Prato de mãe
– Eu queria o livro de receitas da mamãe.
– O Dona Benta?
– É.
– Ah, é, saiu uma edição nova.
– Eu queria o da mamãe.
– O da mamãe? O velho?
– É.
– Mas se tem um novo... Já sei, é caro.
– Não faço idéia.
– Se não for carão eu compro para você.
– Eu quero o da mamãe.
– Mas, Cá, o da mamãe é velho! Tá usado, meio sujo. Coisas caíram nele.
– Eu quero o dela. Mesmo com as coisas.
– Tem farinha, tem página suja de manteiga... A essa altura, deve ter uma colônia inteira de fungos na receita de Morango Tricolor.
– Eu quero os fungos também.
– Credo, Cá, como você ficou nojenta! Eu não como mais na sua casa.
– Nem eu.
– ?
– Eu quero a comida da mamãe e não tem. Eu vou ao supermercado e compro um monte daquelas frutas e legumes lindos. Eles lustram as maçãs! Meu carrinho parece de comercial de margarina.
– Pérai, mas não eram frutas?
– Ai, caramba, que sejam! Enfim, compro muita mandioquinha. Mandioquinha é a cara da mamãe.
– Acho que é mais batata. Todo dia ela faz batata. Frita, cozida, com manteiga, assada...
– Não, mamãe é uma mandioquinha. Eu comprei um monte de mandioquinha para fazer purê. Fiz um arroz caprichadinho, piquei a cebola igual a mamãe.
– Invisível.
– Invisível. Refoguei carne para rechear o pimentão, lavei um pé de alface bem verdinho e coloquei tudo em vasilhinhas. Ficou lindo. Aí, eu deixei para o jantar, porque belisquei enquanto cozinhava e minha fome tinha ido pro saco. Uma amiga ligou e fomos comer fora. Ficou para o dia seguinte, mas eu almocei no trabalho e cheguei tão cansada em casa que fui dormir sem jantar. No outro dia, teve uma reunião...
– A comida estragou?
– Estragou. Eu abri a geladeira, olhei aquele alface murcho... Tanta gente passando fome, deu vergonha. Fiquei tão triste... Quase chorei, ali, olhando pro alface.
– Era orgânico?
– O que?
– O alface. Era hidropônico?
– Que diferença isso faz?
– Hidropônico dá mais dó. O cara sua para fazer um alface lindo, sem agrotóxicos, sem estragar a camada de ozônio nem derreter as calotas polares e o escambau.
– Acho que era.
– Xííí...

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Com açúcar e com afeto*
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Não é de estragar que eu tenho medo. É de ficar sem.
Acho que não conseguiria encarar uma geladeira cheia de comida pré-pronta, Emilio...mas que foi triste esquecer a comida na geladeira, isso foi...
Tudo bem? Não sei se lembra de mim. Eu fazia uns quadrinhos online e trocávamos idéias de vez enquando. Queria te divulgar minha HQ nova. 2011 estarei na ativa produzindo hqs semanalmente. ADoraria tua visita.
Obrigado,
Gus
Lembro sim, Gus, claro! Vou lá tomar um café cocê!
õ.Ô
Cheiro no olho!!
Já mesmo, Dã. Tirei por uns tempos porque ele estava concorrendo a um prêmio, mas como não rolou, botei de volta no blog.
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