Em companhia de sombras
Se você preza seu sono, assista a “O Labirinto do Fauno”, de Guillermo del Toro, numa matinê. Agora, se o seu problema é estômago fraco, passe longe das salas de cinema nas próximas semanas. Mesmo pessoas céticas e de sangue frio como eu levam dias para voltar a dormir sem seu golfinho de pelúcia.
O filme seria quase completamente horripilante não fosse o fato de alguém o ter comparado a uma fábula, o que nos leva a crer que o bem tem de vencer o mal em algum momento – mesmo que isso aconteça nos minutos finais, que seja só um pouquinho e que dependa da força de espírito da platéia.
Para quem espera uma versão adulta de Chapeuzinho Vermelho, pode esquecer. O capitão Vidal (Sérgi López) comeria o churrasco do Lobo Mau e ainda palitaria os dentes com a Vovozinha. Tente lembrar qualquer vilão de fábulas – Sauron, de “O Senhor dos Anéis”, Jádis, a Feiticeira Branca de “As Crônicas de Nárnia”, até mesmo Aquele-que-Não-Deve-ser-Nomeado, de “Harry Potter” –, nenhum deles é tão cruel e sádico quanto esse capitão lutando contra os rebeldes que restaram da Guerra Civil Espanhola (1943).
O mais assustador é que as criaturas mágicas, que deveriam amenizar as coisas pro lado da Ofélia (a excelente Ivana Baquero), são tão terríveis e horrorosas quanto os vilões. Com pernas de bode, garras de pássaro e chifres de Belzebu, o tal Fauno é exigente, temperamental e meio melequento. A Mandrágora – uma das figuras mágicas “do bem”– parece um pedaço de nabo tendo um ataque histérico. A coisa vai tão mal que até dá para chamar de “fadas” os bichos-pau, aqueles gafanhotões com cara de graveto que, na maior parte dos filmes, aparecem ao lado de monstrengos e zumbis.
Não bastasse essa incrível trupe de, digamos, amigos, Ofélia tem de enfrentar três desafios dificílimos para provar que é a princesa de um sombrio reino subterrâneo, que fica escondido no meio da floresta e que ela nunca viu. E o Fauno ainda fica miguelando essa mixaria, exigindo mil coisas, parece grávida com desejo. Uma hora, quer uma chave que está na goela de um sapão nojento, depois, quer que a menina, faminta, passe incólume por uma mesa farta só para pegar uma faquinha de nada. E que mau-humor, virge!
Moral da história: uvas dão uma baita indigestão.

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Ô, dó!
O pior é que amei o filme... Mas que deu um baita medão, ah, isso deu!
Não coloca o horrível do E.T. na história! Ninguém me convence de que ele é bonzinho!








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