Fora do ar
– Carol, você ainda tem o contato daquela comunidade que procura mortos na internet?
– Está falando do Profiles de Gente Morta?
– Credo, é assim que chama?
– Ou PGM.
– Que seja.
– Eles estão levantando os perfis das vítimas desde a madrugada de ontem.
– Tem o contato de algum deles?
– Tenho o e-mail do Guilherme Dorta, o garoto que criou a comunidade.
– Coisa mais bizarra, uma comunidade para achar o orkut de quem morreu... Sabe se algum participante é parente das vítimas?
– Não faço idéia, mas uma vez que são 34 mil, deve ter alguém que conhecesse um dos mortos.
– Eu preciso de familiares. Se não botar ninguém chorando no ar, vou acabar sendo demitido.
Ok, essa última frase fui eu que inventei, mas bem que poderia ter sido dita por qualquer um dos jornalistas que me procuraram hoje pela manhã. Quando trabalhei em TV, cansei de ouvir isso cada vez que um repórter era mandado para um velório. Foi por situações como essa e por me negar a incomodar familiares em enterros que eu acabei pedindo demissão. Cansei de ver sensacionalismo render mais audiência que um programa de cultura ou uma reportagem sobre educação.
A primeira coisa que fiz quando soube que o vôo JJ 3054 da TAM estava ardendo em chamas foi ligar a televisão. Se tragédias como essas desestabilizam até mesmo quem nunca pisou num aeroporto, imagine o estrago que são capazes de causar numa redação de TV. São os telejornais os primeiros a passar informações de impacto. E são também eles os que abrem a temporada de caça a familiares, a busca por testemunhas e o leilão por cenas feitas por amadores – ainda que os parentes estejam em choque, as testemunhas falem bobagem e as imagens não acrescentem nenhuma informação relevante, só mais dor e desespero.
Numa hora dessas, todas as equipes de reportagem que deveriam estar gravando outras matérias – o quadro de medalhas do Pan, a campanha de vacinação de idosos, um acidente envolvendo uma carreta tombada na Marginal, uma padaria que faz bolos para cães – foram deslocadas para os aeroportos. Uma área destinada às TVs foi aberta em Congonhas, Cumbica, Santos Dumont e Salgado Filho para que as emissoras estacionem seus caminhões de link e transmitam ao vivo. A repórter retoca a maquiagem. Vai ficar em pé, olhando fixo para a câmera, microfone a postos, até que alguém na redação lhe avise pelo ponto que ela vai entrar em uma hora, meia hora, quinze minutos, faltam cinco, três, dois, um. “É grande a confusão aqui no aeroporto...” São 17h e aposto que ninguém almoçou. Um garoto entra na redação com uma pilha de fitas que lhe cobre o rosto. Alguém na chefia de produção tenta ser atendido pela assessoria da Infraero enquanto segura outro telefone com o ombro e berra instruções com um repórter pelo rádio. Outros três telefones tocam sem cessar. Na pauta, a situação é ainda mais aflitiva. Cada produtor coordena cinco ramais diferentes e todos tocam juntos. Três jornalistas dividem a lista de mortos e começam a busca pelos sobrenomes mais incomuns, os mais fáceis de terem parentes localizados. Por telefone, um pauteiro tenta convencer uma amiga de um amigo do primo de um dos passageiros a passar o endereço da casa do morto. “Pense como se fosse uma homenagem a ele.” Não vai tardar até que as emissoras estejam disputando a tapa um espaço em frente à casa de uma vítima. Já vi repórteres passarem a mão num entrevistado particularmente assediado, enfiarem o rapaz no carro e sumirem com ele para um hotel, até que ele estivesse pronto para sair e ir direto para o estúdio de um programa qualquer. Esse tipo de postura é mais comum do que você imagina.
Para mim, nada disso se parece nem de longe com jornalismo, tampouco com humanidade. Quando for zapear novamente em busca de mais informações sobre o acidente envolvendo o vôo JJ 3054 da TAM, pense no circo que você alimenta pelo simples fato de estar com a TV ligada. Às vezes, sentir-se impotente é a única coisa digna a fazer.

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Profissão: repórter
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Eu queria mesmo era ver os ouros do Pan em cãmera lenta, mas parece que isso eles ignoraram.
A tragédia tem sempre mais vez.
É triste, mas é verdade...
Também achei, Marmota!
Difícil mesmo é trabalhar em um veículo, como no meu caso, e ter um parente de vítima entre os membros da equipe. É estranho falar só do acidente o dia todo sabendo que o sofrimento está tão perto. Mas ainda bem que a Rádio Eldorado apesar da pestação de serviço que inevitavelmente passa pela cobertura do acidente ainda valoriza a cultura a educação e o respeito ao outro antes do sensacionalismo. Talvez este seja um dos motivos pelo qual aceitei ganhar 1/4 do meu antigo salário ao vir para cá.
É por isso que eu ouço a Eldorado, Dani.
É bem o que você disse, Juliano, uma questão de bom-senso. Acho que os parentes das vótimas podem e devem ser ouvidos, mas de maneira não-invasiva, coisa que parece ser impossível para uma emissora de TV conseguir.
Mas o que é que vocês têm tanto contra mim? Eu falo isso aqui, publicamente, porque já consigo lidar bem com o problema: quero fazer jornalismo mas tenho muito medo de deixar a área de tecnologia em que estou, onde apesar de tantos trancos e barrancos por aí eu ainda confio em mim mesmo e sei que sou, se não THE BEST ONE, pelomenos competente. Fico me batendo e me debatendo, querendo seguir a área, querendo fazer jornalismo, e chego ao meu mais alto nível de pressão "Não posso mais adiar a faculdade". Quando, mesmo sabendo que a remuneração é ruim, mesmo sabendo que o veículo é conservador e que, sendo cego, talvez eu tenha dificuldades de ser aceito nessa mídia, a vontade de fazer rádio aperta e eu estou vendo o jornalismo ganhar a difícil batalha sobre o que fazer ... você me escreve esse post, que eu sei que é verdadeiro. Não bastasse isso, você já leu o blog do marmota hoje? A, vocês dois estão de conluio para me deixar ainda mais zoado do que eu já estou!
Graaaande beijo!
Marlon
Marlon, apesar de todos os pesares, amo minha profissão e digo que é possível fazer coisas realmente bacanas nessa área. Não desista, companheiro!
Tudo mto triste!
Cheguei num ponto em que estava tão irritada com essa cobertura obscena que quase joguei minha TV pela janela.
Barbaridade, hein, Bruna?









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