Corpo Humano — Real, mas Frustrante
Levei meu amigo Marlon à mostra Corpo Humano - Real e Fascinante na esperança de que ele pudesse tocar alguns dos 16 corpos e 225 esqueletos, ossos e músculos da exposição. Em vão. O mais perto disso que ele chegou foi dar umas apertadelas num fígado sem graça e apalpar um fêmur que qualquer labrador treinado é capaz de descrever com riqueza de detalhes. Uma lástima.
Foram quase três horas explicando artérias, tendões e articulações, lendo plaquinhas — as células das papilas gustativas são trocadas a cada dez dias — e tendo licenças poéticas para explicar o que é um duodeno (um sifão?), um pulmão com enfisema (um cupinzeiro preto?) ou os grandes lábios (um pedaço generoso de toucinho com pêlos?).
Para quem estiver rindo da minha tentativa frustrada de ajudar meu amigo a ter repertório visual, vou deixar aqui um desafio: descrevam em detalhes para um cego de nascença uma das duas imagens abaixo, uma das peças da exposição. Não vale “detalhe de cadáver dissecado” nem pedir ajuda para um anatomista!


A metrópole dos 5 sentidos
Meu amigo Ian teve a ótima idéia de propor um roteiro com cinco sugestões de passeios bacanas em São Paulo. Depois, imagino que percebendo a encrenca em que se meteu, estendeu a proposta para outras cidades e convidou vários blogueiros a matutar cinco dicas quentes de programas, cada um em sua terra. Como ainda estou em São — agora é oficial, dentro de uns 20 dias o Guindaste vai para o Rio de Janeiro —, resolvi propor um roteiro dos cinco sentidos nessa metrópole tão desorientada. Aqui vão minhas dicas:
Ver — Museu Lasar Segall
A obra do lituano naturalizado brasileiro Lasar Segall (1891-1957) é considerada uma das mais completas no mundo das artes plásticas: seus trabalhos incluem pinturas, esculturas, gravuras e desenhos. Artista expressionista, foi amigo íntimo de Mario de Andrade e um dos introdutores do modernismo no Brasil. O Museu Lasar Segall funciona na bela casa onde Segall morava, na Vila Mariana, e tem um acervo riquíssimo, além de um gostoso café, onde se pode fazer uma pausa para conversar.
Comer — Khan el Khalili
A famosa casa de chá de Jorge Sabongi existe desde 1982 e se consagrou como um dos lugares mais tradicionais para se conhecer dança do ventre. Ao longo da noite, acomodados em confortáveis almofadas, os clientes assistem à apresentação de exímias dançarinas nas mais variadas técnicas dessa arte. A comida farta vale o passeio: há bolos, doces, salgados, frios, sucos, pães, chás importados e nacionais, vinhos e uma grande quantidade de tiragostos deliciosos. Para arrematar, sugiro que mesmo os não-fumantes experimentem umas tragadas no narguilé, um cachimbo ornamentado que tem um recipiente com água por onde passam os fumos perfumados antes de serem filtrados.
Cheirar — Quinta da Canta
A Serra da Cantareira já vale uma tarde inteira de passeio, mas sugiro um almoço no Quinta da Canta. "Ué, mas não é a opção do cheirar?", você vai perguntar. É. Adepto da filosofia do slow food, esse charmoso restaurante funciona num casarão cercado de pássaros e árvores centenárias. Abra as hostilidades com uma boa taça de vinho, que você vai investigar com seu nariz — acredite, há vinhos com cheiro de couro, fumaça, defumado, cogumelos e outras coisas estranhíssimas. As mesas ficam perto de uma cozinha aberta: enquanto você degusta calmamente o seu primeiro prato, é inundado pelos aromas maravilhosos da comida que vai sendo preparada no grande fogão à lenha. Depois, curta a sobremesa à sombra das árvores e respire fundo, deixando aquele cheiro bom de montanha invadir os pulmões. Só não se assuste se encontrar algum esquilo assustado. Eles adoram meter o nariz onde não são chamados.
Ouvir — Samba da Vela
(Casa de Cultura de Santo Amaro, Praça Francisco Lopes Ferreira, 434 - 5522-8897)
Uma mão risca o fósforo e a chama treme ao queimar o pavio. Em volta, as pessoas observam num silêncio cerimonioso. São 20 horas de uma segunda-feira e está começando mais um Samba da Vela, uma roda de samba que recebe todas as semanas alguns dos músicos mais talentosos da cidade. É um culto ao samba e uma oportunidade de novos músicos mostrarem seu trabalho, por isso, há um clima solene no ar, acentuado pelo fato de não se falar nem beber até que a grande vela ao centro da mesa se apague. Viagem antropológico-musical imperdível.
Tocar — Magma Núcleo Terapêutico
Fontes com água corrente, muitas plantas, salas silenciosas e aconchegantes. Esse é o cenário que encontrei no Magma Núcleo Terapêutico quando cheguei com as costas completamente travadas de tantas horas em frente ao computador. O folheto com a descrição das massagens mais parece um cardápio, por isso, ao longo de 15 dias, fui degustando várias. Há especialistas em reiki, do in, shiatsu, acupuntura e outras técnicas mirabolantes. Algumas dóem, outras dóem muito e, claro, há aquelas que você sai como se estivesse flutuando. Todas prometem equilibrar nossa estrutura corporal e, muitas vezes, a psicológica também. Para mim, foi um doloroso trato no ego, mas que me fez um bem danado.
Tigres - 3

Mais um estudo para a tatuagem de tigre. Este aqui eu rabisquei num canto de folha, meio às pressas, quando ainda tentava convencer meu amigo a fazer uma tattoo pequena. Uma vez, li uma entrevista com o Anthony Hopkins em que ele comentava que estudou a movimentação dos tigres para construir o personagem do Hannibal Lecter. Os felinos em geral se locomovem de forma imponente, movimentando aqueles músculos de uma maneira tão suave que parecem serem feitos de espuma. Os tigres são ainda mais impressionantes nesse quesito e alternam uma ondulação quase imperceptível do tronco com a potência das patas. O mais fascinante, no entanto, é a maneira como encaram a presa, mantendo a cabeça meio abaixada e o olhar frontal, penetrante. De gelar os ossos. Animais magníficos, esses tigres tristes.
Tigres - 2

Eis um dos mal-sucedidos estudos para uma tatuagem. Este aqui ficou bem tosco, com o nariz meio torto e os dentes fora de esquadro, um meio termo entre tigre e Gremmlin. Sempre achei que desenhar tigres de perfil era muito mais simples do que desenhá-los de frente, com todas aquelas listras e pêlos volumosos. Depois de testar tantos bichanos, descobri que, de frente, eles continuam muito mais tigrais do que de lado. Talvez seja a "carona" redonda ou o pescoço com uma quase juba, aquela pelagem densa e longa, bem volumosa. Não bastasse, eles são bichanos muito arredios, sempre camuflados atrás de uma relva. E estão em extinção, os bonitões, em todas as partes de mundo. Acho que têm o olhar mais penetrante do mundo felino, com os traiçoeiros olhos de esmeralda diluída tão bem descritos por Lígia Fagundes Telles.
Tigres - 1

Quem olha este tigrinho tão pacato mal imagina a canseira que o danado me deu. Isso que dá pegar encomenda de amigo para fazer tatuagem: acontece que o Marcolino rejeitou duas ilustrações tigrescas que fiz antes. Uma hora, a expressão do bichano estava muito plácida, outra, muito brava, depois, ângulo das listras estava um pouco mais para a direita do que deveria ou o pêlo pouco eriçado perto da nuca. Passei meses estudando as espécies, checando a espessura das linhas e o movimento dos músculos. E as referências na internet não ajudavam muito, porque nunca encontrava o bicho do jeito que eu queria. O negócio foi fazer um frankstein, misturando um pouco de várias fotografias que achei até chegar nessa imagem. Entreguei a versão derradeira e o Marco olha daqui, olha de lá e me sai com essa: "Vou tatuar só a cabeça". O bom é que amigo que é amigo a gente pode xingar sem dó.
Fume e cresça forte e saudável
“Devia ter cartazes nas escolas estimulando as crianças a fumar.”
Essa pérola da engenharia humorística é de meu querido padrinho Helton Altman, produtor cultural e um dos donos da trilogia Filial, Genésio e Genial – alguns dos melhores lugares para se tomar um chopp entre amigos na Vila Madalena.
A tese de Helton é simples: a ciência e a medicina evoluíram tanto que é um absurdo não existir ainda um cigarro “do bem”, com cálcio, ferro, fósforo e outras vitaminas, proteínas e sais minerais essenciais ao crescimento. Pode até ser perfumado. “Como os caras são capazes de construir uma estação espacial e não conseguem fazer um cigarro que ajude a combater o colesterol e a prevenir o diabetes?”, ele me pergunta, estupefato.
Ex-capoeirista, Helton nunca fumou – é adepto da outra droga lícita, aquela que vem numa garrafa geladinha ou num copo com colarinho. E como é que fariam um cigarro assim?, proponho, incrédula. “Ah, isso não é problema meu. Eu não escolhi ser cientista. Vai me dizer que fazer a bomba atômica é mais fácil do que criar um cigarrinho cheio de nutrientes?”
Pois é, fechei com ele. É ridículo vivermos em pleno século XXI e o cigarro fazer tanto mal.

Retrato de um gênio quando jovem
Quem ouve o belo dedilhado da introdução de Rio que Chora tem a certeza de que está diante de um talento. O que pouca gente sabe é o tamanho do talento desse instrumentista de São Luiz Gonzaga (RS), que compôs a música em parceria com a irmã Anahy e o primo Adriano. Caray Guedes tem tre-ze-a-nos! TREZE! Eu brincava de pônei com a idade em que o menino compõe com sensibilidade de gente grande. Ele é tão mirradinho que some atrás do violão.
Caray (pronuncia-se Caraí) é filho de uma família de músicos: o pai é cantor e o irmão caçula também vem ensaiando seus primeiros acordes. Sua levada rápida e com sotaque sulista lembra o trabalho do conterrâneo Yamandú Costa. Não é à toa. Quando ouviu Caray tocando, quatro anos atrás, Yamandú ficou tão impressionado que presenteou o garoto com seu próprio violão de sete cordas. Rio que Chora – que o Guindaste teve acesso em primeira mão – será defendida, hoje e amanhã, no Festival Instrumental de Guarulhos.
Treze anos, francamente...

Em rara foto, Caray Guedes (esq.) é aplaudido em apresentação em Rio Grande do Sul
TPM - 3

Xí, a casa caiu de vez! Eu sei, você fez tudo o que era possível para evitar um confronto direto. Disse "sim, querida" no tom mais neutro possível, andou na ponta dos pés, até evitou respirar enquanto estava por perto dela. Mas você esqueceu de que pensamentos podem ser muito irritantes. Tem coisa que incomoda mais do que imaginar que a pessoa ao seu lado está pensando, assim, sem controle nenhum? Agora, ela está furiosa e você vai ter que ter MUITO jogo de cintura para desemburrar a menina. Você vai dizer "calma, meu bem", e ela vai dizer "quem está nervosa aqui" uns vinte decibéis mais alto que o permitido – em aeroportos. Vai dar uma canseira... Quer um conselho? Tranque a mocinha num caderno escuro, coloque o caderno numa caixa fechada com cadeado e só abra depois de dez anos. Quando ela sair do exílio, vai continuar puta da vida, claro. Mas agora ela, pelo menos, tem uma boa razão.
Mais mocinhas de TPM?
TPM - 2

Mais uma irritadinha da turma do não-me-toques-não-me-reles, esta de 1996. Quando era adolescente, éramos três mulheres com TPM sempre na mesma semana. Li que os ferormônios femininos se comunicam do além para coordenar um ataque em massa. Pegue dez mulheres que não se conhecem, junte-as uns três meses sob o mesmo teto e tenha a agradável sensação de viver num inferno quando elas estiverem "naqueles dias", porque vai calhar de todas menstruarem juntas. A sacanagem biológica remonta a nossos primórdios de fêmeas, quando fazíamos tudo em bando, incluindo produzir crias e cuidar delas. Hoje, depois de dez anos sob o império do anticoncepcional, sou uma criatura destepeemezada. Nunca mais tive crises de choro ou de súbito mau-humor porque levei ao pé da letra a tese da "sangria inútil": não menstruo mais. Nem por decreto. Rápido, simples e indolor. Ao menos para os pobres mortais que precisam conviver comigo.
Mais mocinhas de TPM?
TPM - 1

Não eram só Malditas que eu desenhava na adolescência. Ilustrei montes de mulheres mau-humoradas, irritadinhas ou mandonas, todas de saco cheio de serem sacaneadas. Putas da vida, mesmo. Essas mocinhas não tiravam a roupa por nada, pelo contrário, queriam ser levadas a sério, mas justo em seu pior dia: no auge da TPM. Esta aqui, de 1997, manda alguém chispar de algum lugar, dar o fora, tchau e bênção. Não me lembro o que a deixou tão brava, mas é melhor nem perguntar. Para mulheres à beira de um ataque de nervos, dizer "calma" é se dar um atestado de óbito.
Mais mocinhas de TPM?
Tá na corrida pelo pódium? Tomara que ainda dê tempo! Quer uma ajudinha? Aqui tem um atalho!
O vestido imoral
Faz cinqüenta dias que estou sem dinheiro. Fui dormir com um belo salário e acordei com salário nenhum. O pior é que nem posso dizer que fui pega de surpresa: contra toda lógica empresarial, plano de carreira e férias remuneradas, pedi demissão.
Desde então, nunca mais pisei num shopping – logo eu, que sou chegada a uma liquidação. Confesso que adiei ao máximo o reencontro com as vitrines. Por causa de um objeto de desejo, já estourei o limite do cheque especial, parcelei a perder de vista, usei reserva de poupança para supérfluos.
Comprar por impulso foi um erro menor, dentre os muitos que cometi. Sinto um misto de culpa e vergonha cada vez que lembro de ter entrado numa loja para perguntar o preço de um chinelo e ter saído de lá com um vestido de festa só porque tinha visto outra cliente experimentar e não levar. Era uma peça única, a mais cara da coleção. Assim que paguei, percebi que tinha me comportado como uma completa idiota e aceitado, de bom grado, o que a publicidade leva anos para incutir nas pessoas: “tenho porque posso”. Toda vez que ponho o vestido, me penitencio a nunca esquecer o deslize moral que ele me representa.
No entanto, ficar subitamente dura depois de anos de mamata gerou um inesperado efeito colateral. Não foi com tristeza ou inveja que olhei as vitrines. Nem mesmo passar em frente às minhas lojas preferidas me fez esmorecer. Nada disso. Se perdi poder de compra, ganhei poder de escolha. Hoje, é com ceticismo que vejo todos aqueles néons, descontos e facilidades. Olho para um manequim com visão de raio-x. Agora, enxergo a falsa exclusividade, o glamour efêmero, os juros embutidos. E vaticino: não preciso, não vale. Que venha o próximo surto de grana. Estou vacinada contra consumismo.

E o baile de domingo à noite é uma aula de samba
Ao sinal do bateirista Thiago Rabello, nove músicos começam a tocar. O trio de metais surge numa levada vigorosa. Vinte segundos depois, Cahê Rolfsen sobe ao palco cantando “sábado à noite eu tô num salão de gafieira, dançando, não perco um baile de lá”. A pista bomba.
A essa altura, você que já leu “baile” no título e “gafieira” no primeiro parágrafo deve estar se perguntando quantos anos eu tenho. Pois é, meu caro leitor, a gafieira tomou de assalto as casas de show mais descoladas e vem arrastando para os salões a galera do forró universitário e adjacentes, gente que, como eu, está entre os vinte e poucos e os trinta e alguns.
Prova disso é a Gafieira São Paulo, que acaba de completar um ano lotando o Tom Jazz aos domingos. Nenhum dos onze integrantes da banda tem mais de trinta – nem mesmo o produtor, Pedro Altman. O talentoso trompetista, Paulinho de Viveiro, é o mais novo, com 20 anos recém completados. No palco, a bela Verônica Ferriani se reveza com Cahê num repertório onde só pinta samba de primeira, de “Morena Boca de Ouro”, de Ary Barroso a “Lapinha”, de Baden Powell. A galera manda ver no cruzado e no três por quatro.
Pensando em que acha que pernada é chute na canela, a casa tem oferecido aulas de gafieira uma hora antes do espetáculo, das 19h às 20h. Garantido o upgrade, é hora de se preparar com uma cervejinha, escolher um par e cair no samba – ou a moça é capaz de se aborrecer.

Gafieira São Paulo: a cantora Verônica Ferriani, acompanhada ao violão por Conrado Goys, em imagem do fotógrafo Pipo Gialluisi
Existe vida inteligente depois de Monteiro Lobato?
Em homenagem ao dia do livro infantil, 18 de abril, a Folhinha publicou hoje uma lista de obras que “toda criança deve ler antes de virar adulto”. Olhei a relação com o carinho que sempre dedico a literatura infantil. Fiquei decepcionada. Estão lá Ana Maria Machado, Ruth Rocha, irmãos Grimm, Andersen. A lista é de uma obviedade impressionante.
É claro que foram selecionadas grandes obras. Nenhum amante de livros infantis em sã consciência vai dizer que O Menino Maluquinho é uma bobagem ou que Alice no País das Maravilhas já envelheceu. Abrangendo um intervalo que vai de 1811 (“Contos dos Irmãos Grimm”) a 1997 (Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque), a lista não traz sequer um livro que seja do século XXI. Nada.
Parece que os 17 especialistas ouvidos pela reportagem passam por estantes de livros infantis só para tirar pó. Sou freqüentadora assídua das sessões infantis da Livraria da Vila e da Fnac. Já disputei o último exemplar de Olivia à tapa e mantenho um acervo tão querido que terei problemas se um dia tiver filhos. Há, sim, excelentes obras para crianças editadas nos últimos dez anos, muitas delas premiadas e já resenhadas aqui no Guindaste. Aos pais que querem fazer uma coleção de obras mais recentes para os filhos, aqui vão dez sugestões para você ter certeza de que existe vida inteligente após Monteiro Lobato.
Luna Clara e Apolo Onze, Adriana Falcão, Salamandra, 332 págs.
Greve de Vida, Amélie Couture, Companhia das Letrinhas, 64 págs.
Agora Não, Bernardo, David McKee, Martins Fontes, 32 págs.
Cabumm!, Heinz Janisch e Helga Bansch, Companhia das Letrinhas, 32 págs.
Pedro e Lua, Odilon Moraes, Cosac Naify, 52 págs.
Olivia, Ian Falconer, Globo, 40 págs.
Como os Dinossauros Dizem Boa Noite?, Jane Yolen e Mark Teague, Globo, 36 págs.
Através do Espelho, Jostein Gaarder, Cia. Das Letras, 142 págs.
Vó Nana, Margaret Wild e Ron Brooks, Brinque-Book, 32 págs.
Lua Prateada e Fio Prateado, Kathleen Duey, Caramelo, 86 págs. cada
Deixem as garotas transarem em paz
No quesito sexual, a medicina moderna tem sido pródiga em dar uma mãozinha para os rapazes e deixar as garotas na mão. Concordo que nós também somos beneficiadas pelo levante que Viagra, Cialis, Levitra e genéricos dão na moral masculina – e não vejo mal na safadeza do “uso recreacional” dos compridinhos milagrosos. O problema é que o interesse parece ser inversamente proporcional quando o público são as moçoilas. Cadê nosso remedinho azul?
A ciência sempre zombou das garotas com esse papo de sexo frágil, de termos menos neurônios, de não servimos para as exatas. Com a desculpa de que somos “muito complexas”, a medicina nos engambela há três gerações de pílulas. Depois de 13 anos de estrógeno via oral, estou há um mês sem o maldito remedinho e o que ganho? Espinhas. É uma escolha cruel: celulite ou acne e filhos. Para os homens nenhuma bula diz ereção ou caspa, né?
Até na hora de ir ao ginecologista querem sacanear com as meninas – e olha que não estou falando em assédio, não. Pois bem, mocinhas, aqui vai uma dica de quem mudou mais de ginecologista do que de telefone: prefiram os médicos às médicas. Você pode até pensar que se a ciência não nos deu uma força até agora, pelo menos sua médica está do seu lado, certo? Errado. Não espere cumplicidade da sua ginecologista. Por ser como nós, ela vai olhar torto para sua depilação, pensar que sua cólica é “uma frescura” e julgar sua TPM “bolinho” perto da dela. Ah, e vai achar que você é feia e gorda, mas isso a gente também acha dela.
Por mais que neguem, ginecologistas mulheres também aderiram à campanha “não deixem as garotas transarem em paz”. Duvida? Pois bem, a primeira pergunta que elas fazem é se você tem vida sexual ativa. Basta dizer que você transa mais de duas vezes por semana e pronto, sua médica vai achar uma bactéria fora da flora, um cisco no ovário, um pêlo pouco puritano. Ela receitou “uma pomadinha” para cauterizar “uma feridinha”? Leia-se “ca-tor-ze-di-as-sem-se-xo”. Se você fizer cara feia, no retorno é capaz de ela querer “mais uma semaninha”.
Da próxima vez que ouvir aquele papinho de que os homens são mais evoluídos, esnobe seus orgasmos múltiplos. Deixe que eles busquem na farmácia mais próxima uma ajudinha para fazer em 72 horas o que fazemos sem esforço nenhum em 60 minutos.

Sergio Fabris - 3

– Se a gente passar látex nesse esqueleto, dá para fazer uma membrana. Vai parecer uma asa de morcego.
Sergio Fabris entende bem de gostos infantis. Para André, seu filho de cinco anos – verdadeira miniatura do artista –, ele já fez uma porção de brinquedos. O garoto delira cada vez que pode acompanhar o pai em seu ateliê e passa horas entretido em redecorar as paredes ou encher de borrões uma folha de papel.
O que mais impressiona em Sergio Fabris é sua versatilidade. Ele trabalha com óleo, acrílico e resina, faz luminárias em fibra de vidro, telas em silk-screen, esculturas e colagens. Quando ainda era criança, em Santos, aprendeu com o pai a lidar com artigos de couro e até hoje sabe fazer sapatos e bolsas. Na adolescência, a paixão pelo mar o levou a se interessar pela fabricação de pranchas – época que lhe custou muitos neurônios, derretidos pelo cheiro avassalador da resina acrílica e do poliuretano.
Boêmio inveterado, Sergio Fabris tem contribuído para deixar os barzinhos mais descolados. Os freqüentadores do Genésio, na Vila Madalena, só precisam levantar um pouco a cabeça para ver algumas das telas do artista. Também na Vila fica o Genial, que recebeu há poucas semanas dois grandes painéis ilustrados com gênios como Pixinguinha, Einstein e Villa-Lobos, entre outros. Na região da Augusta, outro barzinho exibe o trabalho do santista: trata-se do Barão da Itararé, cujos cardápios Sergio Fabris fez um a um, imitando serigrafia. Em frente ao Ecco, na rua Amauri, é possível ver um grande grafite, com mais de seis metros de altura. Obra de Sergio Fabris e do grafiteiro Eymard, devolvendo à cidade um pouco de sua beleza oculta.

Criador e criaturinha
Mais Sergio Fabris
Arte na Vila
A Volta do Preto Velho
Sergio Fabris - 2

Sergio Fabris vai até o quartinho entulhado de tranqueira e volta com um guarda-chuva estropiado. As hastes estão tortas e enferrujadas. Abre a porta novamente e retorna com uma caixa de ferramentas. Algo me diz que ele não tem a menor idéia de como se comportam os artistas plásticos. "Isso aqui deve dar."
Eu tinha ido até seu ateliê para pedir ajuda em uma encomenda especialíssima: meu irmão, então com 10 anos e apaixonado por RPG, queria que eu fizesse uma caixa com cadeado e um dragão em cima. "Para guardar minhas coisas de magia." O problema é que ele queria que o dragão tivesse asas – e que elas fossem articuladas. Se havia uma pessoa capaz de realizar um desejo desses, era Sergio Fabris.
Em poucos minutos, ele corta o tecido do guarda-chuva, lixa as dobradiças e serra as pontas, transformando aquele monte de metal enferrujado em... esqueletos de asas! Eu finalizo os últimos retoques na pintura do dragão e forro a caixa com veludo preto – achei que era a melhor cor para um aprendiz de mago.
Olho para as paredes do ateliê, cobertas pelas telas e esculturas do artista. Em suas obras, as ruas estão sempre desertas. Não há homens, carros, bancas de jornal, cães, paredes pichadas, mendigos. Não há flores. Ao desumanizar a cidade, Sergio Fabris revela uma São Paulo à sombra dos arranha-céus imortais.

Mais Sergio Fabris?
Arte na Vila
A Volta do Preto Velho
Sergio Fabris - 1

Entro no pequeno ateliê na Vila Madalena e encontro um homem alto e magro, sem fôlego, encharcado de suor e coberto por uma nuvem de poeira. No lugar de palheta e pincel, ele empunha uma marreta e investe com raiva contra uma parede. “Preciso de mais espaço!” Se fosse outro artista plástico, teria ficado preocupada com a cena. Em se tratando de Sergio Fabris, nada mais me espanta.
Seu ateliê mais parece um depósito de tralhas do que o local de trabalho de um artista. Logo na entrada, é possível ver as ripas de sinteco que ele encontrou numa caçamba e com as quais fez, sozinho, o revestimento do lugar. Um pequeno quartinho reúne todo tipo de entulho que se possa imaginar: latas velhas, rolos de arame, tubos de spray, sacos de gesso, pedaços de circuitos eletrônicos, peças de pebolim e uma infinidade de outros cacarecos. Sua mesa de trabalho também não foge à regra – cada centímetro quadrado dela está desenhado, rabiscado e manchado ou tem restos de cola, poliuretano, araldite, argila. Na pequena bancada onde ele prepara suas tintas, há sobras de resina acrílica grudadas em copos descartáveis e jarras plásticas, compondo uma involuntária instalação.
Apesar de ter nascido em Santos, Sergio Fabris é um dos artistas plásticos que melhor representa São Paulo. Viadutos, monumentos, prédios, postes e fios elétricos – os maiores vilões da paisagem urbana – se transformam em obras de arte em suas mãos. É como se a cidade fosse vista através de um caleidoscópio, com vigas, colunas e fachadas compondo um cenário uniforme, distorcido e belo. Seu traçado quase arquitetônico remete ao trabalho de Gregório Gruber, mas enquanto o segundo retrata uma São Paulo chuvosa e iluminada, Sergio Fabris parece buscar ângulos desconhecidos em escadarias, janelas, marquises.

PS: Esta exposição virtual inaugura a Galeria Guindaste. Ao longo do dia, colocarei outras obras de Sergio Fabris.
Mais Sergio Fabris?
Arte na Vila
A Volta do Preto Velho
A caçadora de drosófilas
Não meço esforços para ter um pouco mais de verde ao meu redor. Já coloquei uma bombinha de aquário num bidê, enchi de água e plantei ninféias e alfaces d’água. Meu jardim aquático durou pouco. Quando as plantas se tocaram de onde estavam florescendo, amarraram pedras no caule e se jogaram da borda. Morreram afogadas.
Anos depois, comprei um pé de amora. A árvore ficou tão grande que encostava no teto. Hoje, ela mora num sítio e está apaixonada por um ficus. Tenho também um ex-bonsai de romã que me agradece todos os dias por não cortar suas raízes como fazem os japoneses malucos.
De todos meus exemplos verdes, o que me dá mais dor de cabeça é a composteira. Os sites que ensinam como transformar lixo orgânico em adubo raramente sugerem que você tente isso num apartamento. Descobri por que: “Durante a compostagem, fungos, bactérias, protozoários, minhocas, besouros, lacraias, formigas e aranhas decompõem as fibras vegetais”.
Até aí, tudo bem. Os bichos não vão querer sair do quentinho por nada. O problema é que ninguém fala que entre os “amigos invisíveis” estão montes de drosófilas, aqueles mosquitinhos que gostam de banana. Agora, minha fruteira fica escondida no armário e só fecho a geladeira depois de me certificar de que não prendi nenhuma drosófila lá dentro.
Antes que eu me armasse de inseticida e saísse pela casa borrifando mosquitos, voltei ao site em busca de um alento. “Não se preocupe: fazer compostagem não vicia, é apenas uma atividade apaixonante como todo aprendizado com a natureza.” Um agrônomo poeta! Era só o que me faltava.

Troque seu cão por um lagarto
– Com tanto espaço, por que eles têm que se esconder aqui?
Essa é a pergunta que dona Fátima faz todas as manhãs, assim que acaba de lavar a varanda de sua chácara. Balde e vassoura em punho, ela olha desanimada para o chão, onde a água faz uma poça perto de um grande cano de esgoto. Perto da casa dos lagartos.
Cinco anos atrás, quando legislei em favor dos répteis pela primeira vez, eles eram um simpático casal com pouco mais de um metro de comprimento do focinho à ponta do rabo. Hoje, são cinco grandes lagartos que passam as manhãs em busca de comida e as tardes jacarezando ao sol. Levariam um vida pacata de cidadãos anistiados não fosse o fato de hibernarem justo no cano de escoamento da lavanderia.
Quem freqüenta o Guindaste há mais tempo sabe que sou uma defensora fervorosa do equilíbrio ecológico. Por mim, girinos deveriam ser vendidos em saquinho, que nem peixinho dourado, para que cresçam e acabem com as moscas. Depois, estariam liberados para curtir a aposentadoria coaxando num charco no interior. Tamanduás poderiam ser alugados para uma curta temporada no forro da sua casa, exterminando cupins e formigas. Só as lagartixas seriam receitadas mediante prescrição biológica, porque não são capazes de discernir pernilongos de borboletas.
Um lagarto é mais eficiente do que um gato nas táticas de guerrilha anti-ratos. Uma família de cinco répteis dá conta de manter livre de pragas um estoque inteiro de cereais. Você não precisa se culpar por deixá-los sozinhos no final de semana nem tem de andar com um saquinho plástico ridículo nas mãos enquanto seu lagarto se alivia no jardim. Eles não latem, não rosnam, não precisam desmamar, são limpos e trocam de roupa sozinhos. Lagartos se mantém íntegros até quando você tenta enxotá-los: a língua bifurcada vibra no ar, como a lembrá-lo de que eles podem ser tão traiçoeiros quanto suas primas cobras. Se quer viver bem ao lado de um lagarto, aprenda a tocar flauta.

O Poeta inominável
Chegou por sedex uma caixa enorme, que faz barulho quando eu a chacoalho. Dentro dela estão uma sapatilha de balé surradíssima, um pijama azul de listras e um pote de vidro cheio de gravetos e lantejoulas coloridas, com uma ilustração e um poema. Nem preciso procurar o nome do remetente. Está na cara que é coisa de Hermínio Bello de Carvalho.
Tenho guardados esses e mais outros presentes insólitos. A sapatilha foi comprada num brechó: não é meu número e, mesmo que fosse, nunca cheguei à sapatilha de ponta no balé. O pijama tem história: Hermínio o vestia na noite em que eu o conheci. É tão grande que cabem duas Caróis nele e ainda sobra espaço. O vidro, uma das peças da coleção “Vítreos Lúdicos”, traz um poema, de 1985, que Carlos Drummond de Andrade escreveu em homenagem ao amigo. “Hermínio Bello de Carvalho/ de tal modo vive abraçado/ à doce música sua amada/ que não se sabe onde termina/ ou de onde brota a luz divina/ sobre o seu destino sonhado./ Hermínio Bello de Carvalho/ é som cantante, ultra-afinado/ que sobre o desamor dos ruídos/ sobrepostos à natureza/ sabe erigir a arte flúvea/ de um fluído estado de beleza.”
Hermínio detesta rótulos, por isso, qualquer iniciativa de descrevê-lo já surge incompleta. Dizer que é compositor, produtor, diretor musical, poeta e cantor não dá conta de suas muitas faces. Prefiro ser declaradamente parcial: Hermínio ama samambaias, flores e cachorros. Já sobreviveu a dois enfartes. Nunca precisa de um pretexto para abrir uma garrafa de vinho. Aos 72 anos, tem um respeito incomum pelas novas gerações, sempre de olho num jovem talento que só precise de um empurrãozinho para decolar, como fez com Paulinho da Viola. Anda pela praia do Flamengo de olho em abricós-de-macaco, pipas coloridas, pássaros. É tão avoado que estranha nunca ter sido atropelado. Sempre pergunta o nome do taxista. Gosta de abiu, uma fruta doce e desconhecida. E é a única pessoa que me presentearia com algo velho, sujo e gasto que não tem outra utilidade que não a de dizer “lembrei de você”.

PS: Hermínio Bello de Carvalho é o convidado de amanhã (9/4) do programa "Roda Viva", da TV Cultura, que vai ao ar às 22h30, com apresentação do jornalista Paulo Markun. A bancada de entrevistadores é formada por Patrícia Palumbo (Rádio Eldorado e TVE), Lázaro de Oliveira (Programa Metrópolis), Helton Altman (produtor cultural), Norma Couri (Jornal do Brasil), Beatriz Coelho Silva (Estado de S.Paulo) e Alexandre Pavan (nosso Omblogsman e autor do livro Timoneiro)
Dicas gastronômicas para um turista acidental
Acabo de dar umas dicas para um turista improvável, daqueles que conhecem São Paulo de andar de táxi pela Paulista, vão ao Masp para ver o acervo fixo que vemos toda vez que vamos ao Masp ver outros acervos e agüentam sorridentes duas horas na espera do Spot – e fazem isso tudo debaixo de uma chuva torrencial ou num calor dos infernos. Esses tipos são incorrigíveis. Vão embora querendo voltar, uma pouca vergonha. Enfim, dei algumas dicas gastronômicas menos turísticas, que agora divido aqui. Vai que você está de bobeira no feriado.
Pasquale (rua Amália de Noronha, 167, Pinheiros, 3081-0333)
É imperdível, mas muita gente acha o mesmo, principal explicação para o fato de esse pequeno restaurante italiano viver sempre cheio. Saiu com destaque na lista dos melhores italianos da cidade. Fica pertinho do metrô Sumaré. Se for almoçar ou jantar, seja civilizado e faça reserva. Ou vá cedo. Tem uns petiscos e tira-gostos de fino trato, que você mesmo pode escolher num balcão de vidro (aceite as dicas do garçom dos petiscos, são quentes). Os pratos são super artesanais, mudam muito a cada semana. O dono é um figura.
Chácara Santa Cecília
Sabe aqueles lugares que valem só pela paisagem? É a Chácara Santa Cecília, uma chácara (juro!) que fica no meio de Pinheiros, perto da marginal e da cratera. Um achado. Ao contrário do Pasquale, é um lugar beeem grande, com ótima comida, em esquema self-service. O preço é fechado, varia entre R$ 30 e R$ 50, sem bebidas, de acordo com o dia da semana; domingos são os dias mais caros. Depois de comer, não deixe de passear um pouco por lá: tem umas alamedas com surpresinhas, uma mandala, uma escultura, um laguinho com carpas. Se for num domingo, leve fantoches – enche de criança.
Pitanga
Essa dica é quente para o sábado, quando, além de uma caprichada feijoada, eles têm em cartaz um saboroso pernil que só pode ser uma daquelas receitas de vó, que tem que ficar dois dias marinando com sálvia ou alguma outra erva obscura. O restaurante fica num simpático sobradinho da Vila Madalena, numa laderona pertinho do Fórum de Pinheiros. Peça uma mesa no segundo andar e almoce sendo acariciado por uma das dezenas de samambaias que ficam presas no teto, uma pertinho da outra. Também tem ótimas saladas e boas combinações de doce e salgado (eu adoro). Se for uma pessoa de sorte, ainda vai estar em época de tangerina e você pode se deleitar com um suco bem menos ácido que o de laranja – e muito mais laranja.
La Tartine (rua Fernando de Albuquerque, 267 Cerqueira César, 3259-2090)
É o bistrot mais barato da cidade e descoladíssimo. Fica quase grudado com o Mestiço, que você já conhece, por isso, quem se cansa da fila de espera de um vai bater ponto na fila de espera do outro. Bem coisa de paulista. Só abre no almoço quando dá na telha dos donos, então, garanta o jantar. A menos que você seja apaixonado por escargots, o que é um bom motivo para eu não te dar mais nenhuma dica, vá de salada e grelhado, só para fazer de conta que você foi lá para comer e não para tomar vinho. Ah, os vinhos...
Praça Benedito Calixto (no quadrilátero entre as ruas Teodoro Sampaio, Cardeal Arcoverde, Lisboa e Henrique Schaumann, Vila Madalena)
Sábado à tarde, não deixe de dar uma passadinha lá para comer "dois pastel e um chopps" e ouvir chorinho. Na praça rola uma badalada feira de artesanato e antigüidades, público alternativo, gente divertida, ferveção nos barzinhos do entorno. Um inferno. Parada obrigatória na barraca do Seu Obeni, o velhinho risonho de cabelos e avental brancos que faz uma poesia para cada doce, onde explica como eles são feitos. Com rimas. O brigadeiro dele sempre vem transbordando, com granulado e farofinha doce coabitando o mesmo espaço, contrariando todas as leis da física. Tem a turma dos rejeitados, também – doce de jaca, de abóbora, de figo. Vai por mim: até doce de jiló eu comeria se fosse do Seu Obeni.
Leitor do Guindaste que resolver seguir esse roteirinho vai ter que escrever depois uma redação caprichada com o tema "Meu feriado em São Paulo". Tem que entregar até segunda-feira e vale nota para o bimestre.

Aquele retangulinho verde ferve nos sábados ensolarados
Opus no. 6 para palavrões e outras barbaridades
Mozart (1756-1791) tinha uma tórrida correspondência com uma prima. O compositor austríaco era tão desbocado que escreveu uma obra chamada “Leck mir den Arsch fein Recht Schön Sauberque” – em bom português, algo como “Lamba meu Cu Até que ele Esteja Bem Limpo”. Brahms (1833-1897) aprendeu a tocar piano nos puteiros de Hamburgo, cidade portuária onde nasceu. Autor de “O Lago dos Cisnes”, Tchaikovsky (1840-1893) era gay e se matou para impedir um escândalo. Outro barra-pesada foi Carlo Gesualdo (1561-1613), que matou a mulher e o amante e deixou os corpos expostos.
Essas e outras baixarias do mundo erudito podem ser conferidas no curso de introdução à história da música clássica que Irineu Franco Perpetuo vai ministrar todas as quartas-feiras, a partir do dia 11, na Casa do Saber. Um dos maiores críticos de música erudita do país, o jornalista vai comentar CDs, DVDs e partituras de grandes compositores, sem deixar de lado o contexto social – e os detalhes picantes, claro – em que essas obras foram compostas. No curso, ele aborda o sacro e o profano na Antigüidade, trata dos caminhos barrocos que levaram à invenção da ópera, fala de dodecafônicos, líricos, Opus, contraltos, spallas e outros palavrões que não vou registrar porque estamos em horário nobre. Tudo isso explicado de maneira descontraída, simples e clara. Vai parecer papo de boteco, mas pode falar em qualquer sala de concerto que você não vai fazer feio. E ainda é capaz de alguém aplaudir.

Braille, audiolivros e outras balelas*
Este artigo surgiu em resposta a um texto que publiquei reproduzindo uma conversa com a responsável pelo setor de voluntariado de uma grande ONG para deficientes visuais. Entre os muitos comentários que recebi sobre o post, meu amigo Marlon me mandou, por e-mail, alguns pontos que poucas pessoas devem conhecer, principalmente se conviverem pouco com cegos, como é meu caso. Fiquei tão chocada com essa situação que desisti de esperar que uma ONG me chame (meu nome consta das listas de voluntários há mais de seis meses): vou gravar audiolivros por conta própria. Por isso, em breve, o Guindaste terá uma pequena audioteca. Eis o artigo do Marlon:

A oferta de livros em braille é ridícula se comparada à demanda. Livros atuais demoram para serem transcritos, o que nos coloca dois ou três anos atrás de quem pode ir a qualquer livraria, escolher um livro e ler alegremente. Clássicos da literatura estão relativamente disponíveis em braille nos grandes centros hurbanos brasileiros – literatura portuguesa e brasileira, claro, porque se você precisar de literatura inglesa ou francesa, terá de esperar muito até que tenham chegado ao Brasil.
Entre 1990 e 2000, o código braille brasileiro mudou sem nenhuma justificativa válida. Para quem não é cego, significa dizer que o sinal de adição não é mais uma cruzinha ou que a vírgula será grafada de outra forma. A maioria das obras em braille são de antes de 1990, escritas em qualquer coisa que, hoje, deixou de ser português para cegos. Crianças alfabetisadas depois dessa data não lêem o braille anterior porque ele foi conciderado obsoleto. Cegos mais antigos precisaram reaprender os sinais para ler textos atuais. Mestres e doutores deixaram de saber ler de um dia para o outro porque toda simbologia gramatical e matemática mudou, o que diminui ainda mais a já pequena oferta de livros existentes. Você consegue entender isso? Eu sou incapaz.
Até poucos anos atrás, não existia código braille para símbulos de informática. Me formei programador de computadores sem ter livros para estudar. Como meus pais eram pouco escolarizados, aprendi ouvindo tudo soletrado. Meus livros da escola técnica foram lidos assim: “// sinal de cardinal i-n-c-l-u-d-e espaço sinal de menor i-o-s-t-r-e-a-m sinal de maior”. Pense em como soaria alguém lendo os paços da resolução de uma equação de primeiro grau e você terá uma idéia do que estou falando.
Vamos à análise do post da Carol:
Já existe um programa de computador que lê para eles.
Sim, existe, mas para rodar esses programas é necessário ter um computador multimídia com um sistema operacional relativamente caro. Num paiz onde cegos pobres são maioria, um leitor de fita cassete ou de CD custa bem mais barato.
Eles já estão acostumados. E, também, acho pouco provável que Ensaio Sobre a Cegueira possa ser encontrado na íntegra na internet.
Não estamos acostumados porra nenhuma. Mesmo um software que leia telas precisa de pontuação para dar a intonação correta às frases. Se não ouver pontuação, como no caso do livro em questão, a coisa é lida em uma voz monocórdica e tira qualquer sentido do livro. Mesmo que ele seja encontrado na internet, não poderia ser lido.
Não precisamos de alguém que grave um audiolivro de Ensaio Sobre a Cegueira.
Ela pensou que Ensaio Sobre a Cegueira fosse um livro científico de patologia ou coisa parecida. Mesmo que fosse, cegos deveriam ter o direito de ler todos os tipos de livros. Afinal, não é a isso que se dá o nome de inclusão?
O diálogo que a Carol teve sobre os audiolivros foi real. Ele ocorreu pela mesma razão que mudaram os símbolos braille: muitas das pessoas que cuidam de deficiência no Brasil não entendem nada do assunto. Como o tema está "na moda", há quem queira "a glória" de ter resolvido o problema. Até que as pessoas que cuidam de inclusão e acessibilidade abram a cabeça e procurem fazer algo eficiente, continuaremos a disperdissar trabalho voluntário e a manter os cegos nas sombras da ignorância.
*Marlon Brandão de Sousa, 22, é técnico em processamento de dados, tem uma biblioteca particular com mais de 200 livros lidos e é candidato a um curso superior de jornalismo. Este texto mantém a ortografia original.
Cão-guia por um dia
Meu primeiro trabalho como cão-guia aconteceu cinco dias atrás. Tarefa: levar dois amigos cegos à Fnac da Paulista, tomar uma cervejinha e deixá-los no metrô. Como não tenho pedigree, minha memória malemá dá para dez endereços – coisa que um cachorro devidamente certificado armazena em minutos. Comparada a um labrador, minha única vantagem é que não tenho tremedeiras quando vejo um poste na frente. Ah, e também não corro atrás do meu rabo.
Achei que a Fnac da Paulista era uma boa por ser perto do metrô. Cinco minutos de caminhada pela calçada me fizeram mudar rapidinho de idéia. Para ser um bom cão-guia é preciso desviar de buracos, gente em pé, pontos de ônibus, gente sentada, bancas de jornal, gente andando, cadeiras na calçada, gente com bebê, passeando com cachorro, desviando de buracos, esperando ônibus, lendo jornal, comendo. Não estão brincando quando dizem que circulam duas milhões de pessoas por dia na mais paulista das avenidas.
No café da livraria, pedi o cardápio preparada para ler item por item. A garçonete saiu e voltou com uma lista telefônica. Era o cardápio em braille. Minha amiga precisou de poucos minutos de imersão naquelas páginas em branco cheias de pelotinhos para escolher o que queria. Olhei ao redor e um paredão de garçonetes curiosas nos observava. A noite prometia.
A caminho do metrô, vi uma loja com um painel iluminado. Era um azul muito intenso. Lembrei que meu amigo enxerga luz e manobrei o casal para o outro lado da rua. “Isso é azul!” Ele colocou as mãos na frente dos olhos. “É lindo, da cor do céu.” Eu estava emocionada de mostrar o que é uma cor para um cego. Ele virou o rosto, incomodado. “Ele é fotofóbico”, explicou minha amiga.
Deixei os dois no metrô. Nada de Biscrok para a Carol.









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