Lição de pescador
– Para onde vai toda essa água quando a maré baixa?
– Você não sabe mesmo ou tá de brincadeira?
– O que acontece, alguém abre um ralo e, seis horas depois, despeja tudo de volta?
– Mas, menina, você foi pra escola, fez faculdade, estudou em lugar que eu nem sonho pisar! Você tinha obrigação de saber uma coisa dessas.
– Er... hmmm...
– Mas que coisa! É o movimento da Terra que faz as marés, o movimento natural da Terra. Eu sou analfabeto e sei disso, como é que você não sabe?
– Eu sei porque urso polar não come pingüim. Serve?
A conversa acima, tida com um pescador, surgiu depois de os guias de turismo pisarem e repisarem na história das marés no Maranhão: as águas mudam tão drasticamente que chegam a oscilar 8 metros num mesmo dia e, quando estão baixas, é possível caminhar quase 2 km por lugares até então submersos. Tive que levar um esculacho desses para descobrir o por quê.
Eu adoro conversar com anônimos. Fico impressionada em constatar como é interessante a vida de quem nunca sonhou com seus cinco minutos de fama. Já consegui histórias muito mais saborosas papeando com taxistas, faxineiras, porteiros, garçonetes, ascensoristas e manicures do que com políticos e artistas. Celebridade só é legal enquanto ainda não foi doutrinada pelo empresário. Depois, não se tira muita coisa que preste.
Josias me deu outras lições interessantíssimas sobre sua terra natal, tão bela e desconhecida. Enquanto atravessávamos o rio Preguiças em busca do encontro com o mar, ele falou em corrupção e nepotismo, da tristeza que sente quando vê colegas fazendo pesca predatória, da dificuldade em mudar a mente das pessoas. Contou do dia em que ficou puto ao ver um rapaz no supermercado "colocando uma caixa de fósforos numa sacolinha descartável, a sacolinha, no bolso da calça". "Coisa mais inútil, pra quê pegar o saquinho? Vai acabar vindo parar numa rede de pesca."
Com sua pele morena e os dentes muito brancos, ele fala em política como quem fala da própria vida. "Sou o cara mais chato que tem por aqui, ligo todo dia na Prefeitura para denunciar rede de arrasto, barco da Bahia vindo aqui, cada baita navio grande. Fiquei dez anos trabalhando em alto mar, às vezes, passava três meses longe de casa. O mar é meu sustento, se eu não brigar por ele, ninguém briga." E briga mesmo: "Eu digo que o prefeito teve mais chance que Jesus Cristo, porque ele é prefeito pela terceira vez".
O saber de Josias é esse, "que de escola não sei quase nada". Danado, mesmo, é com as contas. Um quilo de camarão custa entre R$ 5 e R$ 6; se for do branco, chega a R$ 8. Peixe é mais barato, um quilo de espada fica por R$ 1 na mão do atravessador que, mal o barco volta do mar, já coloca a mão no peixe. "Maranhense nem sabe o que é caranguejo; tem um comerciante do Ceará que compra 20 mil por semana, não fica um para contar história". Se o mar estiver generoso, Josias consegue tirar entre R$ 300 e R$ 400 por mês, o que, juntando com o salário de professora da mulher, dá apertado para manter os dois filhos. A rede de pesca custa uns R$ 2 mil. "Imagina quanto peixe e camarão eu tenho de pescar."
São 17h e o pôr-do-sol tinge as nuvens com cores psicodélicas. Estamos há 100 metros de distância do mangue, esperando os famosos guarás aparecerem para um último lanche antes de ir pra cama, mas os célebres pássaros vermelhos nesse dia resolvem comer em outras praças. "Agora que são estrelas, ficam fazendo doce", brinca Josias. Celebridade é mesmo um saco.

Pôr-do-sol nas dunas de Lençóis Maranhenses: um monte de areia, mas nada de guará
Bonecos mutilados têm dupla função: enfeitam portas de banheiro e te levam ao prêmio. Onde estão?
Posts similares:
Fim de semana em Cananéia
Piscinas de maré na costa do Oregon
Pensar global, agir local
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Nossa, aprendi até a catar caranguejo, Rodrigo!
PS - Eu quero aquela receita!
Os movimentos da Lua também interferem, Doni. Quando é lua cheia ou nova, a ressaca é maior, mas as marés baixam e sobem ao longo do dia por causa do movimento da Terra e da gravidade, mesmo.
Juliano, só você para achar uma intertextualidade ocasional nos posts! Sen-sa-ci-o-nal!
Porque urso polar vive no Pólo Norte e pingüim, no Pólo Sul! Mereço "dérreal"?
Naum sabia para onde ia a agua qdo a maré baixava... um ralo ia ser ótimo mesmo hahahah, e agora fiquei sabendo pq o urso polar naum come pinguim!!!
Alguem ai sabe pq a mão da dona do blog tá descascando?
Hahahahahhahaha
Ei, passe uma semana no Maranhão, com bloquinho e caneta em punho, para saber se sua mão também não vai descascar depois! Isso é inveja do meu bronzeado, só pode ser...
R: achu que sabem que o pinguim se alimenta de peixe, com a pesca predatoria os pinguins naum tem o que comer e por causa dissu migram em busca de comida, essa é a causa dos pinguins migrarem para oceanos e mares aqui perto, com outra temperatura e acabam morrendu!precisamos mudar essa situação!
se conscientizem, o mundo precisa disso!
Marcella, a pesca predatória é só um dos motivos pelos quais esses pingüins vêm parar em águas brasileiras. Muitos deles são velhos ou doentes e acabam trazidos por correntes marinhas. em todo caso, a pesca predatória não é ruim só para os pingüins: ela impede que uma porção de peixes, crustáceos e aves consigam se reproduzir e renovar os mananciais.
Não é?








RSS feed