SOU ATEU E GOSTO MUITO DE RELIGIÃO
26/02/2011
SOU ATEU E GOSTO MUITO DE RELIGIÃO
Sou ateu, não acredito em deus nem em doutrina alguma de qualquer que seja a religião. Mas, é claro, entendo e tento conhecer cada vez mais a história e a beleza histórica de cada religião. Não aceito, por exemplo, quando colocam ciência e religiosidade como antagônicas - essa dualidade supostamente adversária é ignorante e até mesmo cafona.
Eu gosto das religiões.
O fato de não ter fé para segui-las não me impede de estudá-las, tentar conhecê-las e, nesse sentido, reconhecer suas belezas. E são várias, inúmeras mesmo. As religiões geralmente têm histórias lindas, mitologias magníficas, tudo isso muitas vezes servindo de base para toda sorte de estudos e histórias que hoje compõem o cânone literário ocidental (não sei do oriente o bastante; mas convicções religiosas e/ou filosóficas - e até ateístas - como taoísmo e confucionismo, p.ex., também baseiam obras do leste extremo.
Já fiz, sim, aquelas brincadeiras adolescentes de mostrar contradições na Bíblia, mas isso é coisa pequena e ridícula perto da riqueza de todos os livros que a compõem. O Velho Testamento traz narrativas impressionantes, fortes, maravilhosas - e ele é base do judaísmo (apenas com livros e histórias invertidas na Bíblia Cristã).
Claro que é fácil e um pouco divertido mostrar situações estranhas ou engraçadas, como Abraão topando matar o filho para depois deixar de fazer isso (mas estropiar uma ovelha, porque alguém deveria morrer - dando origem, assim, aos rituais de holocausto pascal). Ou quando a vida de Jó (Job) se transforma num inferno por conta de uma aposta entre deus e o diabo, num livro impressionante e ao mesmo tempo estranho.
Mas isso é rico. Assim como são ricas, sem dúvida alguma, as entidades do candomblé, elementais, primevas, como são as entidades mitológicas nórdicas ou das narrativas gregas pré-olímpicas (a mitologia titânica é muito similar àquela do candomblé). A história da fusão disso com cristianismo, por sua vez, gerou a sincrética Umbanda que, é claro, possui uma riqueza incrível.
Por mais que não acreditemos - e, repito, eu não acredito em nada disso - não dá para simplesmente dizer que tudo isso é bobagem. Não é. É importantíssimo, fundamental, faz parte da história do mundo e é culturalmente rico (não só no sentido de obra produzida ou tradição do povo, mas também falo aqui de certa erudição e conhecimentos mais avançados).
Os ateus temos muita facilidade em sacanear o gênesis: sol "feito" depois da terra, dias e noites sem haver sol, lua como "luminar", uma mulher criada para que outra aparecesse (há um tal Mito de Ahgar sobre a tal primeira esposa de Adão que some na narrativa criacionista oficial). Isso é moleza, mesmo. Mas seria interessante que todos os ateus também lessem Santo Tomás de Aquino ou Santo Agostinho, para ficar em dois exemplos clássicos, básicos e também muito difíceis.
Em vários momentos da história, ou mesmo hoje em alguns lugares, a religião se impôs (ou se impõe) para cima das pessoas e suas convicções laicas. Isso é algo que jamais pode ser admitido. Mas daí a tripudiar da fé alheia com suposta superioridade existencial, convenhamos, é cometer o mesmo erro imputado (às vezes com muito acerto) aos religiosos extremistas.
Minha idéia de ateísmo não vai muito além do que eu acredito (ou, precisamente, deixo de acreditar). Minha "ideologia" de não ter fé aceita um mundo em que outras pessoas tenham suas religiões e todos possam conviver sem que um ofenda ao outro.
Não se deve tratar as pessoas de convicções diferentes como se fossem inimigas (e a militância política mais tacanha faz isso o tempo todo). Quando encontro alguém pensa de forma diferente não penso em eliminar tal sujeito, mas sim em aprender com ele. Isso serve para ideologias em geral, sejam políticas, partidárias ou religiosas.
Acreditem: dá para ser ateu sem ser chato com isso. Assim como muitos são religiosos e não aborrecem ninguém, apenas professam sua fé. Brigar por isso é trazer de volta um medievalismo que não faz sentido.
Só não me peçam ou esperem de mim que aceite coisas como astrologia. Aí é demais - embora, histórica e culturalmente, seja também muito rica. Mas, hoje, infelizmente, foi e está reduzida àquelas previsões óbvias e tacanhas.
No mais, dá para todo mundo ser feliz cada um na sua. Aliás, pensando melhor, essa é a forma mais simples de se alcançar alguma paz coletiva quanto às crenças religiosas: cada um na sua, sem agressões ou intolerância.
Fiquem com seu deus ou seus deuses.
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Comentários:
estou agradavelmente surpresa com seu texto. Concordo com seu ponto de vista, aliás, sempre defendi isso. Não sou atéia nem por isso me acho melhor ou pior em relação a quem é. Idem para as demais religiões.
Digo surpresa pq já tivemos aqui uma discordância a respeito do assunto (quando você falou sobre a questão de que cristãos não deveriam ir ao médico, algo parecido, lembra?). Eu falei na época que essa discussão entre ciência e religião já tinha se esgotado, pois minha crença compreende a fé raciocinada e que não tinha nada a ver. E você, troll que é, me deu uma patadinha bem feia falando que Kardec era uma fraude, só tinha copiado Sócrates (provavelmente saber que nas obras dele os Espíritos citam Sócrates sim, considerado o percussor do espiritismo, assim como tantos outros que viveram em épocas anteriores a Kardec).
Como eu não gosto de discutir crenças, acho totalmente inútil, só faço isso se a pessoa está com interesse genuíno de conhecer e não simplesmente trollar o outro - não retruquei.
Mas enfim, fico feliz com sua posição. A diversidade é coisa mais linda dessa vida. Não sou umbandista, por exemplo, mas quarta passada fui pela primeira vez numa roda de umbanda e fiquei encantada. É muito legal e históricamente rico, como você disse.
Abraço,
Adriana
Sou ateia mas odeio quando tripudiam sobre pessoas com religião com o tal ar de superioridade e você deu a justificativa que eu não conseguia achar palavras para explicar.
Sem contar os que muito falam sem ao menos saber do que se trata e da onde vem o sentimento desses com fé (que também não possuo). Pra mim é o ponto onde a ignorância vira burrice pois ficam tão credulos com o que "não existe" e se fecham as portas de novas visões.
Pra mim quem tem uma visão, não tem visão nenhuma.
Enfim, ótimo texto
(Gravz: É mole?)
isso ae!
Não abandona o site não, valeu o post!
Não achei seu nome no post, portanto apenas bom dia. Achei seu site no facebook devido ao sistema de compartilhamento da Anne Becker.
Então meu caro, gostei e concordo com algumas coisas, as religioes normalmente são de uma riquesa literaria absoluta, mas discordo da ideia "adolescente" de refutar os erros canonicos.
As religioes e estou me referindo as abraâmicas usam por meio desse canon biblico a explicaçao do nascimento da humanindade, então refutar erros de concordandia e até historicos é nada mais do que fazer o simples papel de ceifador de conhecimento. Um dos principais fatores que fez de minha pessoa um atéu foi a biblia, claro que estudei ela e muitos outros documentos, mas a ideia de um livro explicar a humanidade e conter erros é muito ironica para ficar sem ser dita.
Sua ideia de no mundo sermos todos felizes cada um com seu pensamento, é muito bonita mas totalmente irreal para a nossa realidade. E nesse momento nem falando de religioes estou, veja que a grande maioria dos países precisa de um exercito para se manter a “PAZ”.
Ficarei feliz em discutir mais sobre o assunto, caso tu desejares isso sinta-se a vontade para me mandar um e-mail. =)
E para discordar em um ponto, não acho que todas religiões tem o mesmo valor, não digo de valor teológico mas de valor histórico e o quanto elas influíram no passado e em como nós somos atualmente, por isso acho que o cristianismo, judaísmo e islamismo estão em um patamar acima das outras.
Não Vejo as religiões como algo além da clássica dominação do homem pelo homem, onde alguém supostamente mais instruído dita para uma coletividade regras e padrão de comportamento, mas não entendo onde está a procuração divina que dá poder para alguém falar em nome de qualquer divindade.
Admiro a fé, que é acreditar e devotar a propria vida a algo de que não existe o menor indício real de existir, essa abnegação quando sincera revela para mim uma força de vontade rara de encontrar em outras ocupações humanas.
Sou ateu (ou agnóstico, sei lá
Mas leio a bíblia constantemente e reconheço no Gêneses muitas passagens que confirmam estudos feitos por grandes pensadores acerca da origem e formação das sociedades e povos. (as rivalidades entre agricultores e pastores = primeira divisão de classes comum à todas aos povos nascentes - a exclusão do povo comum nos negócios de deus em enoch, etc..)
Ainda é preciso investigar até descobrir, por exemplo, que a serpente refere-se à língua (o dom da fala tornou o homem consciente de toda a sua labuta - parto com dor, suor do trabalho)...
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