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Na palma da sua mão

Foi aos dois anos: Vera estava num cadeirote, brincando na cozinha, quando, num descuido da babá, derrubou álcool na bancada da pia. Em questão de segundos, o fogo ardia em seu rosto, braços e mãos. Sobreviveu por pouco.

Minha família contava, entre sussurros e gestos contidos, que, em “outra encarnação”, dona Vera tinha sido uma linda cigana, que embebedava os homens para depois furtá-los. Levava uma vida libertina até o dia em que esfaqueou um amante. Por isso, nesta encarnação veio queimada: era uma espécie de post-it do além, o pagamento por sua vaidade e pelo assassinato que cometera. Ouvi tanto essa história que não lembro de ter alguma vez duvidado dela. Caía mesmo como uma luva na minha avó.

Apesar do suposto passado trágico, dona Vera foi uma mulher notável e alegre. Casou-se três vezes e sempre se separava porque seus homens tinham um estranho fraco por bebida. Numa época em que era inadmissível existir uma mulher no poder, cismou em fazer duas faculdades. Deu no que deu: ainda moça, virou gerente de um grande banco.

Por causa das queimaduras de infância, não conseguia segurar nada com firmeza – suas pinceladas eram perfeitas para pintar flores e coisas delicadas. Odiava cozinhar. Em sua casa, não havia facas de ponta. Difícil era explicar para os amigos porque minha avó cortava pão com tesoura.

Dona Vera nunca teve casa própria, pelo contrário, várias vezes encerrou o contrato de aluguel antes de ele vencer. Cinco anos atrás, ela partiu para outra viagem. Não teve tempo de preparar sua mudança, de encaixotar suas coisas, de se despedir. Eu bem sabia que ciganos não deitam raízes sobre solo nenhum.

foto da minha avó sentada com um longo vestido branco, dando mamadeira para uma Carol bebê
Dona Vera e sua primeira neta: eu

Categoria: Blogosfera, Egotrip

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(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

:)

Jú! Você por aqui!
PermalinkPermalink 10.07.07 @ 21:03


Comentário de: Juliano Machado
Carol, bonito. Mas, confesso que senti um friozinho, alguma coisa tão solitária.

p.s. - "post-it do além" é ótimo.

Sei bem o que é isso, Juliano. Doeu a beça para escrever.
PermalinkPermalink 11.07.07 @ 10:32


Comentário de: bia Email
Como a saudade dói tanto......

Prefiro lembrar do lado divertido da vovó, dos "trilesses", dos seus óculos escuros enormes, de suas tapeçarias. Assim dói menos.
PermalinkPermalink 11.07.07 @ 15:02


Comentário de: Nelson Corrêa Email · http://www.nelsoncorrea.com/wordpress
"... Eu bem sabia que ciganos não deitam raízes sobre solo nenhum..."

Mas deixam sementes em todos. E são estas sementes que transformam cada canto por onde passam, deixando ao menos lembranças de momentos fortes, intensos, como os ciganos.

Abraços e sucesso,

Que bonito, Nelson!
PermalinkPermalink 11.07.07 @ 19:22


Comentário de: carola trimano Email · http://passarodepapel.blogspor.com/
Carolzita! ADOREI essa homenagem à tua avó menina, essas coisas valem taaaaaanto, são as melhores, as que nos seguram,as que nos justificam nesta existência tão efêmera... as raízes amadas todas de cada dia, de cada vida...!!
Beijos e sortes!!

Carola.

Ô, Carola, que fofa você é!
PermalinkPermalink 13.07.07 @ 01:22


Comentário de: lilica Email
Vovó era (como ela mesma se denominava) mamãe com açucar! E apesar da diabete, era açucar mesmo, nada de zero cal...
Saudds, mta saudds das longas unhas, q sempre ressecavam, mas mesmo assim faziam carinhos nas minhas costas!
Linda... sempre achei lindas as "sardas" dela, mesmo sabendo depois de adulta que eram queimaduras.
Sempre sorrindo... é assim q lembro da minha doce mamãe com açucar!

Eu lembro de dormir de mãos dadas com ela, dos "trilesses" e das caretas que ela fazia quando a gente queria fazer uma foto. Lembro da casa cheia de tapeçarias e quadros, das estantes lotadas, da coleção de conchinhas num pote no banheiro. E das caixas, claro, sempre havia caixas que ela não tinha conseguido abrir de uma mudança para a outra. Vovó era o máximo!
PermalinkPermalink 20.07.07 @ 17:29


Comentário de: Junior Email
Oi! Como eu havia dito, procurei ler alguns dos seus textos antigos. Reafirmo que tu tens talento tanto para escrever textos engraçados/irônicos como para escrever textos sérios. É contraditório, mas a morte produz filmes, livros e/ou músicas belíssimas. Um exemplo é o filme "Invasões Bárbaras", não se assuste com o título, é um ótimo filme e ao contrário do que parece indicar o título, não tem absolutamente nada de violência. Mais complicado ainda é quando um artista cria algo motivado pela tristeza da morte. A música "Tears in Heaven", que o Clapton compôs para o filho que morreu ao cair da janela, hoje já virou clichê, mas é uma daquelas músicas que a gente devia parar de ouvir um tempo, para que possamos prestar novamente atenção na letra, na melodia e na emoção que o artista quis transmitir. Em uma das respostas, tu escreveste que doeu muito escrever o texto para a sua avó. Quando a minha avó faleceu em dezembro, não escrevi nada, não sei por qual motivo, apesar da dor que estava sentindo naquele momento. Mas assim como a ti, também doeu muito quando escrevi para o meu avô, há 9 anos. Acredito que o ato de escrever nesses momentos é catártico, pois expulsamos nossas dores e angústias por meio da escrita. Atualmente, sempre que lembro dos meus avós, não sinto mais dor, mas uma saudade boa, aquele tipo de saudade que ao invés da dor, traz um discreto sorriso ao rosto.

Junior, você perdeu algum tipo de aposta, é isso? Rapaz, nunca vi tanta vontade de escarafunchar no baú do Guindaste, sô! E não é que você está MESMO lendo os textos antigos? Incrível! Eu também adorei Invasões Bárbaras (você assistiu O Declínio do Império Americano? É do mesmo diretor, muito bom também) e ouvi muito Tears in Heaven, mesmo sem saber o que significava. Mas acho que a gente nem sempre escreve sobre as coisas que dóem porque, bem, elas dóem. E, às vezes, porque acabamos externando nossos sentimentos de outras maneiras, conversando, lembrando ou só sentindo. Mas concordo contigo: hoje, quando me lembro de minha avó, guardo um sorriso especial para ela.
PermalinkPermalink 26.06.08 @ 20:45


Comentário de: Junior Email
Oi! Essa nostalgia que sentimos é benéfica, traz boas recordações e não deixa de ser uma forma de amor. Eu só li alguns dos seus textos antigos, não mereço todo esse crédito. E só fiz isso pela qualidade do seu texto. Geralmente tomo essa atitude sempre que encontro um blog interessante. O Declínio do Império Americano eu assisti do meio para o fim, quando passou no Telecine. Sempre me esqueço de pegar na locadora para assistir inteiro. Caso a minha memória não me traia, na época que vi "Invasões Bárbaras", assisti em menos de 6 meses, a três grandes filmes: "Invasões Bárbaras", "O Filho da Noiva" e "Fale com Ela". Sobre esse último, sempre comento que ironicamente, um diretor gay (o Almodóvar) fez o filme que nós, homens heterossexuais, deveríamos assistir obrigatoriamente ao menos uma vez na vida. Na minha opinião, é o filme recente que melhor trata o amor e o relacionamento entre homens e mulheres. Pensando bem, acho que o único heterossexual que entende a alma feminina é o Chico Buarque. Além do que escrevi acima, o Chico é um gênio no que faz, é idolatrado pelas mulheres (não precisa maiores explicações a inveja que isso nos provoca, rs) e tem um time de futebol com estádio próprio (isso é o sonho de todos nós que gostamos de futebol)! Brinco que só não sinto uma inveja profunda dele porque ele tem que agüentar o Carlinhos Brown como genro. Voltando ao cinema, sou um cinéfilo assumido, tanto que escrevi no meu profile do Orkut: "assisto a todos os filmes de arte que não sejam pretensiosos demais e a todos os blockbusters que não sejam idiotas demais. Um beijo!

Nossa, Junior, mas essa foi a melhor definição que já li sobre o que é gostar de cinema de verdade! Vou adotar, é genial! Já assistiu alguma coisa da Isabel Coixet? Vi recentemente o A Vida Secreta das Palavras e, depois, Minha Vida sem Mim. Ok, são tristes, mas, puuuuxa, como são belos!
PermalinkPermalink 27.06.08 @ 18:10


Comentário de: Junior Email
Oi! Inicialmente, sobre teu post mais recente, eu queria dizer que na teoria concordo que todos deveríamos ser vegetarianos, mas eu não consigo. Eu bebo pouco, não fumo e não uso "tóshico", a carne é meu vício, rs. E eu sou gaúcho, é complicado um gaúcho ser totalmente vegetariano. Não sei se tu conheces Porto Alegre, mas nos domingos de manhã, a cidade tem um tradicional aroma de churrasco, é impossível resistir. Eu sou filiado ao Greenpeace, aqui em casa tomamos atitudes "ecologicamente corretas" (não gosto muito desse termo politicamente correto, mas não me veio outro melhor), minha monografia na faculdade tem a ver com Direito Ambiental, mas confesso que não consigo viver sem comer carne em alguns dias da semana.
Eu assisti "Minha Vida Sem Mim" e a "Paris, Eu Te Amo", onde a Isabel dirige um dos episódios. Gostei do que assisti.Pode usar livremente a minha frase sobre cinema, serve como um pagamento por ter que responder aos meus comentários. Sobre o "Fale com Ela", esqueci de citar uma frase que ouvi há umas 3 semanas e que tem a ver com o assunto do filme: "Nós, homens, gostamos de fazer sexo com mulher. Precisamos gostar também de mulher, o que é bem diferente". Concordo integralmente com a frase, quanto mais entendermos a mulher, mais próximos estaremos de manter a "mulher amada" (sou fã dessa frase piegas, rs) ao nosso lado. Vocês são incompreensíveis e, por isso, são fascinantes. Nós somos mais retos, mais simples, em compensação, vocês são sinuosas, indecifráveis.
Depois de escrever com seriedade, vou fazer uma brincadeira. Há algumas coisas que vocês adoram e que eu prefiro pular fora. Por exemplo: comprar bolsas e sapatos em um shopping lotado. Nessas horas, eu sou um completo inútil, prefiro ficar em casa comendo bolinho de chuva, rs. Um beijo!

Ah, mas andar em shopping atrás de acessórios é coisa que nem eu entendo como é que a gente gosta... É por isso que compro meus sapatos sempre no mesmo lugar, numa simpática lojinha de rua. Ei! Não vale comentar um post na caixa de comentários do outro!
PermalinkPermalink 01.07.08 @ 18:24


Comentário de: Junior Email
Oi! Desculpe pelo erro, não me dei conta que estava comentando um post na caixa de comentário do outro post. Tu gostas de poesia? Conhece um poeta chamado Thiago de Mello? Não sei se tu lembras, mas quando a Ford lançou o EcoSport, o tema do comercial foi "Os Estatutos do Homem", um poema seu. Durante a ditadura, ele se exilou no Chile e fez amizade com "um tal" de Pablo Neruda. O Neruda até fez um poema em sua homenagem. Estou falando dele porque um dos principais temas de suas poesias é a Amazônia, ele vive até hoje em uma cidadezinha do Amazonas. Guardadas as diferenças, ele escreve sobre a Amazônia da mesma forma que o Manoel de Barros escreve sobre o Pantanal, com respeito e amor ao lugar onde nasceram. O meu interesse pela poesia começou no 2º grau quando percebi que era um jeito possível de conquistar as meninas, ou como nós dizemos aqui no Sul, as gurias. Quem não nasceu com pinta de galã, precisa usar outros artifícios. Uns tocam guitarra, outros usam poesias, outros usam o esporte, etc. Isso acontece porque adolescentes do sexo masculino tem muito mais hormônios que neurônios, rs. Depois, quando os hormônios dimunuem e os neurônios aumentam, é que realmente prestamos atenção na música, poesia, cinema, futebol, etc. Sobre o futebol vale uma explicação: a maioria dos adolescentes quer ser jogador de futebol, até porque eles tem namoradas/esposas maravilhosas. Mas pouquíssimos tem talento, mas já estamos fascinados, o que nos empurra para os estádios ou para a frente da televisão, o que acaba enlouquecendo vocês. É o nosso passatempo preferido, equivalente ao shopping de vocês. Ainda bem que cada vez mais, as mulheres tem ido ao estádio (isso tem ocorrido no Beira-Rio, não sei como é em SP). Um beijo!

Futebol, definitivamente, não é minha praia. Acho um tédio essa coisa de bola pra cá, bola pra lá, impedimento, bola pra cá, bola pra lá, falta, bola pra cá...
PermalinkPermalink 02.07.08 @ 17:08


Comentário de: Junior Email
Oi! O futebol atrai os homens porque é onde podemos ser meninos outra vez, rs. Falando sério, há algo muito legal no futebol: o amor do torcedor pelo seu clube. O Nelson Rodrigues é o mestre absoluto na literatura brasileira em tratar disso. Com muito exagero, é verdade, mas ele era passional em tudo e o futebol é propício para a passionalidade. Esse amor não é para os jogadores, pois eles trocam de time a cada ano, mas para a instituição. E é amor mesmo, por incrível que pareça a quem não gosta de futebol. Essa devoção muitas vezes é geracional. Um exemplo é a minha família: tudo começou com os meus avôs, tanto o paterno quanto o materno. E já chegou ao meu primo de 9 anos, que adora ir ao estádio. Era curioso, no tradicional almoço de domingo, na casa dos meus avós maternos, todos ao redor da mesa, conversando sobre futebol. Eu e o meu irmão, que é 6 anos mais novo, por ali, observando e participando da conversa dos mais velhos. A melhor frase sobre futebol é do Eduardo Galeano: "Das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante". Não me surpreende que essa frase seja de um urugauio, porque os uruguaios são malucos por futebol, e nós, gaúchos, sabemos muito bem disso. A frase é perfeita porque é exatamente assim que funciona. A prioridade é para a família, carreira, estudos, etc. Das coisas pequenas, o futebol é o mais importante. Eu não vou fazer campanha para que tu tenhas interesse por futebol, mas faço campanha para que conheças a poesia do Thiago de Mello, de quem falei no meu post anterior. Assim como outros cantores e escritores, ele é um daqueles artistas subestimados, que não recebem muito espaço da mídia, mas possuem talento de sobra. Um beijo!

Adorei a frase do Galeano, Junior. E prometo ir atrás do Thiago de Mello! Gosto de conhecer velhos escritores desconhecidos.
PermalinkPermalink 08.07.08 @ 16:55


Comentário de: Junior Email
Oi! E por falar em poetas, mais especificamente sobre Neruda, assistiu a "O Carteiro e O Poeta"? Comentei semana passada com uma amiga que nós dois éramos uma raridade, pois a maioria das pessoas não assistiu a esse filme. Eu o considero uma obra-prima, está na minha lista dos 10 melhores filmes (me identifico com o Nick Hornby, gosto de listas, rs). O outro filme italiano da lista é "Cinema Paradiso". Esse tem o acréscimo das músicas do filme serem fantásticas. Digite "Cinema Paradiso" no campo de busca do YouTube, logo na primeira página de resultados, há duas belas versões ao vivo, regidas pelo próprio maestro Enio Morricone. Uma é a versão do "Cinema Paradiso Theme", ao vivo em Munique. A outra é a execução do "Love Theme", ao vivo em Varsóvia. Desculpe incomodar com tantos comentários, prometo que esse será o último. Um beijo!
PermalinkPermalink 09.07.08 @ 15:41


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