O que é isso, companheira?
Há muito tempo que manter meus cabelos crespos deixou de ser uma escolha estética. Isso foi antes de nove em cada dez mulheres alisarem o cabelo - e a décima simplesmente raspar as madeixas para não ser obrigada a viver com os ondulados. Enquanto a moda insiste em propagar que liso e loiro é um must, eu permaneço na resistência. Ideologicamente ruiva e encaracolada.
O problema é que a vida na oposição é uma luta constante. De manhã, perco uma meia hora só para convencer a militância a se desarmar. É um trabalho duro, que exige tempo, paciência e muito, muito condicionador.
Ao menor sinal de chuva, os companheiros se ouriçam todos e dá-lhe grampo para abafar uma crise de proporções capilares. Se bate um ventinho, rola uma trairagem no lado esquerdo - sempre ele - e fico parecendo aquelas montagens de make-up, com antes e depois. Com destaque para o antes, claro.
Como toda oposição, chega uma hora em que me pego olhando com certa inveja para um desses cabelos lisérrimos. Cansa tanto manter os cachos que dá mesmo vontade de marcar um alisamento permanente e acordar com cara de quem acabou de se pentear. Só de pensar nisso, a militância fica revoltada. E, para meu desespero, ameaça se armar.

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Nem pensar! Como vou encarnar a Cheetara de cabelo curtinho?
Será que eles dão desconto se eu comprar um balde de creme?
Preciso ter uma séria conversa com o seu cabeleireiro...
Isso dá toda uma motivação ideológica para se fazer chapinha, hein?
Mas partilho de sua angústia diária porque meu cabelo também é assim: enrolador, sempre de armação, inclinado à dispersão. E Floripa é um lugar muito úmido. E homem não pode recorrer a grampos (não pode, é regra), embora possa se fazer de neandertal.
Michel, vou fazer uma etiquetinha com esse "cabelo crespo é o tipo mais bonito" e grudar no espelho do banheiro. Para me inspirar logo cedo, quando o maldito estiver armando uma revolta pra cima de mim. E, ah, homens podem passar condicionador ou isso fere demais a masculinidade?
Oba!
Kit macho básico, hein?
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