vem embalado em saco plástico (assepsia)e não preciso de outro saco para sobre embalar o pão. Afinal não há nenhum problema se os vizinhos enxergarem o pão que consumo, o sabão em pó, o tomate...
Realmente, o que tem demais em os vizinhos saberem que eu estoco Toddy em casa?
Por tanto infelizmente nós somos o grande problema. Acredito muito na mudança de postura de consciencia de visão do mundo porém isso requer tempo e requer vontade....somos parte de uma minoria que esta começando a se preocupar e temos que contagiar nossos amigos vizinhos familia namorado como um virus para que eles contagiem seus amigos e assim por diante.
Tem que ser aos poucos, Renata, senão, as pessoas surtam.
Eu também me sinto melhor quando vou com minha sacola de feira ao supermercado, Maraiza.
Estou chocada.
As mudanças acontecem, Rafaela, mas são lentas e graduais.
Compre uma sacola de feira: além de lindas e resistentes, custam R$ 5.
Para a criatura que falou que precisa de sacolas plásticas para limpar o cocô do cachorro, deixa que eu ensino: guarde as sacolinhas papel de quando você compra pão, daí você corta uma folha de papel e corta em 4 (depende do tamanho do jornal).. daí quando seu cachorro fizer cocô vc usa o pedaço de papel pra pegá-lo e coloca no saco de papel.. em pouco tempo tudo terá se decomposto.. e vc só precisa lavar bem as mãos quando chegar em casa... Formulei tudo isso quando pensei em todas as sacolas que eu gastava em uma semana e que cocô é uma matéria BEM orgânica pra ficar dentro de um recipiente que simplesmente não se decomporia tão cedo...
valeu!
Boa dica, Maíra. O duro é agüentar o cheirinho até a decomposição acabar, hein?
Estou feliz em ver que o debate aqui, está fluindo. Sinal de que as pessoas estão realmente começando a refletir sobre seus hábitos de consumo.
Como tudo se entrelaça, é verdade que as mudanças serão pequenas e paulatinas, porém já é um avanço, quando paramos para olhar nossos resíduos e descartáveis consumidos em segundos e que abarrotam o Planeta por gerações inteiras.
Sucesso é o que eu desejo prá você e sorte, é o que eu desejo para todos nós!
Beijocas da Cláudia Moderadora da Eco-Amigos no Orkut.
Amém nóis tudo, Cláudia!
Obrigado!
A matéria está na íntegra aqui no Guindaste, Eduardo. A primeira parte é esta e a segunda, esta.
Gostaria de receber em meu e-mail ou meu site, mais informações sobre isso.
nadiaxocaira@gmail.com
www.reciclabijou.com.br
Obrigada, trabalho com geração de renda e acho valiosa essas informações pra meus estudos.
Nadia, não tenho informações além das que estão aqui. Concordo com você, podemos, sim, fazer nossa parte.
Saravá, Geraldo! Que descarrego, sô!








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