Performática
Moro há anos num apartamento mínimo, mas meu cérebro ainda não foi avisado. Não passo um único dia sem encontrar as quinas das paredes com os joelhos, levar choque nos cotovelos ao ser subitamente apresentada ao batente da porta ou testar a resistência do pé da cama com meus tornozelos. Sou tão terrivelmente desastrada que é como se eu fosse um jogador do Chicago Bulls andando de patinete numa pequena loja cheia de cristais.
Tenho certeza absoluta que as paredes mudam de lugar ao longo do dia. Você vai ao banheiro a tarde toda e ele está lá, bem comportado, mas basta você virar as costas para o vaso se deslocar um pouquinho para a direita, a ponta do tapete dobrar-se sobre si mesma e a torneira ficar num lugar sinistro, entre o tapete e o vaso.
Também as portas diminuem durante a noite, mas isso meu cérebro sabe bem, ou melhor, minha testa, que a cada manhã vê um novo galo ir se juntar à criação que estou fazendo no cocoruto. Um dia ainda acordo com um ovo no travesseiro.
Mesmo sendo perigosamente desajeitada, não é raro eu me pegar fazendo coisas estúpidas, como andar de perna-de-pau, dançar gafieira ou me equilibrar sobre patins – aliás, alguém pode me explicar pra quê tanta rodinha? Patinar deveria constar da cobertura das apólices de seguro.
Assim sendo, numa tarde ensolarada como hoje, você vai me encontrar no parque Villa-Lobos implorando aos patinadores que me ajudem a sair do banco para, cinco minutos depois, me achar rodeada de garotinhas com seus patins de Barbie. Eu afogaria essas menininhas se pudesse, mas, ao avançar sobre o rabo-de-cavalo de uma delas, minha nádega esquerda resolve sentar, enquanto a perna direita faz um pax-de-deux e o corpo se dobra num ângulo que os contorcionistas chineses chamam de "xi, vai ter que operar" – mais conhecido por "tragam gelo, rápido!". Alguém me coloca em uma maca, vejo cenas da minha infância passarem por meus olhos e apago, para acordar no dia seguinte em um hospital, com a perna cheia de pinos. "Vou poder brincar com meus sobrinhos de atirar argolas nos pinos", eu penso, mas logo lembro que não tenho sobrinhos, nunca fui engessada na vida e, opa, quem é esse de patins olhando para mim?
– Você está bem?
– Quem sou eu?
– Maneiro esse lance do espacate. Com um pouco de treino, vai ficar ótimo. Machucou muito?
– Quem é você?

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Amei o texto e o risoto de alcachofra...
Beijocas
Hmmm, depois desse comentário tão simpático, nem vou te mandar a conta do "restaurante".
Como já tinha comentado com você (naquele outro texto sobre coordenação motora, ou melhor, falta de coordenação motora), eu também sou extremamente desastrado (prova maior disso é que meus amigos me chamam de Takakara = "taca a cara") e, justamente por isso, não me atrevo a dançar, andar de patins, jogar qualquer esporte que seja. Andar de bicileta?? Nem pensar!!!
Mas você prova que tem muita perseverança e não desiste!!
Parabéns!!
rsrsrsrsrsrsrs...
É que eu sou brasileira e não desisto nunca.
Tequila? Quanta sofisticação, Ricardo!
Isso explica muita coisa...
Ai vai: estava passeando (patinando), meio distraido, escorreguei, cai no chão.
Doeu ai, doeu ai, fez dodoi no bumbum, tibum tibum...
Hhahaha
"Fui para o médico de caminhão, ele me aplicou uma injeção. Doeu, ai! Doeu, ai! Fez dodói no bumbum, tibum, tibum!"








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