SOBRE "TROQUE O BBB POR UM LIVRO"
24/01/2011
SOBRE "TROQUE O BBB POR UM LIVRO"
Algumas iniciativas têm o dom particular de reunir boa-fé e falta de ridículo numa mesma campanha, e essa de "trocar BBB por um livro" faz parte de tal grupo. Em princípio, no tal raciocínio pedestre, percebe-se a intenção louvável de "levar boa cultura" às pessoas em detrimento do que seria "alienação". Ok, ok. Mas, é claro, uma coisa não tem nada a ver com outra e, no fim, tudo vira alvo de chacota - mesmo por parte de quem não vê o programa nem sabe muito bem o que seja um livro.
Uma conquista importante do mundo ocidental é a liberdade do indivíduo quanto ao que deseja ver na televisão - exceto, é claro, quando os próprios veículos não colaboram nesse pormenor (seja por interesse empresarial, religioso etc.) - e também liberdade para ler o que bem entende. Há recantos pelo mundo (há quem os chame de países) nos quais esse tipo de escolha não cabe às pessoas, mas aos que nelas mandam (há quem os chamem de governos). Só por aí, estamos em vantagem.
Mas há outros aspectos. Milhares deles.
Desde quando cabe à televisão o dever de educar as pessoas? Se as escolas são péssimas e se muitos são preguiçosos, as emissoras não têm culpa alguma diante desse quadro e, mais ainda, não têm qualquer responsabilidade quanto a levar à sua grade algo que compense a fraqueza escolar e/ou acadêmica de um povo. Escola é escola, televisão é televisão. Não se deve confundir educação e entretenimento, sob pena de, sem exageros, incorrer na desgraça daqueles buracos (alguns chamam de países) citados no final do segundo parágrafo.
Outra curiosidade é o fato de que o telespectador de programa popular não é necessariamente um idiota. Porque a vida é feita de vários momentos: é possível ler um livro à tarde, ver um programa RIDÍCULO à noite, cochilar em alguma outra hora e, além de tudo, trabalhar, comer, fazer necessidades, trepar etc. Em suma: por que diabos não se pode ler um livro E TAMBÉM ver um programa qualquer (como o BBB, p.ex.).
Daí, como ocorre em toda campanha de elaboração mais simplória, há aquelas reações também risíveis - seja pela obviedade colegial ou pelo fato de que são o verso dessa moeda sub-elitista. Como rebatem? Assim: "aposto que os livros sugeridos seriam alguma porcaria" - ou algo do tipo.
Entenderam? É ridícula a pedantaria de quem tenta proibir os outros de ver um programa popular, mas é ridícula-e-meia a idéia de rebater uma falsa superioridade usando... FALSA SUPERIORIDADE! Deveriam pensar uns dois minutos antes desse vexame.
Mas isso tudo é bobagem (tanto que trato num blog) e, dessa besteirada toda, ficou a lembrança de um péssimo hábito das pessoas, aquilo de dizer que gostam de ler um "bom" livro, ou beber um "bom" vinho. Aposto que todos já ouviram isso - os silentes provavelmente são os que falam dessa forma.
Por que as pessoas falam assim? Elas também lêem péssimos livros e tomam vinhos horríveis (voluntariamente), alternando vez por outra e, neste último caso, acham pertinente nos avisar? Claro que não. Deveriam tirar o adjetivo "bom" ao dizer que vão ler um "livro". E parar de encher o saco de quem gosta de BBB, também.
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transubstanciado por gravata às 24.01.11 | 8 comentários
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Comentários:
(Gravz: Muito obrigado. Também gosto do seu comentário)
No questionamento: "Desde quando cabe à televisão o dever de educar as pessoas? " Concordamos massivamente que a educação é precária no Brasil, etc.. etc.. e todo aquele descurso de quem critica mas nunca se deu ao trabalho de sugerir uma melhoria, um projeto para seu candidato eleito, ou ter se disposto a dar uma oficina ou ajudar uma criança a ler, escrever, fazer um dever de casa, enfim.. Talvez não é o papel da TV educar as pessoas e sim deixar quem tem carência de cultura e educação mais ignorante possível, o mais consumista dos produtos do seu anunciante e cultuador das idéias mais sórdidas e manipuladoras que convém ao seu governo corrupto e ainda proporcionar aos 'espertos' que tiveram a oportunidade de estudar em uma escola legal, pública ou privada (existe escola pública sim, que oferece ótima instrução aos alunos e não é utopia) a oportunidade de obter uma série de informações massivamente manipuladas por conveniência e apropriar-se das idéias discriminatórias, preconceituosas e distorcidas para o bem ou para o mal, além de fomentar as formas de consumismo útil ou inútil. A diferença entre o 'esperto' que teve acesso a alguma cultura e senso crítico e o cidadão que fez parte de um sistema falho de educação é que alguns 'espertos' podem escolher se querem receber o entretenimento inútil 'just for fun' ou descartá-lo. Nem todos tem a percepção do real significado de escolha e seleção do que pode somar ou não para evolução inidivual. Devemos lembrar ainda, que é a TV que passa a maior parte do tempo 'criando conceitos e idéias' nas mentes das crianças, enquanto os pais estão no trabalho. E quando os pais chegam do trabalho é a vez deles. Não é tu que escolhes o conteúdo que vai assistir na TV é o programador da TV que escolhe os conteúdos que tu deve assistir. Isso em qualquer canal..A internet é um meio amplo, mas como tu vai saber o que procurar, o que 'escolher' se tu estás acostumado a receber.. que bons livros ler, se as indicações para as pessoas são os best-sellers escolhidos pelas propagandas do intervalo dos Realty shows que tantos assistem? Quer procurar algo diferente? Acessa o Google.. mas o que procurar além das coisas que estão na tua programação mental?
O livre arbítrio está aí, para deixares que os outros 'te guiem' (manipulem) ou para que tente correr para o caminho oposto.
(Gravz: Seu comment dá pergunta e resposta. Mas, ok, respondo ainda assim. Todos são livres para ver o que bem entendem e, EXATAMENTE POR ISSO, sou contra aqueles que tentam IMPOR suas visões culturais de mundo - livre-arbítrio não abarca esse tipo de circunstância. Acho que ficou bem claro no texto, mas enfim...)
Rola todo aquele "Mas como? Tu que gosta tanto de ler? Que quase não assiste TV?" O que tem uma coisa com a outra?
Se é tosco ou não, eu me divirto, o marido também, vários amigos, e é isso que importa no fim das contas.
Além disso, todo mundo reclama dos programas mas eles tem audiências recordes, enquanto produções mais "culturais" ficam com traço de audiência.
Eu amo ler, e sempre recorro a livros quando quero exercitar o cerébro, mas na hora de ver tv, assisto programas ruins mesmo, coisas feitas pra distrair e descansar.
Eu particularmente não gosto de reality shows, então não assisto BBB, mas assisto Supernatural, The Vampire Diaries e outras coisas de qualidade duvidosa sem medo de ser feliz.
Aqui no Brasil, pelo menos desde 1988 - até antes. Na CF, art. 221:
"Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios:
I - preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas;"
[]s,
Roberto Takata
(Gravz: "preferência a" não é obrigação, mas um paliativo sem aplicabilidade - e o artigo foi regulamentado? Ah, sim, ele tem alternativas: arte, cultura, informação. Além de não ser uma OBRIGAÇÃO, mas "preferência" embutida em "princípios" - não é uma regra, qq um - quase - sabe disso. Ainda assim, vamos lá (parágrafo 3º do art. 220 da mesma Constituição Federal):
"§ 3º - Compete à lei federal:
I - regular as diversões e espetáculos públicos, cabendo ao Poder Público informar sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada;
II - estabelecer os meios legais que garantam à pessoa e à família a possibilidade de se defenderem de programas ou programações de rádio e televisão que contrariem o disposto no art. 221, bem como da propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente."
Qual a LEI FEDERAL que OBRIGA as TVs a educar? Como disse, o artigo não é um dispositivo de obrigação, mas um 'norte' sem qq valor ou obrigatoriedade de cumprimento. Ademais, A PRÓPRIA CF estabelece que isso seria definido em Lei Federal (ordinária, complementar etc.). Outro abraço.)
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