BRASIL x EUA: TV x CINEMA

18/11/2010

BRASIL x EUA: TV x CINEMA

O Brasil tem fama de fazer uma das melhores dramaturgias televisivas do mundo. Essa fama, claro, é restrita ao próprio país, pois nossa televisão é uma porcaria - talvez apenas a da Itália seria pior (dentre os países de cultura ocidental). Esse tipo de avaliação ufanista é normal. Também falamos bem de nossa música popular, como se fosse a melhor do planeta, mesmo não o sendo. O mesmo vale para nossa culinária. É boa? Sim. Mas se alcançar a vigésima colocação num torneio mundial seria uma façanha - com provável ajuda simpática dos jurados.

Mas voltemos à TV, e à comparação que pretendo fazer ao cinema, sobretudo em analogia ao que acontece nos EUA. O caso é espantoso, para dizer o mínimo.

Aqui, a grande audiência acompanha a programação televisiva enquanto apenas um percentual exíguo se presta a ver filmes de produção nacional. Talvez por isso - é um palpite -, há extremo conservadorismo na dramaturgia televisiva enquanto nas películas cinematográficas é possível inovar (não que as inovações resultem em boa qualidade, vale dizer).

Nos EUA, há o contrário: o cinema é muito mais conservador enquanto a TV permite todo tipo de inovação temática, formal etc. É muito difícil e improvável (exceto de forma independente) emplacar um filme sem seguir fórmulas manjadas de sucesso, mas a televisão aceita programas dramatúrgicos com temáticas envolvendo sexo, drogas, conspirações governamentais e absolutamente todas as cenas mais improváveis e inimagináveis para os padrões brasileiros (aqui, p.ex., nem mesmo palavrões são aceitos - e beijos gays, masculinos ou femininos, são tabu até hoje; nas séries norteamericanas, são corriqueiros desde o início da década de 90).

Há mais diferenças, é claro. Quando produzido nos EUA, até mesmo o mais independente dos filmes não está vinculado ao governo, por meio de mecanismos de renúncia fiscal e outras peripécias congêneres. A expectativa de baixa bilheteria significa menor investimento, menores cachês etc. No Brasil, os mesmos grupos de cineastas, ano após ano, fazem filmes que quase ninguém vê às custas do dinheiro dos impostos sem qualquer preocupação. É o "negócio" menos arriscado do mundo. Ninguém precisa ver, ninguém precisa gostar, o dinheiro da produção está garantido - nós pagamos. E, caso queiramos ver o filme, pagamos novamente.

Os roteiristas e diretores norteamericanos, quando se lançam numa produção independente, geralmente investem sua ousadia na criatividade, no desenvolvimento das personagens, entre outros fatores que costumam constituir a chamada "obra". No Brasil, o cinema-arte é quase sempre a velha criança-com-ranho-escorrendo, no melhor estilo "o filme é uma merda, mas o diretor é um gênio" (a frase, smj, é de Paulo Francis). Há um alento: já fazem filmes legais (sim, isso existe!), como Tropa de Elite, O Bem Amado, entre outros.

Quanto à TV, é importante registrar o esforço da Rede Globo em investir nas séries, uma iniciativa que começou timidamente e agora parece ter ganhado força pra valer. Quase todo dia tem alguma coisa, com roteiristas que fazem cursos e mais cursos lá dentro (sim, eu sei disso, tenho amigos lá) e atores ótimos capitaneando as produções (Latorraca, Nanini, Marília Pêra...). É fase incipiente e talvez o caminho seja natural: a "loucura criativa" superará qualquer patamar das telenovelas, as temáticas evoluirão mais e mais e, assim, teremos mais espaço para coisas boas e bacanas. Por ora, temos um começo. Mas é um bom começo.

E sim, eu sei, mesmo os seriados criativíssimos dos EUA estão sujeitos à audiência, pois muitas vezes são cortados na falta dela. Isso é ruim? Para o fã, sim; para o mercado em geral, não. Quem se presta a fazer um produto para a MASSA, tem que ter em mente algo que AGRADE À MASSA. E em favor disso está o fato de que muitas e muitas e muitas séries, mesmo "doidas" e "subversivas" permaneceram no ar por anos e anos (em horário nobre). A razão? DAVAM AUDIÊNCIA.

Deveriam aplicar essa regra ao cinema nacional, guardadas algumas óbvias proporções. Produtores de cinema teriam direito a uma ou duas oportunidades de usar renúncia fiscal e mecanismos de isenção. Depois disso, É POR CONTA PRÓPRIA. Que mania é essa de impor as coisas ao povo? Que "entendedores do povo" são esses? E nem venham com lenga-lenga em defesa da arte. Os mesmos que reclamam das "oito famílias que controlam a mídia" às vezes têm a pachorra de defender as "oito produtoras" que recebem toda hora uma nota preta de dinheiro dos nossos impostos para fazer filme que ninguém vê.

Já que é Pão e Circo, deveriam fazer espetáculos ao gosto do povo, em vez de somente levar uma grana sem agradar à patuléia. Que tal?


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transubstanciado por gravata às 18.11.10 | 6 comentários



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Comentários:


Comentário de: Alex

É o conforto das leis de isenção que não dão espaço, como tu citou, são sempre as mesmas proturas e as vezes os mesmos diretores, fazendo 'curriculo' com a coisa pública, mas na maioria dos casos sequer tornam a 'coisa' que fizeram pública.

Quanto a TV, acho legal o esforço do pessoal da Globo em estimular a produção, bom seriam como lá se apoiassem ainda mais as produtoras de conteúdo, essas sim estariam mais livres e com o know-how adquirido ao longo do tempo, se tornariam aptas a produzir boas coisas pra TV.

Abs!

PermalinkPermalink 18.11.10 @ 17:03



Comentário de: Isa

Eu acho que, se o cara não gastou pra fazer o filme (foi pago com incentivo do governo), então o filme devia ser de graça, afinal, já pagamos por ele.
Ou então deveria existir um acordo pra devolver o incentivo com a bilheteria do filme. Assim o dinheiro volta e o produtor se obriga a fazer um filme que preste.
Todo mundo reclama que brasileiro nao valoriza o cinema nacional, mas nâo valoriza porque é chato e feito por moleques mimados que se acham a reencarnação do Kurosawa (mas só sabem ser chatos)

PermalinkPermalink 18.11.10 @ 20:45



Comentário de: nono · http://não tenho

Infelizmente na TV americana, ta tdo caminhando pra se equiparar ao cinema d la...nao saem mais da trinca - med drama/legal drama/policial, so quem ainda arrisca akgo diferente eh a fox...daki a pouco dramaturgia la so na tv fechada!!!reality show eh estupidamente mais barato!e eles num esperam mais nada, teve serie nova com 2 episodios sendo cancelada!!!seinfield so foi dar audiencia na 3a temporada...


Qto as series da Globo: eqto proibirem palavrao sexo e tematica adulta aqlo vai ser 1 merda. Se bem q eles fazem minisseries excelentes.Sitcom eh 1 negocio q nao sei pq nao acertam fazer no brasil, impressionante isso! Mas Mandrake na HBO foi foda!!

PermalinkPermalink 18.11.10 @ 20:57



Comentário de: adoro mercado

Concordo geral. Só discordo de uma coisa: não vejo nada de bom em nada do que a Globo faz, seja nas séries, minisséries ou qualquer outra merda. Na minha opinião é tudo porcaria. Não venha me julgar com o velho refrão: "ah, você é antiglobo?" Não sou não, sou antimerda e a globo o que tem é merda, assim como todas as demais emissoras (estas pior ainda).

Também acho que a meia dúzia de cineastas que se aproveitaram do dinheiro público deveriam é devolver a coisa toda e fazer filme pro mercado, que as pessoas gostem de ver, filme que dê lucro.

Aliás, também acho que a globo deveria devolver o que ela ganhou na época dos milicos (que foi muita grana!) com juros e correção monetária. Aí sim, estaríamos legal com as regras do mercado.

PermalinkPermalink 23.11.10 @ 15:18



Comentário de: maura

Gravata: és um babaca!
Tô de saco cheio de gente que fala mal do Brasil, retratando-o exatamente como os meninos de nariz escorrido dos filmes nacionais. Que coisa chata e antiga baixa auto-estima nacional. A música brasileira é admirada no mundo inteiro SIM, a cozinha é deliciosa SIM e tudo isso como os filmes em todo o mundo: bons e ruins. Assim como os filmes e séries americanas, os franceses e italianos e ainda noruegueses e afins - só Deus sabe quanto lixo vê-se tbm por lá. Só errando se acerta, muito fácil é não fazer nada e ficar apontando só o que não dá certo.

(Gravz: Nunca saiu do Brasil. No máximo, Miami ou Buenos Aires. Bjo, fica bem)

PermalinkPermalink 24.11.10 @ 18:13



Comentário de: BragaMatta · http://www.twitter.com/BragaMatta

Muito boa a colocação, embora o início do texto seja exagerado e fundamentado em emoção. Mas tá tudo bem!

PermalinkPermalink 27.11.10 @ 22:43



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