28 de Junho de 2009
Carta a um adotante
Você viu a foto do Ronaldo e deu um suspiro, "puxa, ele seria perfeito para minha casa". Aí, leu sobre o pisão do cavalo e a outra vida que ele perdeu e me escreveu pedindo mais informações. E eu, que não li seu e-mail, recomendo: não adote o Ronaldo.
É isso mesmo. Você não está preparado para ele. Não agora, que sua casa está do jeito que sempre sonhou, com os móveis garimpados pouco a pouco e as estantes decoradas por bibelôs de viagem. Tudo o que você não precisa é de um gato adolescente, de pernas longas, rabo inquieto e bigodes curiosos, metendo-se em tudo que é vão de móvel, caixa aberta e fresta de porta.
Não, ninguém merece abrir a porta para pegar o jornal e ter de buscar seu pet dois andares abaixo, enchendo o roupão de pêlos enquanto a criatura possuída protesta para descer. Aliás, você não vai querer encontrar pêlos em suas roupas, nem um fio desavisado apontando na borda da xícara de leite. Nem tomar o café da manhã com unhas cutucando sua coxa insistentemente, até que se pegue o demônio no colo. Falaí, comer com um gato amassando pão no seu colo é horrível. Quem precisa passar por isso todas as manhãs?
E o que dizer de ver TV? Porque bastará você se sentar no sofá para a peste subir na mesinha de centro e desfilar com o rabo em pé, na frente das legendas. Já vou dizendo: não vai adiantar nada tirar o gato da mesinha. Porque ele vai escalar o aparador, subir no seu toca-discos que é relíquia de família, pular no aparelho de som e de lá, para a TV, onde um rabo repentinamente aparecerá sobre a tela. Não, é melhor não adotar o Ronaldo.
Se ele fosse um bom gato, tudo bem. Mas que bicho de boa índole já teria gasto duas vidas em apenas cinco meses? Está claro que ele exigirá grandes esforços para não ir parar debaixo de um carro, do outro lado do muro ou em cima da árvore do vizinho. Sem falar que ele necessita de três amassadas bem dadas por dia, com cafunés no pescoço e aquecimento total de orelhas — gasta-se mais de quinze minutos só para esquentar aquelas orelhas!
Ninguém suporta uma praga bulindo com suas pernas, passando o focinho úmido nos tornozelos e dando uma lambida, língua de lixa, no vão recém-descoberto entre os sapatos e a calça. Você vai acabar tropeçando nele quando se virar bruscamente. E terá de desviar para não tropeçar de novo na próxima virada. Porque ele o seguirá como sombra: estará à porta quando você chegar podre do trabalho ou se levantar ainda sonolento para mais um dia cheio. E não lhe receberá com festinhas, porque isso é coisa de cão, e você, justo você, se interessou por um gato.
Quando estiver triste e quiser abraçá-lo, será rechaçado. E ficará sentado no chão, chorando baixinho porque nem seu bicho de estimação quis saber de suas lamúrias. Ele lhe ignorará quando você buscar sua companhia e lhe dará as costas quando chamá-lo pelo nome. Só se aproximará quando tiver vontade e escolherá a parte mais desconfortável para deitar, sobre seus joelhos, quiçá em cima de um estômago cheio. Você tentará mudar de posição, mas, num golpe baixo, ele ronronará e se espreguiçará, as costas em arco, para depois recolher lentamente a cauda e voltar ao sono. Já imaginou passar uma hora com um gato quente, pesado e ronronante sobre sua barriga? Posso atestar, é insuportável.
Então, pense bem. Não adote o Ronaldo. Depois que você se apaixonar será muito mais difícil mudar de ideia.

Escrito por Carol Costa às 12:42:45 18 Comentários

25 de Junho de 2009
Entre penas
A lógica das maritacas é a seguinte: não importa quantos quilos de sementes de girassol você ponha, nem em quantas vasilhas divida, tampouco quantas vezes por semana você reabasteça os potinhos, elas pousarão todas ao mesmo tempo, no mesmo prato e com a mesma fome. E disputarão o mesmo naco de semente, como se a vasilha não estivesse cheia até a borda. E passarão mais tempo perseguindo-se umas às outras para manter o monopólio das sementes do que comendo. É batata.
Rolinhas são regidas por outra lógica, a de que sempre cabe mais um. É por isso que minha varanda ostenta uma população alada crescente, ciscando irritadas com a colega, tão recém-chegada quanto elas. Quando o plantel de rolinhas atinge sua capacidade máxima, as brigas ganham performances aéreas, com rasantes estabanados sobre o comedouro, esparramando alpiste e painço no chão. Então, é como se tudo voltasse ao início, e é só uma meia dúzia de rolinhas ciscando no chão e a rainha delas pousada no comedouro, zelando para não perder o trono.
A filosofia dos beija-flores é a do comigo-ninguém-pode. A despeito de seu tamanho, eles fazem correr até os sabiás que se atrevem a chegar perto demais do bebedouro. Se houver um único bebedouro, é dele. Se forem dois, distantes até uns cinco metros entre si, os dois são dele — e ai do passarinho que questionar a hegemonia beijafloral. E se forem três bebedouros, bem, se forem três ele permite que outro beija-flor se arrisque sob seus domínios. Mas só porque é um império de um pássaro só. Tivesse soldados e eu testemunharia um massacre de penas.
Categoria: Animais, Meio Ambiente, Rede EcoblogsEscrito por Carol Costa às 10:43:28 6 Comentários

10 de Junho de 2009
O aspirador de pó
O trator da limpeza de 1,50 m irrompe no escritório rumo à varanda, com balde, vassoura, rodo, pano, escovão, aspirador de pó e... Êpa, aspirador de pó? Fui pé ante pé ver o que a Val estava aprontando quando a flagro, bravíssima, em cima do bebedouro dos passarinhos, dando golpes no ar com a mangueira do aspirador de pó.
– Val?
– ...
– Val! Vaaaaaal!!!
– Chamou, Carol?
– Deeeesliiiiga o aspiradoooor, Vaaaaal!
– Ah, é!
– Val, o que raios você está fazendo com o aspirador, mulher?
– Chupando as abelhas, Carol.
– !
– Você não disse que o beija-flor morre se for picado por abelha? Tô vendo o bichim na maior agonia, voando aqui e ali, mas ele não consegue chegar perto do bebedor porque tá com abelha.
– Val, não vá me dizer que você está chupando as abelhas com o aspirador de pó...
– Ah, tô sim, e já faço isso desde a semana passada. Não reparou que as abelhas deram uma sumida?
Escrito por Carol Costa às 14:37:22 11 Comentários

21 de Maio de 2009
Aqui tem um bando de louco
Tentei chamá-lo de Google. É que depois de 15 dias em minha casa, ele achou várias tralhas que eu dava por perdidas: três grampos, dois clipes, um botão que caiu de uma camisa querida e um elastiquinho de cabelo que quase virou lanchinho. Embaixo do sofá, atrás da geladeira, na lateral do fogão – não tem um vão que já não tenha sido visitado pela fera da pata engessada.
Quando ele sumiu, arrisquei o nome novo. "Google? Google? Gúúúúúúgol!" Silêncio. "Ai, Ronaldo, cadê você? Não some que eu fico preocupada..." Debaixo do armário da cozinha, desponta a criaturinha que é só pernas (uma com tala), rabo e olhos, os bigodes cheios de poeira. "Tá bom, Rô, não mudo mais seu nome." Ele vem se enroscar entre as minhas pernas.

E eu ainda tenho que me segurar para não me apaixonar pelo gatinho que precisa, urgentemente, de um novo lar... Quem se habilita a treinar o craque? Entrego vacinado, vermifugado, castrado – e com torcida fiel.
Escrito por Carol Costa às 17:43:12 15 Comentários

14 de Maio de 2009
Gente estranha
Não é que eu seja pararraio de gente estranha, mas foi só pisar na doceria para dois garotos trocarem risadinhas. Chequei meu reflexo na vitrine para ver se o vento não tinha me deixado com o topete da Amy Winehouse. Nada. Respirei fundo e pedi meu brigadeiro com morango.
As pessoas sentem um misto de pena e desdém por quem almoça sozinho. Já estou acostumada a ser vista como alguém que só pode ser insuportável, carente ou uma chata de galocha para não ter nenhuma companhia durante as refeições. Mesmo assim, adoro comer sozinha. Faço isso sempre que ando sem inspiração para escrever. É meu segredinho para ter ideias de textos.
Fui para o caixa e um rapaz em outra mesa ficou me olhando. Eu devia estar com alface no dente. Ou aquelas rodelonas monstras de suor. Vai ver, esqueci o zíper da blusa aberto – como já aconteceu e só descobri ao ser avisada pelo porteiro, saindo de casa.
O que podia ser tão chamativo que faria as pessoas me olharem estranho? Feijão no dente? Meleca de nariz? Calça branca manchada de vermelho? Molho de tomate na camisa?
O rapaz levantou e foi direto para o caixa. Já estava saindo quando ele me segurou pelo braço, me encarou e disse: "Você acredita em amor à primeira vista?".
Ah, sim, claro. Eu sou mesmo pararraio de gente estranha.
Categoria: Comportamento, Egotrip, HumorEscrito por Carol Costa às 15:08:07 20 Comentários





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