Mostra pessoal de cinema
Num picadeiro submerso, eu me equilibrava no cavalo gigante com manchas pretas, tendo como trilha sonora os berros do meu professor: "Anda logo! Pula!". Não sou boa em saltos ornamentais, mas sou uma maravilha em vôos sonhados, então, mandei ver. Quando cheguei ao chão, o cavalo-elefante-dálmata botou um ovo azul enorme. Cheio de pintinhas. Como sempre tenho que fazer besteira até em sonho, derrubei o tal ovo. Sob uma chuva de fogos de artifício, saiu de dentro dele um peixinho dourado do tamanho de um beagle.
A única explicação para tudo isso é David Lynch. Ao que parece, ele tem dupla jornada de trabalho: de dia, em Hollywood, à noite, no meu cérebro. Fico a madrugada toda gastando neurônios para ter esses sonhos sem pé nem cabeça e, pela manhã, sou obrigada a passar as primeiras horas tentando ver se alguma coisa faz sentido. O pior é que lembro de, no mínimo, um sonho por noite – e quando são dois ou três, eles se misturam tanto que minha cabeça vira Buñuel.
Apesar de nunca ter entrado num convento, sonho que estou passando por corredores cheios de portas e vitrais, naquele silêncio cerimonioso que só as igrejas sabem impor. Outra vez, vi uma mulher com dois rabos de peixe e nenhum mamilo sair do meio do rio e esticar a mão para mim. Já entrei no mar, de roupa e com um baita frio, só para pegar um balão vermelho. Nesse, fui dirigida por Jafar Panahi.
Às vezes, o tal recado do inconsciente é do tipo "acorda logo, sua besta!". Foi o que aconteceu quando tinha sete anos. Fui entregar o caderno de caligrafia para a professora. Minhas páginas cheias de a-a-a-a-a ficaram molhadas. Do teto, caíam uns pinguinhos, que foram aumentando até virar goteira, inundação, enxurrada. Se fosse hoje, teria achado graça no que Lynch me aprontou: a água era amarela, amarelinha. Só podia ser mais um daqueles detalhes para me confundir. Não era. Acordei com a cama toda mijada.

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É que você ainda não viu o David Lynch no original...









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