Braille, audiolivros e outras balelas*
Este artigo surgiu em resposta a um texto que publiquei reproduzindo uma conversa com a responsável pelo setor de voluntariado de uma grande ONG para deficientes visuais. Entre os muitos comentários que recebi sobre o post, meu amigo Marlon me mandou, por e-mail, alguns pontos que poucas pessoas devem conhecer, principalmente se conviverem pouco com cegos, como é meu caso. Fiquei tão chocada com essa situação que desisti de esperar que uma ONG me chame (meu nome consta das listas de voluntários há mais de seis meses): vou gravar audiolivros por conta própria. Por isso, em breve, o Guindaste terá uma pequena audioteca. Eis o artigo do Marlon:

A oferta de livros em braille é ridícula se comparada à demanda. Livros atuais demoram para serem transcritos, o que nos coloca dois ou três anos atrás de quem pode ir a qualquer livraria, escolher um livro e ler alegremente. Clássicos da literatura estão relativamente disponíveis em braille nos grandes centros hurbanos brasileiros – literatura portuguesa e brasileira, claro, porque se você precisar de literatura inglesa ou francesa, terá de esperar muito até que tenham chegado ao Brasil.
Entre 1990 e 2000, o código braille brasileiro mudou sem nenhuma justificativa válida. Para quem não é cego, significa dizer que o sinal de adição não é mais uma cruzinha ou que a vírgula será grafada de outra forma. A maioria das obras em braille são de antes de 1990, escritas em qualquer coisa que, hoje, deixou de ser português para cegos. Crianças alfabetisadas depois dessa data não lêem o braille anterior porque ele foi conciderado obsoleto. Cegos mais antigos precisaram reaprender os sinais para ler textos atuais. Mestres e doutores deixaram de saber ler de um dia para o outro porque toda simbologia gramatical e matemática mudou, o que diminui ainda mais a já pequena oferta de livros existentes. Você consegue entender isso? Eu sou incapaz.
Até poucos anos atrás, não existia código braille para símbulos de informática. Me formei programador de computadores sem ter livros para estudar. Como meus pais eram pouco escolarizados, aprendi ouvindo tudo soletrado. Meus livros da escola técnica foram lidos assim: “// sinal de cardinal i-n-c-l-u-d-e espaço sinal de menor i-o-s-t-r-e-a-m sinal de maior”. Pense em como soaria alguém lendo os paços da resolução de uma equação de primeiro grau e você terá uma idéia do que estou falando.
Vamos à análise do post da Carol:
Já existe um programa de computador que lê para eles.
Sim, existe, mas para rodar esses programas é necessário ter um computador multimídia com um sistema operacional relativamente caro. Num paiz onde cegos pobres são maioria, um leitor de fita cassete ou de CD custa bem mais barato.
Eles já estão acostumados. E, também, acho pouco provável que Ensaio Sobre a Cegueira possa ser encontrado na íntegra na internet.
Não estamos acostumados porra nenhuma. Mesmo um software que leia telas precisa de pontuação para dar a intonação correta às frases. Se não ouver pontuação, como no caso do livro em questão, a coisa é lida em uma voz monocórdica e tira qualquer sentido do livro. Mesmo que ele seja encontrado na internet, não poderia ser lido.
Não precisamos de alguém que grave um audiolivro de Ensaio Sobre a Cegueira.
Ela pensou que Ensaio Sobre a Cegueira fosse um livro científico de patologia ou coisa parecida. Mesmo que fosse, cegos deveriam ter o direito de ler todos os tipos de livros. Afinal, não é a isso que se dá o nome de inclusão?
O diálogo que a Carol teve sobre os audiolivros foi real. Ele ocorreu pela mesma razão que mudaram os símbolos braille: muitas das pessoas que cuidam de deficiência no Brasil não entendem nada do assunto. Como o tema está "na moda", há quem queira "a glória" de ter resolvido o problema. Até que as pessoas que cuidam de inclusão e acessibilidade abram a cabeça e procurem fazer algo eficiente, continuaremos a disperdissar trabalho voluntário e a manter os cegos nas sombras da ignorância.
*Marlon Brandão de Sousa, 22, é técnico em processamento de dados, tem uma biblioteca particular com mais de 200 livros lidos e é candidato a um curso superior de jornalismo. Este texto mantém a ortografia original.
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Oba, vou ver se encontro alguém disposto a me adestrar.
Esse post é um tabefe na minha santa ignorancia!!!
Ui.. doeu!
Foi um tabefe para mim também. Ainda estou me recuperando.
Só depois de você passar por uma pré-seleção, ser aprovado por um fonoaudiólogo e apresentar atestado, em duas vias, com cópia autenticada, carimbado e assinado... se você sobreviveu a isso, opa, vou querer ajuda sim.
Meu voto é para "Ulisses" ou "A Montanha Mágica".
Brincadeira. Pode começar com um Cortázar.
Ah, tudo livro bem fininho, né? Também acho bom começar com leituras mais amenas até pegar o jeito e mandar ver num "Em Busca do Tempo Perdido".
Na minha faculdade de "chatisse e ineficiência", que deve ser bem melhor que a que você cursou, lógico, lembro da minha professora de burocrática, que também lessionava brilhantemente as disciplinas lerdesa e má vontade, além de ser mestranda em processos políticos e pós graduada em gerenciamento ineficiente de repartições da iniciativa pública, portanto muito qualificada, dizer:
Agora vamos estudar o tópico de como mal tratar e desmoralizar potenciais voluntários qualificados para um serviço. Vamos usar como exemplo uma situação em que você precisa selecionar um ledor para áudio books em uma instituição sem fins lucrativos.
Você deve exigir dele:
... E falou todas as coisas que você exigiu do André, mas mais uma que você teve a capacidade de esquecer!!!
Como você foi uma estudante desatenta, eu te digo o que era:
Precisa ter a voz bonita, falar sem sotaque, ser capaz de ler sem interpretação e não questionar nada, de modo algum, sobre as obras a serem lidas.
Depois dessa reconstituição de uma das aulas de burocrática mais importantes, que você certamente perdeu, eu espero seus sinseros agradecimentos.
Risos
Grande beijo!!
Marlon
Marlon Brandão de sousa, 22, é graduado em "chatisse e ineficiência" pela UFAGNTAG (universidade federal de ações, gestão e novas tecnologias para aplicação governamental), tendo sido conciderado um dos mais geniais e inovadores estudantes desta instituição.
Quando é o vestibular da UFAGNTAG?
Doctor, acho que você não leu o texto até o fim. Como expliquei no pé biográfico, este texto foi escrito por um cego. Manter a ortografia original foi uma das formas de mostrar a dificuldade que é para eles conseguir fazer coisas prosaicas como entrar na internet ou escrever um texto.
mas vá estudar português, senão você vai continuar somente candidato a curso superior o resto da vida.
Dude, a questão é bem delicada. Um leitor de telas como o que o Marlon usa não diferencia "casa" de "caza", por exemplo. Manter a ortografia original foi mais uma forma de chamar atenção para o tema que foi debatido no texto: a dificuldade de alfabetizar cegos.
Eu faço curso de braille, e sei que é pouco divulgado.
Pois é, Carla, vai ter um curso em outubro para formar leitores de audiolivro, mas tem meia dúzia de vagas.
O Brasileiro, depois que inventaram a internet, acha que tudo que é digital pode ser baixado de graça, sem pagar nada. As pessoas se esquecem que aquele produto que ele está pegando de graça, seja uma música, um ebook, um audiobook, custou dinheiro para ser feito e não foi pouco.
Nos USA, o audiobook é uma grande realidade pois quase ninguém fica baixando as coisas de graça pela internet, o pessoal compra pois sabe que comprando irá ajudar toda cadeia produtiva e então aumentar o acervo.
Muitas editoras no Brasil já tentaram e ainda tentam produzir livros em áudio, mas desistem devido a pessoas que acham que podem pegar de graça e ainda colocam posts no orkut e outros sites dizendo que pirataria é cobrar por algo que não é dele e chega um monte de gente que nem cego é e começa a baixar as coisas de graça sendo que poderia ir em uma livraria e comprar por 20 reais, ou comprar mesmo que seja pela internet, estimulando assim a produção de mais e mais títulos e disponibilizando para os cegos mais e mais títulos.
Sou contra gravar livros para cegos e disponibilizar gratuitamente na internet. Se o cego tem um computador com internet capaz de baixar um audiolivro, ele tem condições de comprar um audiolivro.
Os cegos que não tem condições, mal usam a internet e quando usam, é de alguma biblioteca ou ong onde não permitem baixar arquivos da internet.
A questão é que as pessoas se usam do artificio de gravar livros para cegos para disponibilizar para eles mesmos e não pagar nada por isso, assim, as editoras desanimam e não fazem os audiolivros e quando o fazem, é em baixa escala.
Tomara que as pessoas tomem conciência de que não adianta ficar gravando livros em áudio para colocar de graça na internet, isso apenas quebra a cadeia produtiva do audiolivro e faz com que as editoras lancem cada vez menos títulos.
Se as pessoas assim fizessem, existiriam muito mais titulos e as editoras doariam para os cegos que realmente necessitam, os audiolivros de seu catálogo.
Pessoal, vamos nos espelhar nos paises de primeiro mundo para que possamos nos tornar também um país de primeiro mundo e então encontrar todo e qualquer tipo de audiolivro nas prateleiras das livrarias.
Obrigado pela atenção.
Marco, acho seus argumentos válidos, mas não concordo com a relação de causalidade que você vê entre interesse editorial e oferta gratuita de audiolivros. Há pirataria de tudo quanto é tipo de produto cultural, de tênis a DVDs, e nem por isso as empresas estão perdendo o interesse, como você sugere. Por mim, deveriam existir muito mais audiolivros, tanto para venda quanto para download gratuito.
Pode ver pela industria fonográfica, não se lançam mais cantores e bandas como antigamente. Hoje em dia, se tiver meia duzia de banda de rock nova no mercado é muito, e outros musicos também, tudo isso devido a pirataria. Antigamente um sucesso vendia um milhão de discos, hoje em dia, 50 mil cópias é considerado um sucesso de vendas, várias gravadoras fecharam , só ficaram as grandes.
O mesmo acontece com audiolivro, não existe muito título pois não se compra muita devido a pirataria, ao ato de fazer o download de graça sem respeitar os direitos autorais que é o que vocês fazem.
Tenis não tem como deixar na internet para baixar, por isso as empresas não se abalam, a pirataria que existe fica retida a classe C e D onde as pessoas não comprariam de qualquer forma um tenis original, já a musica não, atinge todas as classe principalmente B e A, que tem mania de baixar as coisas de graça mesmo tendo dinheiro pra comprar.
Em breve, autores de livros vão deixar de escrever também, teremos cada vez menos autores pois quando sai um livro, algum mané scaneia e coloca o ebooks na internet, isso desanima autores e editores.
É realmente uma pena que existam pessoas como você que ainda acham que deveria ter cada vez mais audiolivros disponiveis na internet para download grátis.
Marco, acho que esse é somente um lado da coisa. Nunca se consumiu tanta música como hoje. Programas de compartilhamento de mp3 ajudam a divulgar bandas pequenas que, antigamente, não tinham a menor chance de aparecer no rádio ou nos programas de auditório. Audiolivros só não existem em maior quantidade aqui no Brasil porque, até bem pouco tempo atrás, cegos não eram considerados um nicho de mercado. Infelizmente, não temos uma cultura de audiolivro. O download gratuito, inclusive, pode ser uma das maneiras de popularizar um mercado ainda pouco explorado.
Com certeza, nunca se consumiu tanta música, mas de graça, ou seja, os autores das músicas e seus interpretes não recebem 1 centavo por isso. Você acha isso justo?
Ao mesmo tempo em que se divulgam bandas novas com a internet, as outras bandas também deixam de ganhar.
Audiolivro não é só para pessoas cegas, mas sim para todo tipo de pessoas, principalmente as que não tem tempo de ler.
O download gratuito do audiolivro, irá apenas fazer com que o audiolivro cresça de forma lenta sendo que se a pessoa pagar, nem que for 5 reais por cada download, a explosão de títulos seria muito maior e o crescimento maior ainda pois as editoras usariam esse dinheiro para produzir mais e mais títulos.
Marco, o autor brasileiro que mais vende livros é Paulo Coelho – e mesmo ele, que vive exclusivamente de direitos autorais, está colocando sua obra para download gratuito. É óbvio que ele não faz isso porque é bonzinho. Ele sabe que o download gratuito cria mercado. Vale lembrar que escritores brasileiros raramente vivem de suas obras. Luis Fernando Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro e Carlos Heitor Cony, para citar apenas alguns exemplos, nunca viveram apenas de direitos autorais e sempre venderam muito bem. Hoje, graças à internet, o mercado de audiolivros tem a chance de vender como nunca vendeu – e isso só por causa da divulgação gratuita. Tanto empresários como artistas ainda estão descobrindo como sobreviver às novas tecnologias. Quem encontrar a solução primeiro vai ficar milionário. Recomendo a leitura da reportagem de capa da revista Wired deste mês cujo tema é justamente esse que estamos debatendo. A propósito: a revista pode ser comprada por US$ 10 nas bancas – ou baixada gratuitamente no próprio site da Wired.
Pretendo me qualificar profissionalmente nesta área e assim, dar minha contribuição filantrópica para a causa.
Abraços, Luz, Harmonia e Sucesso a todos.
Dhaya, participei de uma oficina excelente com o pessoal do Livro Falado. É um bom começo para quem quer gravar audiolivros.
Abraços. Namastê
Dayana, você precisa entrar em contato com o pessoal do projeto. No site Livro Falado tem mais informações, mas o telefone de contato é (21) 2568-5350. Há uma comunidade no Orkut, também, mas bem incipiente. Boa sorte!
Silvia, uma boa saída é procurar o pessoal do Projeto Livro Falado. Tenho certeza de que eles ajudarão com algumas obras.
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