A VIDA FÁCIL DOS ATEUS
14/11/2011
A VIDA FÁCIL DOS ATEUS

Sou ateu, mas não faço disso uma bandeira – acho que temas íntimos (religião, sexualidade e afins) não deveriam ser bandeiras, exceto em caso de extrema perseguição ou hipossuficiência social. Não é o caso do ateísmo, embora já tenha sido. Houve uma época, todos sabemos, que era possível escolher entre ser cristão ou virar churrasco. Hoje, não há mais isso.
Eliane Brum, que conheci hoje e descobri escrever na revista Época, cometeu um texto um tanto peculiar. Segundo a autora, os ateus somos perseguidos e temos uma vida dura. O exemplo para chegar a essa conclusão é a conversa com um taxista (ela que puxou papo, vale lembrar). Bem “classe média sofre”, mesmo.
Ela – e não ele – tocou no assunto da religião. Ela quis saber até as denominações cristãs frequentadas pelo taxista. Ele respondeu ao que foi perguntado, apenas isso. Daí, ela diz que não partilhava de sua fé e se declarou “atéia”, com o motorista respondendo “deus me livre!”. É o relato da própria jornalista, usando uma terceira pessoa pelezística de tão “sutil”.
E ela diz que ele não respeitou sua (dela) escolha, mas ele disse “deus ME livre” e não “deus A livre” ou coisa que o valha. Para um cristão, o ateísmo é ruim; para um ateu, o exato contrário. A vida do ateu é dura? Não, não é, e muito raramente alguém nos incomoda, exceto quando NÓS ATEUS PUXAMOS PAPO RELIGIOSO COM UMA PESSOA “DE FÉ”!
A autora erra ao cravar o termo “neopentecostal”, já desmentido e até ridicularizado por um... ATEU! (*), e erra mais ainda ao atribuir somente a eles a contrariedade quanto ao ateísmo. Não, não é isso. Nenhum religioso aprova o ateísmo na mesma medida em que os ateus não aprovam os religiosos – alguns apenas no foro íntimo, outros fazendo piadas (e elas existem de todos os lados).
Mas PERSEGUIÇÃO? Não, não existe. Não mais. Usar uma conversa com um taxista para corroborar uma tese dessas é algo frágil – até porque taxistas às vezes falam bem do Maluf e não há exatamente uma perseguição pró-Maluf ou contra-antimalufistas. E, claro, FOI ELA QUE COMEÇOU COM O PAPO RELIGIOSO.
O cafuné nos católicos não funciona, porque: a) o “não praticante” não é católico na acepção doutrinária do termo, a doutrina católica exige uma série de ritos e comportamentos que formam um pacote fechado (se alguns não cumprem, não é pela religião ser flexível, mas pelo fato de não gostarem dessa religião); e b) tomar TODOS OS EVANGÉLICOS por um taxista é como tomar TODOS OS CATÓLICOS por pessoas do convívio, uma amostragem viciada e boba (para dizer o mínimo).
Por fim, o maior preconceito está num trecho que pode ter passado desapercebido para alguns, mas entrega a autora pelo uso da linguagem: ela diz “a passageira era ateia, mas parecia do bem”. Ué! E por que não seríamos do bem? Por que a conjunção adversativa – a aditiva já seria inquietante, mostrar “do bem” como adversidade já chega a ser esquisito.
Nós ateus somos do bem. Claro, os ateus que não provocamos assuntos religiosos para depois denunciar uma inexistente situação desconfortável, intitulando texto abordando suposta “vida dura”. Nossa vida, hoje, é moleza.
Essa bulevoadorização do ateísmo transformou ser ateu em algo cafona, mais um objeto de militância inócua, como aquela turma que grita “abaixo a repressão” sem que haja qualquer tipo de gente reprimindo. Esse ateísmo precisa sair da adolescência, porque ainda se situa naquele campo existencial da intenção de chocar a vovó.
(*) – O ateu Fabio Marton é autor de “Ímpio, o evangelho de um ateu”, e lá explica direitinho – de forma fácil para que qualquer um entenda – a impossibilidade do “neopentecostalismo”. Ou o se é pentescostal, ou não. Leiam lá.
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transubstanciado por gravata às 14.11.11 | 25 comentários
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Comentários:
E olha que eu sou o tipo de gente que faz piada com tudo e com todos - raça, sexo, religião, opção sexual... Sem pender pra nenhum lado.
Creio esse problema se dê porque várias das "webcelebs" da atualidade são ateus e aí a criançada que paga pau pra eles simplesmente fecha o olho e diz "é isso ai, vou ser legal que nem ele! Religião não tá com nada!" e vai, sem nem chegar a essa conclusão sozinho.
Uma vez levei um fora de uma garota porque disse que era ateu.
Agora, a questão da (não) perseguição já é outra história. Evidentemente que nos dias de hoje ninguém vai te queimar na fogueira por ser ateu. Não somos perseguidos, mas indiscutivelmente ainda somos vistos com maus olhos pela sociedade. Obviamente, isso nem de longe equivale ao terror que você sofreria até um tempo atrás, mas o preconceito ainda é muito forte e eu não diria que só porque não há perseguição a situação esteja ótima.
Aliás, conforme foi supracitado nos comentários, o trecho "O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem." era a perspectiva do taxista, não? Sei lá, da maneira que você colocou, ficou parecendo que você achou que essa era a forma de pensar dela. Se não quis dizer isso, desculpe, é erro de interpretação meu mesmo. Mas seguindo essa linha de pensamento... Não sou do tipo que gosta de impor constantemente a minha pessoa, muito menos o que acredito ou deixo de acreditar, porém, como sou estudante do ensino médio (grande coisa, eu sei), ocasionalmente surgem debates que envolvem religião na sala de aula, e um dia desses, fui questionada à respeito da minha. Disse que era atéia e não deu outra: a grande maioria começou a me julgar. Aqueles com quem eu não possuo nenhum tipo de relação resmungaram coisas mesquinhas como "Ah, mas você não vai pro céu, menina." E meus amigos e inclusive um professor falaram "Um dia ainda vai acontecer algo marcante em sua vida e você vai acreditar em deus" o que não deixa de ser um comentário detestável, pois indiretamente, eles estão alegando que eu não tenho convicção de minhas ideias, e que elas estão à mercê de mudanças. Outra coisa interessante é que desde que meus colegas (acho a palavra colega demasiadamente tosca, mas na falta de outra, vai essa mesma) descobriram que eu sou atéia, eles adoram anunciar isso para outros professores sempre que surge a oportunidade. A minha professora de português, certa vez, me perguntou se meus pais também eram ateus. Eu respondi que não, e ela retrucou: "Ah, então se os pais possuem valores, tá tudo bem." Juro que ela disse isso com exatamente essas palavras. O que também me faz lembrar do por quê eu não ter "saído do armário" para os meus pais. Mas não vou trazer isso à tona porque já fui cansativamente prolixa nesse comentário - aliás, peço desculpas por isso, mas ser precisa não é o meu forte. Eu não tendo a expressar esse meu tipo de visão com muita frequencia, então quando eu o faço, acaba soando como um patético desabafo. Mas analisando brevemente o que eu escrevi, não diria que me sinto perseguida, mas sim incomodada. Essa visão errada que muitos ainda têm não torna meu dia-a-dia um fardo, mas isso não é motivo para tolerarmos preconceito.
E antes de enviar o comentário e (cof cof) imediatamente me arrepender disso, só queria mencionar outra coisa que acho relevante (não que o que eu tenha dito anteriormente tenha sido): muito ateu por aí também enche o peito pra dizer que só porque não matamos ninguém que pensa diferentemente, em contraposto com as guerras religiosas (o que por si só, não posso dizer se é uma afirmação verdadeira) somos pessoas de caráter, bons cidadãos e o caralho a quatro. Ser ateu ou não, não determina os seus valores. Eu mesma não me consideraria uma pessoa de boa índole.
E antes de enviar o comentário e (cof cof) imediatamente me arrepender disso, só queria mencionar outra coisa que acho relevante (não que o que eu tenha dito anteriormente tenha sido): muito ateu por aí também enche o peito pra dizer que só porque não matamos ninguém que pensa diferentemente, em contraposto com as guerras religiosas (o que por si só, não posso dizer se é uma afirmação verdadeira) somos pessoas de caráter, bons cidadãos e o caralho a quatro. Ser ateu ou não, não determina os seus valores. Eu mesma não me consideraria uma pessoa de boa índole.
AAhuAhuAhua
Bom demais,cara. Não sou ateu, apesar de não ter uma religião específica.
"A passageira era ateia, mas parecia do bem." Mas há um que talvez seja mais interessante:
"Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por não ter uma fé?"
Eu acho ridículo este tom professoral com que muitos ateus falam aos crentes. Além disso, para que esta (falsa) justificativa? Qual é a relação lógica? Ora, o fato de uma pessoa não ter consideração por outras, não trabalhar duro e não tentar cumprir o que seria sua própria parte “para fazer um mundo melhor” não significa que ela esteja incorreta no que se refere à crença ou à não-crença. Quanto ao preconceito, este é contra o ateu nesta frase, certo?: “a passageira era ateia, mas parecia do bem”. É semelhante ao trecho do funk em que se canta “ele era funkeiro, mas era pai-de-família”. Aqui, o preconceito, que é reproduzido por um funkeiro, é contra o próprio funkeiro. Lá, as palavras, produzidas por uma ateia, são contrárias ao próprio ateu. Mais: eu suspeito muito desse ateísmo cristianizado, cuja única diferença do cristianismo é a descrença em divindades, mas cujos comportamento e valores são muito próximos. É por isso que eu ouço crentes falarem, de vez em quando, que “vocês, os ateus, são uma piada; rejeitam nosso deus, mas vivem conforme os nossos princípios éticos”. E, neste ponto, dependendo do ateu com quem falam, estão corretos. Acho que a crítica ao cristianismo ou às demais religiões deva partir, se for feita, não do apontamento de seus mitos e fantasias, mas da desconstrução da ética de que partilham, pois esta torna as pessoas hipócritas e, aí, é que começa todo o prejuízo. Porém, este é outro assunto. Por fim, basta dizer que os seus comentários foram muito bem escritos e tocaram pontos-chave do texto-problema da “passageira ateia”.
É triste ver uma jornalista (que deveria ter bom domínio das palavras) confundir desaprovação com perseguição. Ora, se minhas crenças e meus valores são diferentes dos seus, haverá casos em que eu reprovo os seu valores, seus atos ou suas palavras. Mas isso é perseguição? Definitivamente, não. Nem preconceito. Parece que a jornalista esperava a concordância ou aprovação do taxista, que não veio. Insegurança quanto à sua "não-crença", ou tentativa de impô-la ao taxista? Vai saber, né?
Mas, não é só ela, não. Parece que o mundo ocidental está perdendo a capacidade de conviver com o confronto de idéias, com visões de mundo diferentes e que todos esperam ser aprovados por todos em tudo. Isto é imaturidade e tem se traduzido em intolerância, o que é surpreendente, em tempos de "politicamente correto".
putz, quero meu tempo de volta...
por favor, não crie links no seu blog pra uma porcaria dessas nunca mais...
Sou cristão, e todos tem o direito de viver cada qual a sua consciência, sem perseguição e/ou preconceito. Assim como a religiosos que praticam coisas ruins, assim também ateus tambem o fazem.
Não vi nada disso que você viu. Me parece que você esta mais para usar uma dialética socrática do que ser de fato sincero.
O taxista não fez nada de errado ou contra a autora. A autora apenas registrou sinais claros de que ele não admitia a opção dela.
Foi isso o que ela passou.
Aliás nada diferente do que vemos no dia a dia. Os neopentecostais são assim mesmo. Eles são o ovo da serpente na nossa sociedade.
(Gravz: Ovo da serpente...)
Acho que alguns ateus conseguem ser tão fanáticos e chatonildos quanto os crentes. Outros só são ateus porque agora é cool e voce passa um ar mais intelectual se disse que é ateu.
Mas quanto a dizer que a vida do ateu é suave, me desculpe, não é. Talvez seja pra um paulistano com turminha descolada, mas eu tenho que esconder isso no trabalho, caso contrário terei problemas de convivencia.
Em um emprego passado tive uma chefe católica ultraconservadora que não aceitava sequer o uso de anticoncepcionais, e me demitiria na hora se conhcesse minha opção.
Muita gente, ao saber que sou atéia (só falo se for explicitamente perguntada), me pergunta porque tenho essa revolta com deus e porque nao me reconcilio com ele (ãh, pq ele nao existe?) e minha própria familia arrum briga comigo todo santo natal porque não quero acordar cedo pra ir na missa.
É superchato essa falta de respeito com a gente, e pode até não ser ruim como já foi, mas isso nao significa que está bom.
Os princípios éticos de uma religião são um assunto à parte, independente do ateísmo de uma pessoa, que pode perfeitamente seguí-los segundo sua convicção pessoal, sem creditar-lhe base sobrenatural. Se fazendo isso a pessoa têm algo em comum com pessoas religiosas, que bom, não tem nada de errado com isso. Mas isso é improvável, porque como disse, os princípios são secundários. Generalizando, o amor ao próximo é só "pras nega dele".
E discordo do gravataí também. Também acho escroto ficar puxando assunto de religião do nada, mas não foi o que aconteceu com a jornalista. O taxista é que mencionou a Bíblia. Ela só continuou o curso normal da conversa. Daí eu faço coro com o pessoal dos comentários e digo taxativamente que existe perseguição sim! Vai um político admitir que é ateu, se ele vai ser eleito. Ou de que não pratica uma religião cristã qualquer. Isso já significa que todos os não-cristãos estão alijados de parcela do poder político e da liberdade de expressão. Os ateus, agnósticos (sou agnóstica) e os sem religião definida só sofrem menos porque têm poucas ocasiões de expressar essa preferência de forma pertinente e, quando têm fogem do assunto. Não se declarando "anormal", vc passa por "normal", porque se vc não roubou, matou, sei lá, não se mostrou promíscua (ênfase no A) vc deve ter jesus no coração. A autora do texto mencionado só tentou não ser uma atéia envergonhada e nem isso conseguiu, coitada, porque ninguém deveria ter de ficar se justificando, tanto quanto à (não)escolha ou à prerrogativa de fazer essa escolha "porque é uma boa pessoa" como me esclareceu alguém aí em cima (eu nunca tinha pensado nisso, coitada de mim). Quem sente mais os efeitos do preconceito são os praticantes de religião afro, mas isso é basicamente porque eles se expõem mais, se encontram em cultos e etc. Se os ateus participassem de encontros bem divulgados, certamente sofreriam as mesmas agressões que as pessoas nos terreiros sofrem. Os comentaristas já deram uma amostra disso.
Simplesmente genial...
(Gravz: Há veículos que são uma merda, mas têm colunistas bons. Acontece sempre. Também com o Bule Voador, que é uma merda, mas tem gente boa por lá - minoria. Ah, sim, Fabio Marton explica a inexistência do neopentecostalismo, não dá respaldo ao centro do texto, é apenas uma observação. Os alfabetizados notaram)
Cara, brilhante. Seu texto expressa exatamente o que penso sobre o assunto. Detalhe: não sou ateu.
(Não tem jeito de colocar um dispositivo aqui no blog pra gente divulgar o texto nas redes sociais? Esse eu gostaria de divulgar para meus amigos.)
Abração.
afinal de contas, alguns religiosos podem esfregar na cara dos outros a sua religião e sem nenhum pudor até tentarem converter quem não partilha da sua fé, mas aos ateus o que resta?
- apenas não ousem abrir a boca dizendo o que vocês são e não terão nenhum problema. não sofrerão discriminação, nem ouvirão comentários ignorantes.
do que estamos reclamando mesmo, né?
e outra coisa, só por que VOCÊ nunca foi discriminado por ser ateu não quer dizer que ninguém tenha sido.
cresça.
ps.: parece-me meio óbvio que a frase “a passageira era ateia, mas parecia do bem” foi uma ironia. você não percebeu?
E o fato de o taxista não ter dito "deus a livre" não faz com que a expressão "deus me livre" não tenha a conotação de expressão negativa quanto à ateidade/ateísmo, ainda mais que vem seguida de: "Vai lá na Bola de Neve."
Esse "muito raramente alguém nos incomoda" pode valer como relato de experiência pessoal sua, mas não como descrição acurada da realidade geral dos ateus. Eu q não sou ateu pelo menos uma vez por ano (normalmente bem mais) sou abordado por alguém tentando me converter para esta ou aquela religião.
A autora também não atribui exclusivamente aos neopentecostais a restrição ao ateísmo.
Além disso a autora não usa em seu texto a palavra perseguição. Apenas que tenderá a haver mais situações de choque ideológico. Isso é corroborado por pesquisas de opinião: o brasileiro sente mais ódio/repulsa ou antipatia em relação aos ateus do que em relação a usuários de drogas, prostitutas, homossexuais ou ex-presidiários; há menor propensão do brasileiro a votar em um ateu do que em um homossexual).
http://neveraskedquestions.blogspot.com/2010/08/datena-ateus-e-discriminacao-religiosa.html
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A vantagem do ateu, como a do judeu, é que eles não são tão facilmente identificáveis como muitas outras minoriais sociais: negros, pobres, deficientes físicos e outros. (E o ateu tem a vantagem extra de seu sobrenome não carregar tto na origem como muitos judeus.)
[]s,
Roberto Takata
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