O Poeta inominável
Chegou por sedex uma caixa enorme, que faz barulho quando eu a chacoalho. Dentro dela estão uma sapatilha de balé surradíssima, um pijama azul de listras e um pote de vidro cheio de gravetos e lantejoulas coloridas, com uma ilustração e um poema. Nem preciso procurar o nome do remetente. Está na cara que é coisa de Hermínio Bello de Carvalho.
Tenho guardados esses e mais outros presentes insólitos. A sapatilha foi comprada num brechó: não é meu número e, mesmo que fosse, nunca cheguei à sapatilha de ponta no balé. O pijama tem história: Hermínio o vestia na noite em que eu o conheci. É tão grande que cabem duas Caróis nele e ainda sobra espaço. O vidro, uma das peças da coleção “Vítreos Lúdicos”, traz um poema, de 1985, que Carlos Drummond de Andrade escreveu em homenagem ao amigo. “Hermínio Bello de Carvalho/ de tal modo vive abraçado/ à doce música sua amada/ que não se sabe onde termina/ ou de onde brota a luz divina/ sobre o seu destino sonhado./ Hermínio Bello de Carvalho/ é som cantante, ultra-afinado/ que sobre o desamor dos ruídos/ sobrepostos à natureza/ sabe erigir a arte flúvea/ de um fluído estado de beleza.”
Hermínio detesta rótulos, por isso, qualquer iniciativa de descrevê-lo já surge incompleta. Dizer que é compositor, produtor, diretor musical, poeta e cantor não dá conta de suas muitas faces. Prefiro ser declaradamente parcial: Hermínio ama samambaias, flores e cachorros. Já sobreviveu a dois enfartes. Nunca precisa de um pretexto para abrir uma garrafa de vinho. Aos 72 anos, tem um respeito incomum pelas novas gerações, sempre de olho num jovem talento que só precise de um empurrãozinho para decolar, como fez com Paulinho da Viola. Anda pela praia do Flamengo de olho em abricós-de-macaco, pipas coloridas, pássaros. É tão avoado que estranha nunca ter sido atropelado. Sempre pergunta o nome do taxista. Gosta de abiu, uma fruta doce e desconhecida. E é a única pessoa que me presentearia com algo velho, sujo e gasto que não tem outra utilidade que não a de dizer “lembrei de você”.

PS: Hermínio Bello de Carvalho é o convidado de amanhã (9/4) do programa "Roda Viva", da TV Cultura, que vai ao ar às 22h30, com apresentação do jornalista Paulo Markun. A bancada de entrevistadores é formada por Patrícia Palumbo (Rádio Eldorado e TVE), Lázaro de Oliveira (Programa Metrópolis), Helton Altman (produtor cultural), Norma Couri (Jornal do Brasil), Beatriz Coelho Silva (Estado de S.Paulo) e Alexandre Pavan (nosso Omblogsman e autor do livro Timoneiro)
Posts similares:
Herminices*
Poeta
Quem me navega
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Queria ter um amigo assim.. e claro, ter ido para sapatilha de ponta!
Sniff
Ah, vc esqueceu de dizer q ele é um ótimo padrinho, naum?
Bjks
Ao menos, você foi a que chegou mais perto de usá-las. Um ano de balé foi o bastante para mim.
Às vêzes ele some. Se reclamo ele diz que está com muito trabalho.Graças a Deus que aos 72 anos , ainda tem fôrça para lutar e produzir.Enquanto isto, outros preferem ir para a praça jogar cartas com os amigos.Além de tudo o que sinto por ele,ainda devo a idéia e a força para fundar o Instituto Jacob do Bandolim.
Pois é, Elena, também acho uma dádiva ter por perto aqueles cachinhos brancos que adornam uma cabeça tão talentosa e produtiva. Bênça, Painho!
Deixe seu comentário:
Post anterior: Dicas gastronômicas para um turista acidental








RSS feed