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Série Gatos – I (Grafite)

Dr. Tarcísio Aranha pegou a cara do Grafite entre as mãos e olhou fixamente nos olhos cinzas. O gato tentou se desvencilhar.
– Já saquei qual é a sua, rapazinho! Você é um comedor de carne!
Aquilo significava o fim da farra gastronômica do meu gato. Depois de seis meses se fartando da carne crua moída jogada pelas gateiras de plantão, agora, ele teria que comer ração. Ele odiou, claro.

Acontece que carne crua é rica em fósforo e pobre em cálcio. Para um gatinho de rua, é uma espécie de McLanche Feliz sem brinquedinho: parece divertido, mas engorda e não alimenta. O organismo, então, responde com trapaça e rouba o cálcio de todos os ossos para proteger o crânio. O gato fica cabeçudo, mas o corpo continua mirrado. A coluna dele parecia uma cadeia montanhosa vista no raio-x. Ele estava tão prejudicado pela deficiência de nutrientes que não conseguia pular do sofá; tinha que descer de bunda, igual criança pequena. Foi esse Gremmlin que eu levei para casa, nove anos atrás.

Foram seis meses infernais de tratamento. Cinco minutos antes de tomar remédio, Grafite se desintegrava. Sumia. Cada dia escolhia um esconderijo melhor: embaixo da máquina de lavar, atrás da TV, em cima do paneleiro, dentro da gaveta de meias, no meio dos vestidos de festa. Aquela história de como dar comprimido a um gato é piada perto da real dificuldade de administrar remédio ao mocinho. Metade da cartela servia só para cansá-lo: eu colocava na língua dele, ele cuspia, eu colocava na língua e segurava, ele esperava e cuspia. Foi um tormento.

Depois de tomar tanto cálcio, ele virou um gato tamanho GG. A ginástica de medicá-lo acabou nos aproximando ainda mais. Ele não admite, lógico. Sempre que eu o pego no colo e sussurro palavras doces em seu ouvido, ele abaixa as orelhas, contrariado, e pula. Poesia não é com ele.

Grafite dormindo acordado dentro de um túnel de tecido laranja
Grafite em sono quase profundo



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Comentário de: karina Email
Não sei o que é mais fofo. O texto ou o gato! Pena que mexeu com meu ponto fraco: a saudade da minha siamesa Sindy, que também ficou dodói quando era bebê... Humpf!

Ah, com certeza o gato: aliás, cada vez mais fofo.
PermalinkPermalink 24.01.07 @ 09:36


Comentário de: Camila Email · http://www.mulheresveneno.blogspot.com
Adorei seu gato... e seu texto sobre ele. E olha que eu nem sou muito amoga dos felinos.... bjos

É porque você não conhece o Oto. Ele tem um fã clube só de gente que não gosta de gatos!
PermalinkPermalink 24.01.07 @ 11:19


Comentário de: maiko Email · http://porumpratodecomida.zip.net
Se tem um gato que é cria sua, absolutamente sua, este é o Grafite.

Ele é meu bebê!
PermalinkPermalink 24.01.07 @ 14:48


Comentário de: Carol Costa Email · http://www.angelsjc.flogbrasil.com.br
uhauhauha nao falei q era como crianças....igualzinho pra tomar remédio.....!!! beijo querida!

É bem pior que criança: bebês pelo menos aprendem, gatos, nunca!
PermalinkPermalink 24.01.07 @ 16:54


Comentário de: lilica Email
Para continuar sendo a comentadora oficial, qdo surge series, é inevitável fazer a trilha sonora.. então lá vai: "Nós, gatos, já nascemos pobres Porém, já nascemos livres Senhor, senhora ou senhorio Felino, não reconhecerás "

Não precisa de trilha sonora! Não precisa de trilha sonora!
PermalinkPermalink 30.01.07 @ 02:23


Comentário de: Antonio Frederico Adamy Email
Gostaria muito que alguem me mandasse a historia de como dar comprimidos para gatos, eu tinha e não consigo localizar. Acho uma das melhores piadas ja feitas de gatos. Obrigado.

Moleza, Antonio, aqui vai.
PermalinkPermalink 18.06.08 @ 21:04


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