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Eu e você, os otários

“Podia fazer um negócio bem foda para todo mundo achar que é complicado e ninguém entender nada.” Essa pérola da didática saiu da boca de um professor universitário. Foi a “orientação” que ele deu a um aluno de pós-doutorado que daria aula no lugar dele. Levei uns vinte minutos para ver se conseguia escrever este post deixando o despeito de lado. Óbvio que não consegui.

Quando um professor de pós-graduação da maior universidade pública do País fala uma asneira dessas, é sinal de que muita coisa está errada. Eu e você estamos sendo feitos de trouxa três vezes. Primeiro, ao pagar aos cofres públicos uma grana privada para que as universidades públicas nos devolvam esse “investimento” em mercadoria: formando bons profissionais e pesquisadores, que vão trabalhar pelo desenvolvimento da nação. Segundo, porque ainda há muita gente que, ingenuamente, espera de um educador que ele eduque, do que entende-se que ele seja capaz de transmitir seu conhecimento da maneira mais didática possível.

É certo que os dois argumentos acima não comovem quem, numa hora dessas, está sentado num banco de faculdade. Greves, invasões, professores despreparados, escolas caça-níqueis: não é de hoje que a Academia está em crise, nem é um fenômeno exclusivamente brasileiro. O maior motivo da minha irritação é que muita gente ainda acredita no poder da pós-graduação – ou, melhor dizendo, há uma meia dúzia de ofertas de trabalho que nos faz acreditar que precisamos ter mestrado, doutorado, pós-doutorado, PhD e não sei mais que especializações para ganhar um mísero lugar ao sol no mercado de trabalho. Não sou do tipo que cola adesivo de faculdade no carro, mas, se fizesse isso, nele estaria escrito “eu NÃO acredito na pós-graduação”.

Ao fazer o comentário que fez, esse professor de estatística – da maior universidade pública do País, repito – está esfregando na nossa cara como somos um bando de otários. Bem faz meu amigo Marco Antonio ao comentar, depois de uma década de vida universitária: “A única Academia em que eu acredito é a Runner”.

Categoria: Comportamento

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Comentário de: Tuca Hernandes Email · http://www.fiapodejaca.com.br
Pois é, Carol.

Enquanto isso, nossos hermanos argentinos possuem cinco prêmios Nobel. Mas, ok, deixa pra lá, que grande parte de nossa corte universitária continue nessa ilusão de que a incompreensão é uma virtude. Eu vi muito isso também, na época em que convivi com a tal academia. Vai entender, né?

Nem sei o que é mais triste, Tuca, se é esse tipo de atitude ser comum ou a gente se acostumar a ela...
PermalinkPermalink 27.06.07 @ 09:45


Comentário de: Marlon Email
Bom ... nada mais a dizer sobre o texto ... é isso aí mesmo ...
"A emoção acabou" (como diria Casusa). Sempre fui condenado por duvidar desse nosso país tropical (como diria Jorge Bem) ... primeiro quando eu duvidava disso aqui diziam que eu era criança (quando eu era mais jovem) ... depois diziam que eu era revoltado por ser cego, e por isso duvidava disso aqui (quando eu era adolescente), e depois diziam que eu devia era trabalhar em vez de ficar falando besteiras (já na fase adulta da vida). Mas o fato é que o Brasil sempre foi um país sem futuro (como diria Renato Russo, mas esse como era famoso ninguém chamava de criança, revoltado ou mandava ele ir trabalhar em vez de falar as coisas absurdas dele). Hoje já mais calmo e muito mais conciente eu digo que quando a universidade chega a esse nível absurdo e quando o mercado de trabalho muitas vezes insiste em não ver o absurdo a que a universidade chegou tenho mais um argumento para dizer "Bom galera, o último a sair do Brasil apague a luz * se nenhum apagão cuidar disso antes que o último saia..."
Mas ainda bem que outra pessoa muito mais conceituada do que eu e que, certamente, não é criança nem revoltada e nem dispersa da realidade escreveu esse texto. Talvez assim alguém realmente acredite que a vaca já se foi pro brejo há muito tempo. Ainda não fiz faculdade mas convivo com gente com ensino superior o suficiente para saber que a universidade, aqui, não forma cidadãos e não forma bons profissionais. Tanto os cidadãos como os bons profissionais que conheço se tivessem ficado só no que a universidade propõe não seriam nem uma coisa nem outra. Em fim, desculpem pelo desabafo ... vou tentar assistir a novela e pensar que o mundo de cá é igual ao mundo de lá, com a excessão de que serei um bonitão que comerá mais de uma das gostosas em vez de somente uma ... alguém me acompanha? ...
Grande beijo Carol!
Marlon

Bem disse meu professor de faculdade, o grande Aloysio Biondi: "O jornalismo é a arte da indignação".
PermalinkPermalink 27.06.07 @ 10:28


Comentário de: catatau Email · http://catatau.blogsome.com
O pior é que esse tipo de declaração não é difícil de encontrar: explícita, como você viu, ou velada mesmo, por professores que, se fossem realmente interrogados, nem saberiam pq ocupam tal posição.

O Brasil é o país das ocupações políticas de lugares (não necessariamente por gente competente), e isso dá bem vazão a esse tipo de coisa... que no fundo não passa de um blefe, e de um descompromisso total. Gente errada no lugar errado...

Afffff...
PermalinkPermalink 27.06.07 @ 10:30


Comentário de: Ozzy, the Wizard Email · http://thewizardsland.blogspot.com
Oi Carol,
Estou fazendo pós em uma universidade pública. Também já vi alguns professores com esta postura, ou pior, achando que o mundo gira em torno deles.
"Pequenos Príncipes" do saber, em seus mundinhos B-612. Lá, o idioma que falam é outro; as poses são outras; as comida outras; só o sangue é o mesmo.
Pena não reconhecerem isto. Sua atitude performática é tão grande (personagens-pessoas ou pessoas-personagens?) que não se interessam por problemas não-intelectuais.
Bah! Tô indignado demais pra continuar.
Vou tomar café e volto mais tarde...

Eu também estou indignada, Ozzy. Mas não tá passando...
PermalinkPermalink 27.06.07 @ 12:09


Comentário de: O Primo · http://www.gebh.net/oprimo
Eu TAMBÉM não acredito em pós-graduação. Eu via o pessoal que formou comigo indo direto para a pós e pensava: 'que bando de idiotas'.

A melhor coisa que fiz foi evitar a pós. Alguns anos depois e eu já vi milhões de outros jeitos muito melhores de incrementar meu currículo, que não envolvem pós e que são muito mais focados no trabalho que eu faço hoje...

Primo, até acho que deve ter gente que realmente cresça numa pós, que aprenda algo significativo, mas concordo com você, há outras maneiras de se incrementar um currículo.
PermalinkPermalink 27.06.07 @ 12:37


Comentário de: catatau Email · http://catatau.blogsome.com
É, tem também um efeito colateral nisso tudo: pós-graduação deveria ser sinônimo de aprimoramento acadêmico, social, tecnológico, econômico e afins, numa sociedade. E não é o que ocorre no Brasil.

Moral da história: não fazer pós, pq no fim das contas não importa, ou não rende emprego? Acho o pensamenot perigoso, tão perigoso quanto o do professor mencionado acima...

E é mesmo bem perigoso, porque reflete uma desilusão total no poder da Academia. Mas não dá para esquecer que vivemos num país em que doutores têm de "esconder" no currículo sua especialização com medo de serem demitidos. É um descalabro.
PermalinkPermalink 27.06.07 @ 13:55


Comentário de: lilica Email
Ai, q medo de me formar!!!!

É um mundo hostil o que te espera aqui fora, querida...
PermalinkPermalink 27.06.07 @ 18:34


Comentário de: Hajime Email
Eu *tenho* que acreditar na pos-graduacao. Até porque existem pessoas muito boas de servicos no Brasil (uma pena serem minoria e estarem atoladas de trabalhos burocraticos).

Eu estou fazendo PhD em estatistica e realmente gosto do que eu estou fazendo, mas infelizmente não apenas na estatística mas tb em outras áreas existem pessoas com essa mentalidade horrivel.

O mais triste é ler o comentário e não ficar assustado. Qdo eu comecei a ler o post confesso que eu até imaginei alguns professores da estatística (em universidades de ponta) dizendo algo desse tipo, e não é q no final, a grande surpresa, realmente era um deles. O pior q mesmo sabendo quem sao os "grandes" professores de estatistica por ai (USP, Unicamp, UFMG, UFRJ) essa frase poderia sair da boca de muitos. aff...

Onde é que eu estou me metendo...

Bem lembrado, Hajime, gente ruim tem em todas as áreas, não apenas em estatística.
PermalinkPermalink 28.06.07 @ 10:28


Comentário de: Doris Fontes Email · http://www.conre3.org.br
Esse tom de sarcarmo e de desdém não são exclusividade de professores de estatística. Somos vítimas do descaso alheio o tempo todo, em departamentos públicos ou estabelecimentos privados. Ou alguém aí nunca foi vítima de condutas deste jaez? “Economês, matematiquês, sociologuês, psicologuês, odontologuês, bloguês.....” E quando você foi fazer um simples alinhamento e balanceamento do seu carro e o mecãnico, com aquela cara triste, disse-lhe que teria de trocar também a junta homocinética, a trizeta, a cruzeta e alguma coisa mais? É, meus caros, mutatis, mutandis.

Pelo menos eu agora sei que carros não têm rebimboca da parafuseta, Doris. Já é um começo.
PermalinkPermalink 29.06.07 @ 00:30


Comentário de: Marcia Yuri Email
Pior ainda é ver gente roubando dinheiro de projeto científico, gente subestimando o conhecimento apenas olhando a titulação ou a porcaria do curriculum lattes (esse mentalidade de muitos pesquisadores brasileiros viciados em Lattes), gente velha que não quer nada com nada a não ser receber salário.
No final é isso o que a gente vê, muito moleque e Paty recém formados que entra na pós e não sabe nem o que é um resumo ou tem noção básica do próprio experimento.
Mas acho que existe uma luz no fim do túnel - só espero que não seja uma locomotiva

Nossa, Marcia, quanto mais eu sei, mais dói. Se bem que há quem roube dinheiro de merenda escolar, por que não roubariam de projetos científicos, né? Depois, a pesquisa científica brasileira é motivo de piada e ninguém sabe por que.
PermalinkPermalink 29.06.07 @ 00:58


Comentário de: Ubiratan Email
Como sempre falo, o Brasil é um pais, no qual, as pessas estão desistindo de pensar, eu vejo isso como uma epidemia, eu tinha esperança que a cura para essa doença seria os bons educadores, mas com atitudes como a descrita, estou perdendo essa esperança.

Pois é, Ubiratan, pobre do país que precisa de heróis.
PermalinkPermalink 29.06.07 @ 11:19


Comentário de: Ton Email · http://tonzerabrasil.blogspot.com/
Gostei do tom do texto. Gosto de textos agressivos e com argumentos. Porém - não sei se é pq ainda estou em um banco de universidade - acredito na pós-graduação. Pretendo fazer sim pós, especialização e tantos outros mais.

Entretanto, concordo com vc qdo afirma que a academia está falida. Qual a diferença entra a universidade pública e a privada? A pública é de graça, a privada vc paga. Só isso. Na pública vc paga pelas greves, manisfestações e invasões de estudantes aliados aos partidos radicais e fundamentalistas. E na privada vc paga e corre o risco de ser apenas uma escola caça-níquel, ou como dizia um professor meu, "as faculdades privadas são enormes creches para adultos".

Excelente texto!

Abraços!

Creche de adulto é a melhor descrição que já vi de universidade particular, Ton!
PermalinkPermalink 03.07.07 @ 18:53


Comentário de: Lucas Lourenço Email · http://www.epeste.blogspot.com
Eu acho que o professor só mandou uma frase de efeito vazia. Ele é o imbecil, não o cargo dele. Pena que ele ocupe tal cargo (se é que ele não é mais do que esta frase de efeito).

Ainda acredito que a Universidade é lugar de conhecimento. Aplicado ou não. Quando ser acadêmico (graduação, especialização, mestrado, doutorado) começou a se tornar exigência de um bom currículo, a Universidade se prendeu ao mercado de trabalho.

Aí, é como música da Shakira: é feita pra tocar em rádio. Não dá pra esperar mais serventia do que isso.

Como mudar? Eis a questão. Talvez outra seja melhor: QUEM quer mudar?

Parabéns pelo blog, guria... Sempre animal!

Uma parte de mim quer muito acreditar que isso foi uma frase de efeito, Lucas. Obrigada pela visita, rapaz!
PermalinkPermalink 03.07.07 @ 19:02


Comentário de: Ton Email · http://www.tonzerabrasil.blogspot.com
Fiz um comentário aqui mas acho q deu erro ..

Deu não, Ton, entrou direitinho e já foi respondido!
PermalinkPermalink 03.07.07 @ 19:26


Comentário de: Rogério Email
Carol, cadê você?

Dê notícias. Beijos.

Opa, Rô, tô de volta! Não tinha wireless nos Lençóis Maranhenses, hehe.
PermalinkPermalink 03.07.07 @ 19:54


Comentário de: Ágata Email
kd a blogueira?

Achou!
PermalinkPermalink 05.07.07 @ 08:02


Comentário de: Márcia Reis Email
O pior é que ele estava certo, o povo gosta disto, de enrolação, de sentir que não entendeu nada para pensar que o professor é foda.

Se a linguagem for simples confundem com falta de conhecimentos.

É por essas e outras que eu faço parte da comunidade "Eu tenho vergonha alheia"...
PermalinkPermalink 11.07.07 @ 08:20


Comentário de: Adolfo Email · http://www.ime.usp.br/~adolfo
Tive uma idéia. Flagrar um caso desses com uma câmera escondida. Quem se habilita?

Só se você andar com uma câmera escondida o ano todo, Adolfo. Infelizmente, essas coisas são corriqueiras e acontecem de uma hora pra outra...
PermalinkPermalink 31.07.07 @ 14:19


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