Carolinaaaaa!
Foi muito esquisito, por isso, demorei para perceber. Eu andava num lugar escuro e cheio de névoa, mais para um desses inferninhos da rua Augusta do que para uma floresta sob o luar. Ouvi alguém me chamando. Gelei. Era um grito sentido, como se eu tivesse feito um mal doloroso e contínuo para o pobre coitado. Algo como jogá-lo da janela do quinto andar e depois quebrar o que sobrou com uma torquesa.
No segundo berro, acordei. Fiquei quietinha na cama, apalpando aquele breu total do quarto. Foi quando ele gritou de novo. Me senti uma daquelas pessoas que têm seus sonhos invadidos por um barulho incômodo e, quando vão ver, o despertador está tocando há quinze minutos.
Depois de ter a certeza de que não estava vivendo o pesadelo de ter um sonho dentro de outro, levantei. Lá na rua, num porre fenomenal, um rapaz se esforçava para ficar em pé enquanto berrava Carolinaaaaa para o prédio inteiro ouvir. Nunca tinha visto aquele cara na vida. Nem em sonhos.
Interfonei para a portaria e fui informada de que: a) sou a única Carol do prédio, b) tinha mesmo um rapaz aos berros lá embaixo, c) eram, sim, quatro da manhã e d) eu não estava sonhando. Em dez minutos, o cara tinha sumido. Bizarro.
No dia seguinte, depois de ser alvo de olhos cheios de olheiras e suspeitas, mudei de estratégia. Já que estava sendo julgada por crime alheio, então, ira pecar mesmo. “Aquele canalha me traiu com minha melhor amiga!” Ganhei pedaços de bolo por uma semana de uma vizinhança tomada de culpa – e uma pontinha de orgulho.

Posts similares:
Galináceos - 1
Por que coisas estranhas me amam?
Como fraudar sonhos
(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes e são publicados aqui automaticamente sem intermédio de um censor ou editor. O autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)
Ficar aprisionada na cama? Nada mal, hein?
Ahhhh, Mister M...
Ou então ele resolveu fazer uma serenata etílica no prédio errado.
O que tenho a dizer em minha defesa é que, definitivamente, não foi lindo, não.








RSS feed