A morte de Dori*
No dia em que morreria, Dori mamou pouco pela manhã. Quase foram em vão os esforços para convencê-la a engolir a mistura de água, filé de sardinha e nutrientes – o preparado que, até então, vinha sendo consumido com avidez pelo bebê golfinho de três meses, 5 kg e 74 cm.
Desde o dia anterior, quando a pequena fêmea deu sinais de apatia, a preocupação da equipe de especialistas era uma só: estabilizar seu quadro clínico. Mas Dori parecia tão desorientada quanto há cinco dias, quando fora encontrada machucada e se debatendo em uma rede de pesca em São Sebastião (SP).
Veterinária do Aquário de Ubatuba, Paula Baldassin estava se arrumando para ir à praia quando o telefone tocou. Dori estava a caminho. Em poucas horas, uma legião de oceanógrafos, veterinários, biólogos e estagiários havia se mobilizado. Os voluntários tiveram de se organizar em escalas para dar conta da voracidade do golfinho. De hora em hora, nova bateria de exames e mais uma mamadeira de leite. “Todo mundo quer ajudar a cuidar de um bichinho desses”, diz o oceanógrafo Hugo Gallo, diretor do aquário.
A maior dificuldade era a falta de informações sobre essa espécie de golfinho (Pontoporia blainvillei), conhecida popularmente como toninha ou franciscana. De hábitos tímidos, esse cetáceo de pequeno porte chega a atingir 1,70m e pesar 50kg. Comum na faixa que vai do Espírito Santo até a Argentina, é uma das três espécies de golfinho ameaçadas de extinção no Brasil, vítima da chamada pesca acidental.
Em três dias de cuidados, Dori já recuperara o peso e brincava com o termômetro de quem fosse analisá-la.?Mas os especialistas continuavam apreensivos. Cuidavam dela usando dados sobre outras espécies, as poucas informações que tinham do Pontoporia, muita dedicação e alguma intuição. E justamente essa intuição dizia aos veterinários que não se animassem, porque o golfinho estava com poucos glóbulos brancos.
Dori é o sexto animal dessa espécie que o aquário recebe desde 1995, quando foi inaugurado. Alguns eram tão jovens que ainda tinham marcas do cordão umbilical. “Ela é o filhote mais velho que chegou até agora”, dizia Hugo, na quinta-feira, esperançoso. Na sexta-feira, no meio de uma tarde ensolarada, Dori seguiu o destino dos outros cinco bebês Pontoporia. Estava nos braços de Paula quando deu um último espasmo, suspirou e morreu.
*Essa é uma versão reduzida de uma reportagem que publiquei na Folha de S.Paulo, em 2006. De nada adiantou tentar me distanciar do tema retratado: sofri horrores para escrever esse texto

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