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O pedido

São 22h30 quando peço uma média e um pão na chapa. A balconista me olha. Está aflita, posso sentir pela maneira como ela esfrega as mãos. Devem estar frias de tanto lavar copos, pratos, talheres. Seus grandes olhos me fitam, como se quem fosse fazer um pedido fosse ela, algo como “não queira padarias abertas na segunda-feira de Carnaval”. Arruma a redinha do cabelo.

– Por favor, eu quero um café e um pão na chapa.
Não tem mais jeito, ela não pode fingir que não ouviu. Falei olhando nos olhos. Ela não se move, parece olhar através de mim. Devo ter ficado transparente. Ela faz um movimento nervoso com a sobrancelha e, enfim, eu os vejo. São dois homens com roupas chapiscadas de tinta; um deles traz uma trena. O cheiro de massa de vidraceiro se mistura ao do café. Passam, pesados, pelo estreito corredor atrás de mim, ouço os passos arrastados, e somem por uma porta. A balconista vai até o chapeiro repassar meu pedido e, no caminho, desvia de uns fios esticados no chão.

Os dois homens voltam, agora, um deles tem um balde de tinta nas mãos. No chão, uma pegada branca marca o azulejo encerado. Um casal de clientes sai da fila do pão, a mulher está dizendo que é um absurdo, um absurdo, não podiam fechar a padaria? quando surge um homem com uma britadeira na mão. Puxa um fio de dentro da cozinha e se posiciona entre a balconista e o chapeiro. As pessoas apoiadas no balcão se olham trocando censuras silenciosas. E, então, o barulho começa. Mais três pessoas se levantam, praguejando. Uma garotinha começa a gritar. Os pais acodem, a mãe tampa os ouvidos num gesto teatral, saem também.

Na fila, acumulam-se impropérios. Penso que estou em pesadelo alheio, só pode ser, quando noto que no meio de toda aquela balbúrdia, a britadeira, meu pão que chega, a gritaria, onde já se viu fazer reforma com clientes dentro da padaria, o cheiro de café e rejunte fresco, não podiam ter fechado no Carnaval?, a menininha que chora, no meio de toda essa confusão, a balconista e o pedreiro baixam os olhos, juntos. Num gesto cansado, ela passa o pano no balcão e recolhe as migalhas na palma da mão.

pao


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Uma boa média que não seja requentada....

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Comentário de: Márcia Email
Quem bom que em seu pão não veio nenhum recheio de "massa corrida" e seu café não veio adoçado com pó de parede. Gosto da maneira como você escreve.

Visite nossa cozinha!
PermalinkPermalink 20.02.07 @ 12:38


Comentário de: SuaDona Email
Casa nova, então?

Que padeca surreal. Coisas de carnaval. :)

Casa nova graças a você, minha desenhadora de blogs!
PermalinkPermalink 20.02.07 @ 19:55


Comentário de: Sandra Raiher Email
Bonitona! Que tal passar algumas horas (ops, melhor minutos)em meio a uma reforma dentro de um hospital? Você iria se deliciar com o farto material para textos, enquanto a empreiteira agoniza, posso dizer: mais que os pacientes!

Nossa, dá pra fazer um filme de terror!
PermalinkPermalink 21.02.07 @ 10:10


Comentário de: omesmo Email
Dá para imaginar a confusão nas reformas internas das pessoas...

Ainda mais quando elas estão em momento "fechado para balanço"
PermalinkPermalink 21.02.07 @ 15:31


Comentário de: Lilica Email
Ê vida dura...
E essa coisa de reforma mais tá parecendo o seu blog!
Ainda bem q a gente naum ouviu o barulho da furadeira, nem sentiu o cheiro de tinta...e ficou tudp tão lindoooooo

Arrumei um quarto de hóspede para receber minha visita mais freqüente!
PermalinkPermalink 22.02.07 @ 19:33


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