DEVEMOS PUNIR AS PIADAS OU OS EXCESSOS?

09/11/2010

DEVEMOS PUNIR AS PIADAS OU OS EXCESSOS?

Voltemos (rapidamente, juro) ao "Caso Mayara": ela não fez piada alguma, não foi meramente uma transgressora e é no mínimo imbecil recorrer aos protestos contra o politicamente correto para socorrê-la quanto ao crime cometido (sim, foi crime; sim, merece processo e, se for o caso, haverá punição). Ela disse, com todas as letras e de forma inequivocamente expressa que deveriam MATAR nordestinos (afogados!). Talvez esteja arrependida, espero que sim. Mas disse.

Sigamos.

Hoje, chegou a hora e a vez de Giannechini (espero ter acertado a grafia de seu nome) ganhar suas anedotas porque fez uma propaganda para uma loja de nome "PINTOS". Qualquer pessoa receberia piada porque, em que pese a existência desse sobrenome ou o filho da Dona Galinha receber tal nomenclatura, tal denominação é popularmente empregada à genitália masculina. Assim como "pau" também pode ser um pedaço de madeira, vamos dizer.

E então começaram as piadas (muitas ruins) e os excessos (quase todos inaceitáveis). Na minha opinião, é preciso diferenciar essas duas coisas, porque são mesmo distintas e é aí que está a raiz de um problema fundamental na aplicabilidade da regra básica do chamado "politicamente correto". Não é a "piada" que faz mal (mesmo quando ruim), mas o EXCESSO. Toda e qualquer circunstância do nosso cotidiano pode ser alvo de anedota, bem como também pode dar subsídio para crimes contra a honra, ser objeto de preconceito ou discriminação.

O que se faz no Brasil, porém, remete à história do sofá: pega-se alguém traindo em referido móvel e, para evitar futuras traições, ele é jogado no lixo. Desse modo, proíbem TODA E QUALQUER PIADA sobre determinadas regiões, pessoas, tipos e assim por diante. Até as mais inocentes - e, sim, EXISTEM AS INOCENTES (e até as boas, pois sim!). Cria-se um ambiente de patrulha, uma coisa meio policialesca, e é esse o lado negro (opa!) da correção política.

Vetar completamente toda e qualquer referência jocosa a determinado grupo é, antes e acima de tudo, pressupor sua inferioridade (e, claro, de forma equivocada). Quem faz isso já parte do pressuposto que essas pessoas são menores e não podem nem ser objeto de piada - tudo por culpa dos excessos, vale insistir. E não há sociedade democrática livre que sobreviva sem humor livre. Elas sobrevivem, isso sim, sem passar das "linhas vermelhas" do bom-senso.

Se um estabelecimento comercial ironicamente possui nome usado pelo povo para apelidar um órgão sexual, desculpem, não há problema em fazer chacota de quem aparece num vídeo dizendo algo ambíguo a respeito da loja. Esse, a meu ver, é o campo permitido pelo humor saudável (bom ou ruim, mas razoável do ponto de vista civilizado). Daí a mandar matar, esfolar ou acabar com a existência de todo um grupo vai longe - e não há sentido em ACABAR com todas as referências jocosas e humorísticas.

Mandar matar determinado grupo é o excesso que deve ser evitado, julgado e, se for o caso, punido de acordo com a lei. Tudo isso para que a sociedade sobreviva de forma democrática e, entre outras coisas, consiga exercer seus direitos em plenitude, entre eles o da liberdade de expressão - permitindo piadas sobre todo e qualquer grupo.

Até porque, quando TODOS os grupos são objeto de piada, não há discriminação expressa. Mas à medida em que se determina a PROIBIÇÃO de se produzir anedotas contra esta ou aquela categoria, cria-se subgrupos protegidos de forma um tanto teratológica (quando a proteção deveria recair apenas em razão de quem extrapolasse a razoabilidade).

Proibições desse tipo, no fim das contas, não evitam nada. Tudo prossegue, mas apenas de forma escamoteada, e as agressões também. Quando se tenta evitar APENAS o que é agressivo, permitindo que toda categoria ou grupo possa ser alvo de brincadeiras sem qualquer teor mais acentuado, talvez consigamos dar um passo menos equivocado na patrulha coletiva e, ao mesmo tempo, isolar aqueles que "não sabem brincar" de sociedade democrática - sem que tudo pareça uma ditadura.

"Ah, mas como saber o que é excesso?" - o Poder Judiciário está aí para isso, as leis são feitas também para isso e, acreditem, essas instituições são melhores que os linchadores de ocasião, esses que atualmente povoam algumas redes sociais em busca de justiçamento na base de tumblr, hashtag e afins. Chega de queimar sofá, né?


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transubstanciado por gravata às 09.11.10 | 1 comentário



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Comentários:


Comentário de: Arthur Golgo Lucas · http://www.arthur.bio.br

O problema, meu caro, é que "bom senso" é aquilo que o Criador distribuiu melhor em todo o universo: todo mundo quer mais saúde, mais riqueza, mais beleza, mais força, mais inteligência, mais longevidade... mas ninguém quer mais "bom senso" do que já tem.

Aí fica meio difícil confiar que "bom senso" seja um bom criterio de avaliação para definir "excesso".

E o Judiciário já fez cada uma que Deus me livre acreditar que nele exista bom senso! (Lembras da mãe presa por dois anos devido ao furto de um pote de margarina, que acabou perdendo a guarda da filha por conta da iluminada decisão de um "meritíssimo" juiz?)

PermalinkPermalink 09.11.10 @ 18:06



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