GRETCHEN, BRASILEIROS E TUITEIROS
02/10/2011
GRETCHEN, BRASILEIROS E TUITEIROS

O sistema colonial e especialmente a escravidão criaram marcas praticamente indeléveis na estrutura social brasileira. Nós, brasileiros, menosprezamos trabalhos braçais ou qualquer um que de alguma maneira tenha a ver com o atendimento às pessoas em tarefas aparentemente simples.
Na colônia, havia os serviçais escravizados, cultura tão arraigada que até os alforriados muitas vezes também compravam pessoas para que lhes servissem – e deles fossem propriedades. Os imigrantes chegaram e tomaram para si o trabalho braçal em troca de salários famélicos.
E é assim até hoje, de muitos coreanos que passaram de operários a donos de confecções aos atuais bolivianos habitantes do centro de São Paulo.
Talvez a marca principal e mais constante seja a empregada doméstica, algo considerado de extremo luxo no mundo todo mas que, no Brasil, é corriqueiro e barato. A coisa chega ao seguinte ponto: domésticas que trabalham em famílias ricas (e ganham bem, portanto) também têm empregadas em suas casas para as tarefas de limpeza e que tais.
Eis o contexto do “Caso Gretchen”. Breve resumo: alguém a fotografou trabalhando como garçonete num café na cidade de Orlando, na Florida. Imediatamente, a cantora passou a ser motivo de piada – sobretudo no tuíter, o que torna as coisas ainda mais folclóricas (e explicarei o motivo mais adiante).
Sim, é claro que gostamos de “sacanear” celebridades (ou subcelebridades) e, sim, também gostamos de usar as redes sociais para exaltar sempre o lado mais cômico (ou tragicômico) de qualquer fato ou notícia. Não acho sensato, no sentido absoluto, reprimir esse tipo de coisa.
E o caso da Gretchen é curioso pelo fato de que envolve uma ex-cantora agora servindo cappuccino e soma-se a isso o pressuposto de que tal tarefa não seja louvável no Brasil. Ok, ok... Mas quem são exatamente os que tiram sarro da Gretchen?
Financeiramente, ela talvez esteja numa situação melhor que a de muitos de seus piadistas. Isso porque o salário mínimo da Florida é de cerca de US$ 1.5 mil por mês e, como é sabido, a gorjeta é uma verdadeira INSTITUIÇÃO nos EUA – praticamente todos os atendentes de restaurantes, bares, cafés etc., enfim, ganham muitas vezes mais em gorjeta que com salário.
Num cálculo bem razoável, ela talvez tire uns três mil dólares mensais (há também bônus e afins), o que dá algo em torno de R$ 5640,00 – considerando, por fim, que o custo de vida em Orlando é INFINITAMENTE MENOR que os de São Paulo e Rio de Janeiro.
Não há muitos ganhando mais por aí, né?
E surge o serviço: por mais que seja nossa cultura tirar sarro de determinadas tarefas, quem são mesmo os piadistas? Engenheiros? Diplomatas? Embaixadores? Não dá para falar de TODOS, mas preste atenção exatamente no trabalho de alguns que riram da Gretchen e veja se estão em condições de soltar anedotas cujo conteúdo seja “função laboral louvável”...
Enfim, claro que é legal fazer piada e, mais especificamente, tirar onda de celebridade que deu uma queda na carreira. Mas isso só faz sentido – e tem graça – quando o chiste parte de quem está numa situação melhor. Em caso contrário, é um miserável fazendo troça com o classe-média que se tornou um pouco mais pobre.
Brasileirice, afinal.
ps. – a última atividade da ex-cantora, aqui no Brasil, era a atuação em filmes pornôs da Brasileirinhas; ao tornar-se atendente de um café, muita gente considerou isso uma “queda” na carreira – e isso diz menos sobre a falta de preconceito com filmes e mais a existência dele em relação a atividades de atendimento;
pps. – o dono do café diz que tudo foi uma jogada de marketing – então quem tirou sarro pode não ser somente preconceituoso, mas também idiota por fazer propaganda gratuita (sendo que muitos cobram para falar bem das coisas no tuíter); que escolham a opção menos vexatória a si próprios;
ppps. – SOMENTE pode tirar sarro do fato dela eventualmente ter “visto de turista” e não “de trabalho” aquele cujo empregador assina a carteira corretamente e paga todas as verbas (em vez de contratar como terceirizado para burlar a Lei Trabalhista – ou, claro, apenas o empregador que cumpre com todas as obrigações fiscais e trabalhocas).
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transubstanciado por gravata às 02.10.11 | 10 comentários
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Comentários:
Daí depois... Imagina que só fiquei sabendo da Gretchen servindo café hoje, pq li no R7 que a MARA MARAVILHA enviou uma mensagem de apoio para ela. - Eu, para te falar a verdade, nem sabia que as duas ainda geravam "notícias". -
Enfim, achei de uma infelicidade ímpar quem riu da Gretchen, até pq a mulher está trabalhando. E daí, né? Eu não tô querendo acreditar que o fato da pessoa trabalhar, deixe os outros chocados.
Muito bom teu texto!
Por aqui sugerir uma mudança é pedir pra ouvir que "no Brasil é impossível", "nunca muda"
O problema maior do Brasil é a mentalidade de boa parte dos brasileiros: preconceitos bobos, achar que nada vai melhorar, querer tirar vantagem em tudo...
Mas acho que vai melhorar, um dia.
Esse tipo de piada ocorre pela diferença de atitude cá e lá.
Cá, ao se oferecer o que os gringos chamam de 'menial job', a recusa é imediata e clara - aceita esse tipo de trabalho para não passar forme; lá, a aceitação é imediata e clara - aceita esse tipo de trabalho sem pestanejar, sem frescura.
Muita gente que sai daqui para trabalhar no exterior assume funções que aqui não assumiria 'nem morto'.
Parabéns pelo texto, muito bem escrito e sobre um tema atual e importante....
Obrigada por nos brindar com uma leitura legal e útil...
Beijos
@OverDelicia
Deve ter sido muito difícil para ela mudar para lá e tentar recomeçar. Não sei porque tanta falácia, não é esse tipo de trabalho que a grande maioria dos brasileiros consegue quando vão morar lá ?
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