Meu dia de foca – I (A Coletiva)
– Você é um político ator ou um ator político?
Era o ápice do meu primeiro dia como jornalista e, perto do que já tinha acontecido, era a coisa menos preocupante que eu tinha cometido. Afinal, estava entrevistando o ator e então deputado estadual Kito Junqueira.
Quando cheguei à Câmara Municipal, gravador em punho e crachá do jornal, mal sabia o que me esperava – aos 17 anos, é até melhor que a gente não saiba. Tinha passado na faculdade, mas não tinha grana. Agarrei meus rabanetes imaginários à la Scarlett, em “E o Vento Levou...”, e prometi: “Nunca mais dependerei do dinheiro dos meus pais!”.
Os homens de preto me olharam. “Você é a mocinha do jornal?” Estufei o peito e falei que sim, orgulhosa. Um deles me olha de alto a baixo, entrelaça os dedos e me pergunta, então, o que é que eu queria saber.
– Eu vim para a coletiva.
– Não está havendo nenhuma coletiva.
– Não? Er, hum, onde eu encontro uma caixa de som?
Risadinhas abafadas.
– Para quê você quer uma caixa de som?
– É que me pediram para gravar a coletiva. Sabe, colocar o gravador em frente à caixa de som e voltar para a redação.
No saguão da Câmara, todos riram alto.
– É que hoje é meu primeiro dia de trabalho – respondi, meio desajeitada.
– Ora, ora!
– E eu sou cartunista, não repórter!
Pronto. Isso deveria deixar as coisas bem claras.
Depois de sonoras gargalhadas, um dos homens passou o braço pelos meus ombros.
– Devo estar em ótima conta em seu jornal, hein?
Era o próprio entrevistado, o tal deputado que tinha dado a entrevista coletiva que só não gravei porque cheguei cinco minutos atrasada.
– Mas não se preocupe – ele falou, paternal, enquanto íamos até o prédio da Prefeitura, em frente – eu anoto umas perguntas no papel e você me faz.

PS: Foca é o nome que se dá ao jornalista iniciante, ainda ingênuo e atrapalhado. Pense em qualquer grande jornalista e ele terá uma história de foca para contar. É uma pena que a espécie esteja em extinção também nas redações. O hábitat que um foca precisa para se desenvolver vem sendo degradado: hoje, com tanta gente se matando para ser mal-paga numa redação, jornalistas recém-formados têm medo de fazer qualquer bobagem que lembre uma foquice. A competição, no entanto, não é o único motivo para o fim dos focas. Sobraram poucos tutores para cuidar delas, profissionais que tinham vasta experiência na profissão, que conheciam a fundo a cultura local e que ensinavam, com paciência, o que a faculdade não ensinou. Com redações cada vez mais semelhantes a linhas de produção, o mínimo que seu patrão espera é que você se vire. Que vá para as ruas, mas não morra. Como disse Assis Chateaubriand a Joel Silveira, “repórter não é para morrer, é para mandar notícias”.
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Virge, digitei errado! Os cinéfilos vão me matar...
Pronto, estamos todos corrigidos.
tb tenho minhas trapalhadas da época de foca.. tanto q tínhamos na faculdade um telejornal chamado TV FOCA, foi onde eu comecei... mas a minha principal gafe foi numa matéria sobre os brasileiros na liga dos campeões do ano passado... no jogo entre milan e lyon, falei q no milan tinha SERGINHO, KAKÁ, CAFU, DIDA... saiu esse belo cacófato no ar, nem me liguei... do ca´fudida´... mas tudo bem passou... hehee
Trata-se de um Portal de Blogs, Gustavo. Agora tenho 20 bons vizinhos, daqueles de bater na porta para pedir açúcar emprestado e, depois, levar um pedaço de bolo! Todos com muito mais tempo de blogosfera, claro. Recomendo visitas diárias.
Podemos chamar isso de foquice?! hehe...
Inté!
Pelo jeito, a escala evolutiva faz focas virarem antas... Sorry.
Q bom q agora vc pode ter suas focas ao seu comando, pq vc naum é uma foca há mto tempo né??
Bjks
Eu evolui: agora sou uma lontra.
Nessas horas me dá uma saudade do Biondi e do Faerman, meus cabecinhas brancas preferidos...








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