FUNK, BAILÃO E RITUAIS DE ACASALAMENTO

28/01/2011

FUNK, BAILÃO E RITUAIS DE ACASALAMENTO

Acho que conheci o chamado funk do Rio no ano de 1999 - isso na forma como existe hoje, já que algumas modalidades anteriores não podem ser consideradas como tais. Esse, de agora, é uma mistura cultural diferente de Gerson King Combo (não entrarei nos méritos musicais, isso fica claro no resto do texto). O funk atual reúne baile, dança, comportamento e TAMBÉM música.

E então na época ouvi, não gostei, mas VI e achei o máximo. Sei que jamais freqüentarei um baile funk, mas aquilo tudo, para mim, pareceu uma coisa não apenas autêntica e legítima, mas plenamente natural (considerando o que as pessoas fazem desde que existem). É a dança (o corpo, pois) usada como ferramenta visual para conquistar e seduzir.

É primitivo? Sim, claro. Mas existe e existirá em todas as esferas.

Alguns ricos fazem troça dos pobres que se acotovelam naquele ambiente, mas agem de forma igual em outros lugares - pagando mais caro e tendo acesso a produtos de qualidade melhor. Mas, em termos antropológicos, é exatamente a mesma coisa. E quem meramente se restringe à análise musical mostra imbecilidade e às vezes parvoíce.

São imbecis porque, num baile, a música tem papel secundário ou até terciário: é praticamente uma desculpa. E parvos pelo fato de que muitas vezes não são exatamente apreciadores de clássicos: depreciam a manifestação popular supostamente mais rasteira, mas idolatram bobagens igualmente mocorongas (apenas teoricamente um pouco acima disso, mas mesmo assim muito abaixo da chamada alta cultura). Não que isso seja mesmo importante, mas quem pretende criar uma ESCALA para depreciar o de baixo, convenhamos, precisa primeiro ter certeza de que está no topo.

Isso tudo, claro, faz muito tempo e o legal era ver aquela festa, mesmo. Eis que hoje, vejam só!, surge o vídeo de um tal LAMBADÃO, cuja dança mistura lambada e aquela gafieira de exibição e concurso. Em suma: casais se enroscam simulando movimentos sexuais ao mesmo tempo em que fazem alguns malabarismos surpreendentes - mas ainda assim mantendo movimentos pélvicos e afins. Vejam só:

Essas coisas chegam sempre acompanhadas da reprovação dos que seriam "civilizados" e não admitem nada assim. Cada estrutura social, em seu contexto, usa mecanismos extremamente parecidos no que diz respeito à aproximação de casais (trocando em miúdos: atrair fêmea ou macho). Muitos que depreciam o "bailão" são os que dançam languidamente numa boate caríssima, ou usam bens materiais como forma de atração ou até mesmo desfiam rosários subintelectuais na falta de um rabo físico de pavão.

Tudo isso é exatamente a mesma coisa. A mesmíssima coisa.

E aí também entra outra discussão, quando começam a diferenciar "erotismo" de "pornografia", como se um pouco de pudor fosse necessário. Bobagem. Há momentos em que a máxima discrição é exigida, mas outros nos quais a absoluta putaria desenfreada não precisa ser refreada sob pena disso ou daquilo - e, agora, por óbvio, já saí do tema "dança e baile" para algo mais amplo.

Nem lembro quando, mas sei que já escrevi sobre o erro de se condenar a "vulgaridade", quando muitas vezes - na hora certa - ela é deliciosa. O que seria do sexo, o verdadeiro sexo, sem alguma dose de vulgaridade? Em público, é claro, todos vetam esse tipo de coisa.

Mas será que, enquanto trepam, chamam uns aos outros de "Vossa Excelência"? Deve ter gente que sim.


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transubstanciado por gravata às 28.01.11 | 8 comentários



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Comentários:


Comentário de: Marco Gomes · http://marcogomes.com

Como diz um tio meu:

*** Tem homem que é tão fresco que deve comer a mulher de canudinho ***

Excelente texto amigo Gravz :) Compartilharei.

PermalinkPermalink 28.01.11 @ 17:58



Comentário de: Izzy Nobre · http://www.hbdia.com

Renda acumulada dos participantes do vídeo acima: R$283.92 e um Chevette 88 a álcool.

PermalinkPermalink 28.01.11 @ 18:07



Comentário de: Thaís Pontes · http://www.dicadodia.com

Eu vou comentar aqui com bastante autoridade. Isso porque tb já tive minha parcela de kuduro: fui dançarina por mais de um ano e desbavei a zona leste paulistana com movimentos um pouco mais tímidos que o do lambadão, mas que, anyway, permeiam desde o tango da argentina de nariz empinado até o já dito kuduro africano. A mulher quando dança de forma sensual, tentando, conscientemente ou não, chamar a atenção dos homens e se sobressair às outras mulheres. E o prazer que ela sente quando consegue.

Isso é tão natural. No lambadão, até as criancinhas de pés no chão e as velhinhas assistem a tudo com muita naturalidade. Se pra vc parece vulgar, pra eles é tão normal quanto a valsa do casamento.

Não adianta se iludir, toda dança tem o mesmo intuito. Umas são mais explícitas, mas não por isso menos dignas.

PermalinkPermalink 28.01.11 @ 18:07



Comentário de: Camilla Lopes · http://cativadodeserto.blogspot.com

Fernando, eu adoro funk, adoro o esfrega esfrega e os mashups que eles fazem nas músicas, os medleys ...não acredito que me invalide intelectualmente o fato de eu gostar, já saí dessa fase óbvia dos pseudointelectuais e se quer saber, tocou um funk, as cadeiras automaticamente tomam vida, entenda como quiser. abs

PermalinkPermalink 28.01.11 @ 18:28



Comentário de: V

Isso vai muito da opinião da pessoa e de como ela encara a situação, vai dela gostar ou não do que vê ou escuta.
Sem dúvida tem pessoas que acabam elevando o conceito(no caso) de música e dança que ela gosta dizendo ser superior ao outro, mesmo sendo igualmente bom, mas quem nunca fez isso?
Somos assim, acontece que sempre elevamos em algum momento o que gostamos, é marcante nas pessoas achar que o delas é bom e das outras ruim, mas o problema é que muitos não tem em mente isso e acabam estrapolando achando que a opinião dele é superior ao de todo mundo.
Acho que é questão de opinião e respeito ao gosto das pessoas.





PermalinkPermalink 28.01.11 @ 19:42



Comentário de: Bruna · http://sexata.blogspot.com/

Triste daqueles que precisam de tantos subterfúgios para chegar onde todos querem: no sexo.

PermalinkPermalink 28.01.11 @ 21:26



Comentário de: mriam

Serei chamada de pseudo-intelectual se disser que odeio essa merda?

PermalinkPermalink 29.01.11 @ 21:33



Comentário de: mriam

O "pancadão" me remete a uma idéia não muito agradável - e não estou falando de vulgaridade, estou falando de uma espécie de 'conformismo' que assola o povão em relação à falta de acesso a uma educação mais abrangente. A batida é alucinante? Beleza. Mas por que não se interessar por outras coisas também? Por que não ampliar o repertório, o mínimo que seja? Acho um tanto precário viver só de pancadão e afins! Sei que é ingênuo esse meu questionamento, mas o "pancadão" não me agrada e eu não sei se é o caso de eu ser pseudo-cult por isso...

PermalinkPermalink 29.01.11 @ 22:08



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