Do metrô para casa
Andar de metrô é uma das coisas mais divertidas para se fazer em São Paulo. Espremidos num mesmo vagão estão uma adolescente com o cabelo descolorido e piercings nas bochechas, um senhor fazendo palavras-cruzadas nível médio – “os instrumentos que estão preparados para o concerto”, oito letras, “material usado em panelas e canecas”, cinco letras –, uma senhora com o rímel borrado no canto do olho esquerdo, um funcionário da Gol com sua mala de viagem identificada, uma garotinha com um fio brilhante escorrendo do nariz. Eu adoro observar as pessoas e imaginar quem são, o que fazem e para onde estão indo. Já cheguei a perder minha estação depois de ficar uns vinte minutos entretida na animada conversa que dois rapazes tinham atrás de mim e que incluía um churrasco, duas amigas e muitas doses de caipirinha.
Como moro perto de uma estação de metrô, ultimamente, tenho voltado a pé para casa, sorrindo internamente cada vez que ultrapasso um motorista nervosinho preso no trânsito. Os dez quarteirões que separam o metrô da minha casa são um pedacinho dessa cidade tão grande e diversa. A locadora especializada em filmes eróticos faz descontos às quartas-feiras com o sugestivo nome de “promoção dupla-penetração”. Ebenézer, o dono da banca de revistas, ou tem um nome estranho, ou anda precisando de um pintor de faixas mais eficiente. Abriu outro out let da TNG, caso raro de marca de roupas que tem mais pontas de estoque do que lojas normais. Um homem de regata amarela pula entusiasticamente num trampolim de uma academia de ginástica. Um Bradesco. Simpáticos sobradinhos geminados à venda. Outro Bradesco, eles devem querer mesmo que você abra uma conta. Lacres laranjas da Comgás, as calçadas agora têm um desses a cada 50 metros, é uma infestação. Mais adiante, um muro pichado com “çuburbano”, esse é mano mesmo; uma drogaria gigante parede a parede com uma concorrente também enorme; um Unibanco, arrá, finalmente a fachada dentro da lei dos outdoors. A vitrine da Barred’s em promoção, camisa a R$ 19,99, conjunto a R$ 69,99 – aposto que eles não têm moedas de um centavo. Outro banco, agora é o Santander. Do outro lado da rua, há uma loja de surfe: foi assaltada no ano passado por dois ladrões tão pé de chinelo que saíram andando com as pilhas de roupas na mão e foram presos três quarteirões depois. Mais um pouco e passo por duas lojas de um e noventa e nove apinhadas, as pessoas adoram esses cacarecos. Ao lado, armários de cozinha sob medida. Duas clínicas veterinárias abertas 24 horas, Grafite já arranhou um dos médicos que achou que lidava com apenas um gato. Um Banco do Brasil, nossa, quanto banco. Mais lacres laranjas, estão por toda parte. Um ônibus buzina para o carro da frente, que buzina para o da frente, o farol está verde, mas a fila não anda. Ao lado do ponto de ônibus, um ramo de hera insiste em passar do muro ao portão e enclausurar os moradores, inútil a dona da casa conduzir a planta para o muro. Na parede, uma mulher nua toda contorcida, só pode ser grafite do Paulo Ito, ele é bom mesmo. Então, chego à minha casa preferida, com paredes roxas e um pequeno jardim com fonte e sapos de gesso. Já puxei papo com a dona, que dá aulas de meditação e alongamento na edícula, ela briga com o marido para estender o jardim até a garagem: ele quer espaço para o carro, um Corsa com duas portas, ela, para as plantas. Passa uma garota sendo arrastada por seu animado boxer marrom. Ela pende para a direita, ele, para a esquerda, a língua escorrendo para fora do focinho. Os dois estão arfando. Dobro a esquina e já posso ver meu prédio, a fachada de pastilhinhas bem conservadas. Faço tchauzinho para o porteiro; subo as escadas, tão pertinho, não custa nada; chego e vou direto ao computador. Os gatos me rodeiam, Grafite quer colo. Abro o word. Andar de metrô é uma das coisas mais divertidas para se fazer em São Paulo...

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Londres?!? Que chiquê, hein, Robson? Obrigada pelo passeio por aqui!
Eu não pego metrô, mas ando num ônibus super-hiper-ultra-mega-power-plus lotado, e a única coisa que consigo pensar é, "P*ta que pariu!! Ainda falta muito pra chegar na minha parada!!", ou, "Ah como eu queria ter os poderes da 'Carrie - A Estranha'!! Fazia esse povo todo explodir!!".
É, acho melhor rever meus conceitos!!
Ah, ótimo texto!!
Cheiro no olho!
Eu também costumo invocar a Carrie, mas só quando estou do outro lado do volante, Danilo.
Particular: um caipira aqui da cidade onde você morou por nove anos (juro que não fui eu, ainda que eu também seja um jacu) quando chegou pela primeira vez ao metrô aí da capital, assustado com a velocidade lancinante das máquinas, postou-se muito próximo da linha amarela empertigou-se no limiar e... fez sinal para o trem parar....
Genérico: as concentrações humanas implicadas com chegar aos seus destinos dão azo a tão boas mesmo observações.
Específico: tem de haver algo de muito errado com um país que tem tanto banco no espaço de uma crônica.
Que dizer além de 'teu texto é uma delícia'!
Juliano, meu irmão só não fez a mesma coisa quando estreiou num metrô porque eu estava do lado. Mas não pude conter o riso quando ele se agarrou em pânico às paredes do metrô assim que o trem começou a andar. Quanto aos bancos, rapaz, são seis ou sete num intervalo de oito quarteirões! Quando eu crescer, quero ser dona de um banco... numa praça bem bonita, hehe.
O nome disso é meu adorável corretor de ortografia, Juliano. Às vezes, ele toma essas licenças poéticas e pensa por mim, veja só. Quando eu quero dizer "ela briga com o marido..." ele resolve fazer uma gracinha e trocar o "com" por "aço". O pior é que ele tem feito isso muitas vezes, ultimamente. Meu word ainda não foi totalmente domesticado. Obrigada pela dica, já corrigi!
Este texto seu lembrou o flaneur de Charles Baudelaire.
Carol também flana.
Guindante também é poesia.
Baudelaire, Ozzy?!? Barbaridade, essa tocou fundo na minha ignorância... Ozzy também é cultura.
Beijo grande.
Ei, e como foi que eu me denunciei? Já sei, as duas farmácias! Acertei?
PS: Adorei o texto
Deus, mas é só uma vezinha ou outra que eu desembesto num parágrafo grande desses...
Beijo!
O risinho é porque eu já entrei, Rô.
Sou novato por aqui, vim por propaganda de namorada que adorou seu blog, e me disse para dar uma passada.
Também adoro, andar analisando as pessoas, já decidi andar da faculdade até minha casa só pra reparar no caminho e na gente.
Parabéns!!!
Grande garota essa sua namorada, hein? Apareçam mais vezes, Tiago!
hahhahahahahahhahah
Eu achei que estava de óculos escuros...








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