Pimenta nelas
Meu avô tinha encontrado num galpão um gatinho cego, torto, manco e feio que nem cão chupando manga. Ficou enternecido. Levou o Gremlin para casa e, em poucas semanas, descobriu que não era ele, era ela. Elas, para ser mais precisa: o Coisa-Ruim estava prenha. Tudo fêmea.
Começava aí a saga Dona Hortência versus Gatos no Cio. Minha avó acolheu todos os filhotes do Cruz-Credo e logo soubemos que há mais gato no mundo que baratas. A cada três meses, ninguém no quarteirão ouvia outra coisa que não o flerte da gataria.
O namoro começava tarde da noite, respeitando os padrões de programação para crianças. Meia-noite, sob o luar, à beira da piscina, o cenário propício para suscitar as mais ardentes paixões. As fêmeas – a essa altura já eram seis gatas loucas de desejo – se esfregavam no chão, oferecidas. Em pouco tempo, a macheza da região comparecia, um gatão maior que o outro. Aí, começava a cantoria.
Exausta de perder todas as noites com a prole que só fazia aumentar, Dona Hortência resolveu dar um basta ao Animal Planet caseiro. Quando chegava o cio, molhava o cangote das meninas com pimenta malagueta. Além de disputar as fêmeas entre si, os pobres machos agora tinham que se preocupar com o tempero.
Não adiantou nada. Meu último censo felino dava conta de 34 espécimes, das mais variadas cores e idades. Dona Hortência cometeu o erro dos amantes apressados. Confiar em tabelinha dá nisso.

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É o anticoncepcional mais furado que já vi na vida.








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