OS DOCES BÁRBAROS

10/01/2011

OS DOCES BÁRBAROS

Jorge Mautner é o padrinho desse título, ou da expressão, porque disse a Caetano Veloso que Jesus Cristo seria o grande bárbaro invasor de Roma e, portanto, um "doce bárbaro": levou o cristianismo ao império e o conquistou. Claro que, historicamente, não foi bem assim: os romanos é que adaptaram a doutrina cristã à sua maneira e, desta feita, conquistaram o resto do mundo ocidental. Mas, como poesia, a idéia de Mautner é ótima.

E aqui vou falar do grupo formado pelos quatro baianos: Caetano, Bethânia, Gal e Gilberto Gil, que lançaram o disco duplo, homônimo, em 1976. A história oficial é a da "comemoração de dez anos de carreira de todos", mas isso não faz muito sentido porque Gil e Bethânia, por exemplo, já tinham muito mais de uma década de estrada. Não gosto dessas explicações oficiais constantes dos encartes, imprensa e afins.

Naquela época, vale lembrar, música e política caminhavam de forma lamentavelmente próxima. E, sim, isso é lamentável, porque as patrulhas eram ferrenhas e, por óbvio, burras. Muito burras. Um dos grandes ícones da subversão musical, por exemplo, foi ao mesmo tempo o mais vaiado da história da MPB: ninguém menos que Chico Buarque - em 1968, ao executar publicamente "Sabiá", ao lado de Tom Jobim, mal conseguia cantar enquanto o povo histérico e debilóide o vaiava porque sua canção não seria suficientemente esquerdista e teria levado o primeiro lugar em suposta mutreta para prejudicar Vandré (anos depois, o "preterido" faria músicas para a Força Aérea Brasileira...).

Os baianos, naquela altura, já tinham sido desclassificados. Gil pelo júri e Caetano por conta própria, exigindo ser expulso (não foi, mas saiu assim mesmo) ao fazer um discurso contra o público e o júri em vez de recitar trecho de "Mensagem" (F. Pessoa). Enquanto a final do festival acontecia no Maracanãzinho, Caetano se apresentava com os Mutantes na boate Sucata em show histórico (as faixas do finado compacto duplo circulam por aí: "Baby", "Marcianita", "Saudosismo" e "A Voz do Morto"). A gravadora Philips, que nunca foi besta, também lançou "É Proibido Proibir" em compacto simples: num lado a música, no outro o discurso inflamado, batizado de "Ambiente de Festival".

Exílio etc., tempo passou, vamos ao ano de 1976. Chico Buarque já não era mais vaiado, ao contrário, tornou-se um exemplo para os que o agrediam. Fazia músicas politizadas, era censurado, precisou gravar composições sob o pseudônimo Julinho da Adhelaide. Caetano, por sua vez, era hostilizadíssimo, xingado mesmo, até por ex-amigos do Pasquim (para o qual escrevia enquanto esteve exilado pela mesma ditadura que ousou desafiar não exatamente compactuando com a imbecilidade dos semoventes). A parte curiosa é que, àquela altura, já não havia qualquer rusga entre Chico, Caetano, Gil etc. Os militantes é que botavam lenha numa fogueira então inexistente (entre eles).

Mas, sim, as patrulhas estavam a postos.

Hoje provavelmente muitos vão gargalhar desse fato, mas houve uma PASSEATA CONTRA A PRESENÇA DA GUITARRA ELÉTRICA NA MÚSICA BRASILEIRA. Isso é sério, não estou inventando. Era esse o nível dos "politizados" da época e sua preocupação quanto à "americanização" - circunstância que ainda ecoava na época do lançamento de "Doces Bárbaros". A Tropicália, é claro, amenizou um pouco as coisas, permitiu uma abertura de olhos - e sobretudo ouvidos - a uma parcela considerável de intelectuais e pessoas comuns de classe média (e média alta), formadores de opinião em geral, mas ainda assim havia uma resistência e tanto.

Essa reunião dos quatro baianos, portanto, seria o ápice da "alienação". Assim como hoje é inadmissível ser "de esquerda" sem compactuar com determinado partido, naquela época ninguém poderia ser "contra o sistema" sem seguir exatamente a cartilha proposta por certos grupos. Eles não seguiam e, na opinião de uns e outros, estavam mais a serviço do poder que seriam a ele um obstáculo (pensamento pedestre, é claro, mas não se pode exigir nada além disso desse tipo de gente - e já é bonzinho considerá-los gente).

Na verdade, e no fim das contas, eles faziam música (e música muito boa). E havia, é claro, muita rebeldia, com efeito desagradável para a sociedade conservadora e, por conseqüência, aos detentores do poder, pois a adesão da juventude era voluntária e, sem dúvida alguma, tudo aquilo era definitivamente transgressor. Mas, antes e acima de tudo, faziam música. Os críticos microcéfalos a serviço de ideologias, como sói, não admitiam isso e queriam mais panfleto e menos acordes.

Doces Bárbaros, enfim, celebra a vitória da música sobre os que a tentaram enterrar a todo custo e, também, a vitória de um grupo que sabia fazê-la. Os jornalistas idiotas da época tentaram a todo custo enterrar esse trabalho, boicotaram show, disco, documentário. Não adiantou. Alguns, é verdade, hoje gozam daquelas aposentadorias milionárias. Mas continuam infames. Os Doces Bárbaros nunca precisaram disso para sempre estar acima desses pobres coitados.

A história é contada pelos vencedores, é o que dizem (e é verdade). Mas vencer nem sempre significa metralhar o inimigo de forma literal. Às vezes, o tempo se encarrega disso de formas ainda mais vexatórias.

Deixo a vocês algumas das músicas de que mais gosto desse disco e peço que busquem saber mais desse período.

Foda.


Posts similares:
CAETANO VELOSO E OS MUTANTES
CAETANO VELOSO: “LETRA SÓ” E “SOBRE AS LETRAS”
QUARENTA ANOS CAETANOS

transubstanciado por gravata às 10.01.11 | 1 comentário



(Os comentários abaixo exprimem a opinião dos visitantes, o autor do blog não se responsabiliza por quaisquer consequências e/ou danos que eles venham a provocar.)

Atalho pra o formulário

Comentários:


Comentário de: Carol · http://www.adocaria.com.br

Faltou Um Índio e Esotérico!!!

:D

beijos

PermalinkPermalink 10.01.11 @ 07:59



Este post tem 1 comentário aguardando aprovação...

Deixe seu comentário:

Seu endereço de email não será exibido nesse site.
Sua URL será exibida.