Na palma da sua mão
Foi aos dois anos: Vera estava num cadeirote, brincando na cozinha, quando, num descuido da babá, derrubou álcool na bancada da pia. Em questão de segundos, o fogo ardia em seu rosto, braços e mãos. Sobreviveu por pouco.
Minha família contava, entre sussurros e gestos contidos, que, em “outra encarnação”, dona Vera tinha sido uma linda cigana, que embebedava os homens para depois furtá-los. Levava uma vida libertina até o dia em que esfaqueou um amante. Por isso, nesta encarnação veio queimada: era uma espécie de post-it do além, o pagamento por sua vaidade e pelo assassinato que cometera. Ouvi tanto essa história que não lembro de ter alguma vez duvidado dela. Caía mesmo como uma luva na minha avó.
Apesar do suposto passado trágico, dona Vera foi uma mulher notável e alegre. Casou-se três vezes e sempre se separava porque seus homens tinham um estranho fraco por bebida. Numa época em que era inadmissível existir uma mulher no poder, cismou em fazer duas faculdades. Deu no que deu: ainda moça, virou gerente de um grande banco.
Por causa das queimaduras de infância, não conseguia segurar nada com firmeza – suas pinceladas eram perfeitas para pintar flores e coisas delicadas. Odiava cozinhar. Em sua casa, não havia facas de ponta. Difícil era explicar para os amigos porque minha avó cortava pão com tesoura.
Dona Vera nunca teve casa própria, pelo contrário, várias vezes encerrou o contrato de aluguel antes de ele vencer. Cinco anos atrás, ela partiu para outra viagem. Não teve tempo de preparar sua mudança, de encaixotar suas coisas, de se despedir. Eu bem sabia que ciganos não deitam raízes sobre solo nenhum.

Dona Vera e sua primeira neta: eu
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Jú! Você por aqui!
p.s. - "post-it do além" é ótimo.
Sei bem o que é isso, Juliano. Doeu a beça para escrever.
Prefiro lembrar do lado divertido da vovó, dos "trilesses", dos seus óculos escuros enormes, de suas tapeçarias. Assim dói menos.
Mas deixam sementes em todos. E são estas sementes que transformam cada canto por onde passam, deixando ao menos lembranças de momentos fortes, intensos, como os ciganos.
Abraços e sucesso,
Que bonito, Nelson!
Beijos e sortes!!
Carola.
Ô, Carola, que fofa você é!
Saudds, mta saudds das longas unhas, q sempre ressecavam, mas mesmo assim faziam carinhos nas minhas costas!
Linda... sempre achei lindas as "sardas" dela, mesmo sabendo depois de adulta que eram queimaduras.
Sempre sorrindo... é assim q lembro da minha doce mamãe com açucar!
Eu lembro de dormir de mãos dadas com ela, dos "trilesses" e das caretas que ela fazia quando a gente queria fazer uma foto. Lembro da casa cheia de tapeçarias e quadros, das estantes lotadas, da coleção de conchinhas num pote no banheiro. E das caixas, claro, sempre havia caixas que ela não tinha conseguido abrir de uma mudança para a outra. Vovó era o máximo!
Junior, você perdeu algum tipo de aposta, é isso? Rapaz, nunca vi tanta vontade de escarafunchar no baú do Guindaste, sô! E não é que você está MESMO lendo os textos antigos? Incrível! Eu também adorei Invasões Bárbaras (você assistiu O Declínio do Império Americano? É do mesmo diretor, muito bom também) e ouvi muito Tears in Heaven, mesmo sem saber o que significava. Mas acho que a gente nem sempre escreve sobre as coisas que dóem porque, bem, elas dóem. E, às vezes, porque acabamos externando nossos sentimentos de outras maneiras, conversando, lembrando ou só sentindo. Mas concordo contigo: hoje, quando me lembro de minha avó, guardo um sorriso especial para ela.
Nossa, Junior, mas essa foi a melhor definição que já li sobre o que é gostar de cinema de verdade! Vou adotar, é genial! Já assistiu alguma coisa da Isabel Coixet? Vi recentemente o A Vida Secreta das Palavras e, depois, Minha Vida sem Mim. Ok, são tristes, mas, puuuuxa, como são belos!
Eu assisti "Minha Vida Sem Mim" e a "Paris, Eu Te Amo", onde a Isabel dirige um dos episódios. Gostei do que assisti.Pode usar livremente a minha frase sobre cinema, serve como um pagamento por ter que responder aos meus comentários. Sobre o "Fale com Ela", esqueci de citar uma frase que ouvi há umas 3 semanas e que tem a ver com o assunto do filme: "Nós, homens, gostamos de fazer sexo com mulher. Precisamos gostar também de mulher, o que é bem diferente". Concordo integralmente com a frase, quanto mais entendermos a mulher, mais próximos estaremos de manter a "mulher amada" (sou fã dessa frase piegas, rs) ao nosso lado. Vocês são incompreensíveis e, por isso, são fascinantes. Nós somos mais retos, mais simples, em compensação, vocês são sinuosas, indecifráveis.
Depois de escrever com seriedade, vou fazer uma brincadeira. Há algumas coisas que vocês adoram e que eu prefiro pular fora. Por exemplo: comprar bolsas e sapatos em um shopping lotado. Nessas horas, eu sou um completo inútil, prefiro ficar em casa comendo bolinho de chuva, rs. Um beijo!
Ah, mas andar em shopping atrás de acessórios é coisa que nem eu entendo como é que a gente gosta... É por isso que compro meus sapatos sempre no mesmo lugar, numa simpática lojinha de rua. Ei! Não vale comentar um post na caixa de comentários do outro!
Futebol, definitivamente, não é minha praia. Acho um tédio essa coisa de bola pra cá, bola pra lá, impedimento, bola pra cá, bola pra lá, falta, bola pra cá...
Adorei a frase do Galeano, Junior. E prometo ir atrás do Thiago de Mello! Gosto de conhecer velhos escritores desconhecidos.








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