Letras no asfalto
“Que absurdo fazer isso com um presidente”, dispara Francisco Augusto da Silva. Rádio ligado em uma emissora de notícias, ele ouve dizer que se Lula fosse submetido a uma avaliação escolar, não seria aprovado. “Ele é um homem culto, não fez faculdade, mas fez vários cursos pelo país”, defende.
A peruca preta de fios sintéticos dificulta estimar a idade de Silva. Talvez uns 55 anos, “30 deles na indústria automobilística”, me adianta. Volto para o Calvino que carrego comigo, releio o trecho de um conto em que o personagem Marcovaldo sonha em passar uma noite dormindo no banco de uma praça. “Marcovaldo tornou a olhar a lua, depois foi observar um semáforo que ficava um pouco mais adiante. Brilhava, amarelo, amarelo, amarelo, continuando a acender e reacender.”
Gosto de gente. Conversar com taxistas é minha especialidade, mas também dedico bons minutos para falar com ascensoristas, zeladores, motoboys, contínuos, porteiros, balconistas. Dei um curso em um colégio e, no último dia, os alunos vieram me perguntar se era meu namorado aquele homem que assistia às aulas no fundo da classe. Era o taxista com quem eu tinha fechado um pacote de corridas.
Do banco de passageiro já conversei com taxistas que foram professores, bancários, metalúrgicos, vendedores, corretores de seguro. Há muitos ex-torneiros mecânicos, como o presidente Lula um dia foi. Há um tipo de sotaque caipira que me atende pelo rádio-táxi – foi peão, trabalhou com gado, levou um tombo de cavalo, “fiquei morto por três dias”, internado com fraturas múltiplas. “Aqui, ó”, ele pega a minha mão e a coloca em seu tornozelo, “tem um pino até hoje”. Com outro taxista, uma vez, paguei uma corrida com umas moedas e, surpresa, o vi joga-las no carpete debaixo dos pedais do carro. Olhei e outras tantas moedinhas reluziam, o troco de um dia inteiro de corridas. “Tem que pisar nelas para trazer mais dinheiro”, sentenciou.
O Marcovaldo de Ítalo Calvino trabalha oito horas como carregador, mas acha tempo para olhar pássaros, cogumelos num ponto de bonde, mofo nas bancas de jornal. Francisco Augusto da Silva, taxista, não tem horário fixo e seus olhos já se acostumaram a olhar do retrovisor para o semáforo, do semáforo para a calçada, em busca de um passageiro. Para ler, sempre acha tempo.
“Quando me aposentaram, estava no auge do meu conhecimento”, diz Silva, solene. Fez curso de tecnologia na Fatec, gosta de livros “mais do que muito jovem por aí”. Oshimi, Mao Tse Tung, Drácula, Che Guevara, Silva lê de tudo. Tem pressa, passa no sinal vermelho para me deixar em uma esquina. Pergunto qual seu autor preferido, mas ele está atento ao colega de profissão que manobra para estacionar. Silva o ultrapassa, estaciona. Eu pago a corrida e antes que ele bata a porta ouço um “Sidney Sheldon é muito bom” e me perco entre o cinza dos passantes nessa manhã fria.
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Divã em banco de táxi pode dar dinheiro! A terapeuta fica no banco do passageiro e, no banco de trás, vai o paciente.








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