EXPRESSÕES POPULARES: UM IMPASSE PARA OS LINGUISTAS
24/01/2012
EXPRESSÕES POPULARES: UM IMPASSE PARA OS LINGUISTAS

Entre os estudiosos da Língua Portuguesa, há o famoso embate entre gramática normativa e a linguística moderna. A primeira determina regras, a segunda permite o que serve para comunicar, independentemente da estrita correção da norma. É um resumo tosco, mas foi o que deu neste parágrafo.
Esses linguistas, em sua maioria, são também militantes ligados a ideologias, e isso não depõe contra nem a favor, mas é um dado interessante se visto sob outra perspectiva. Acompanhem.
Pelo pensamento da linguística, não há correto ou incorreto, e a coisa descamba até mesmo para a luta de classes. Ocorre que o “povo” (palavra usualmente empregada para designar pessoas em situação hipossuficiente) não fala apenas “nóis fumo” em vez de “nós fomos” ou “a gente vamos” em vez de “a gente vai” etc.
Esse “povo” também fala “preto”, em vez de “afrodescendente”; “bichona”, em vez de “homossexual”; “dois baitola” em vez “casal homoafetivo”; “burguês safado”, em vez de “possuidor de condições financeiras adequadas a gastos exorbitantes”. Enfim, vocês pegaram o ponto.
E adianto a resposta óbvia: SEI que o papel da linguística é tratar da comunicação, não ENDOSSA expressões discriminatórias ou preconceituosas e, em tese, não há contradição teórica. Em tese, sim. Teórica, talvez. Ou melhor: há sim contradição.
Explico.
A única óbvia maneira do “povo” (é, eu sei...) ADOTAR e COMPREENDER as expressões politicamente corretas é por meio da instrução, e especificamente a gramatical, a da Língua Portuguesa. Sim, a conscientização social é importante, mas sem aprender o “português do ginásio” ninguém formula ou mesmo adota algo como “ítalo-americano” – vai de “carcamano”, que é mais fácil.
Não digo aqui que sou a favor ou contrário às expressões de correção política, mas sei que os linguistas modernos (na maioria) o são. E também são contra a adoção de “certo” e “errado” para a gramática, tornando assim desnecessária a instrução do “povo” quanto às normas da língua.
Na minha opinião, aprender a norma culta é importantíssimo, porque não se trata apenas do “povo” como “inventalínguas” (*), mas do “povo” como um grupo que merece e PRECISA ter acesso a essa língua inventada e aprimorada por seus ancestrais – e também regulada por normas estabelecidas por eles próprios. É o mesmo raciocínio que nos leva a ensinar uma criança a falar “água” em vez de “ága” e assim por diante.
Taí o impasse: sem aprender, não há como compreender ou construir uma linguagem nos termos sociais que agradam curiosamente aos que não defendem o aprendizado estrito da norma. O “nóis vai” é primo-irmão do “baiano vagabundo”.
Saiam dessa, agora.
(*) – expressão de Haroldo de Campos, em “Galáxias”.
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transubstanciado por gravata às 24.01.12 | 15 comentários
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Comentários:
"E também são contra a adoção de “certo” e “errado” para a gramática, tornando assim desnecessária a instrução do “povo” quanto às normas da língua."
Talvez seja ignorância minha, mas, no pouco que eu li dos linguistas, não encontrei essa afirmação de que a instrução do povo seja desnecessária. Seria como dizer que o ensino da língua inglesa fosse abolido das escolas. Todo brasileiro é fluente em sua língua materna, que não é a gramática normativa nem a língua inglesa. Assim como não é necessário rotular a língua portuguesa como "errada" para se entender e justificar o ensino do inglês, também não é necessário fazer isso com as variantes populares do português para se ensinar gramática normativa. Idioma é parte fundamental da nossa identidade (e aqui estou falando de mim, que cresci em um lar em que todos falam "pegar os peixe").
O problema de você rotular uma variante da língua como "errada" é a implicação de que essa variante precisa ser abolida ou extinta, por ser maléfica em algum sentido. Nunca ninguém ser contra ensinar que existe uma variante que você usa em casa, outra que você usa no escritório (e que não é variante da gramática normativa, mas aquela que repudia o "pegar os peixe" mas aceita o "me dá um cigarro" e aquela capa da Veja "a importância de falar e escrever CERTO") e a que você usa em provas e concursos (essa sim, a da gramática normativa).
PS: Note pelo português do meu comentário que ele é uma espécie da auto-defesa. Adoro e acho lindo meu idioma materno. Tem nada de errado com ele, não.
O semestre quase inteiro foi falando sobre letramento.
É engraçado ouvir as pessoas falando: "Meu filho é letrado!" e nem saberem do que realmente se trata esta palavra.
Adorei seu texto.
Pra começar, em termos puramente formais, “bichona” ou “negão” são perfeitamente aceitáveis. No entanto, não são mais aceitáveis na nossa fala cotidiana por questões políticas/morais, por causa do conteúdo preconceituoso que carregam.
Agora, a tua afirmação de que “Pelo pensamento da linguística, não há correto ou incorreto” foi infeliz, porque tua análise posterior foi meio rasa.
A discussão é (falando de maneira simplista) que existem variantes da língua, e algumas são mais adequadas a determinados contextos do que outras. Por isso, é preciso ter domínio dos diferentes registros e utilizá-los adequadamente, de acordo com os interlocutores, o momento, o ambiente, etc. Só, nada mais.
Além disso, nenhum linguista digno do título seria contra a "instrução" ou o ensino da gramática normativa. A maioria dos que eu conheço (eu mesmo era um antes de mudar de ramo de atuação) busca, isso sim, o fim da visão de gramática normativa como o padrão que todos devem seguir estritamente em todos os momentos.
(E se alguém vier dizer que sempre fala e escreve de acordo com a norma, eu exijo que use mesóclise corretamente todas as vezes em que for falar comigo.)
(Gravz: Err.. Isso foi dito no texto: a dissociação linguagem / comportamento. Mas, se os linguistas querem uma sociedade adepta de termos menos ofensivos, é preciso que ela seja educada TAMBÉM na gramática. De mais a mais, não existe essa relativização na matemática, na biologia... Já pensou? Baleia é "peixe" para boa parte da população, e é errado dizer que é mamífero porque, bom, porque seria PRECONCEITO LINGUÍSTICO rsrs)
Aí forçou hein... Estavas a fim de uma polemicazinha final e inseriu um "baiano vagabundo" totalmente fora de contexto. De qualquer forma, me amarro em seus textos. Abraço!!!
(Gravz: Aquela que se estabeleceu JUSTAMENTE por ser falada por um determinado grupo, fazenod parte de toda sua cultura. E ela - por óbvio - é regrada)
Aguardando. =)
Ou tu estarias usando o termo "ideologia" de maneira generalizada, associando-o unicamente a um grupo de linguistas que defende uma flexibilização das normas cultas com base em estudos sociológicos?
Cabe lembrar que o 'status quo', mantido pelo grupo dos que defendem o purismo da língua, também reflete uma ideologia.
Isso tudo é metalinguagem. Na hora de ensinar, a história é diferente...
Essa frase resumi meu sentimento em relação a língua portuguesa, fico ainda mais surpresa ao ver pessoas que falam e escrevem inglês e espanhol constantemente em seus posts, mas escrevem você com 'ç'... acho que pega mal pra caramba, mas apesar disso, confesso que já me peguei criticando erros de português, que eu mesma cometo, aliás Gravz, vc mandou um 'agente' lá em cima...kkk
(Gravz: Putz, é mesmo. Fui fazer graça com o "a gente vamos" e errei na digitação da forma certaValeu o toque!)
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Valeu o toque!)