XENOFOBIA E AS REAÇÕES SELETIVAS
04/11/2010
XENOFOBIA E AS REAÇÕES SELETIVAS
Sob qualquer ponto de vista razoável e minimamente humano, é indefensável a atitude da garota no tuíter, que não apenas ofendeu os nordestinos, mas cometeu crime previsto na Lei Anti-Racismo, incidindo especificamente na "ofensa à origem". E, para tristeza geral, muitos idiotas seguiram esse pensamento estúpido, dando repercussão à ofensa de forma quase generalizada - quase sempre tendo como "desculpa" a eleição de Dilma.
Quando ocorre esse tipo de babaquice, sobretudo ofensas contra uma coletividade e comportamentos "de ódio", é natural haver reações exageradas (e foi o que houve). O tuíter se transformou numa verdadeira praça de guerra de opiniões e, exageros à parte, considero positivo o fato de que a grande maioria tenha reagido CONTRA as posições discriminatórias e preconceituosas.
Sim, é claro, em alguns momentos ficou parecendo que a Vila Madalena havia se transformado numa embaixada de Caruaru e o Baixo Augusta se tornara um pedaço paulistano de Juazeiro do Norte, haja vista a mistura de ufanismo às avessas, oportunismo discursivo e outros que tais. Mas o saldo é positivo, não se pode negar. São jovens, ora, e tendem ao exagero - fazem isso combatendo opiniões discriminatórias de outros jovens que tristemente exageram no sentido oposto.
Mas é chato, porém, quando aparentemente quase todos silenciam diante de casos talvez mais sérios (e, sim, é possível dizer que alguns são "mais" ou "menos" graves). Vejamos, por exemplo, o amado e idolatrado Morrisey, da banda The Smiths, e seu racismo e xenofobia explícitos. Em 2007, soltou declarações espantosas e merecedoras de pelo menos 20 tumblrs anti-xenofobia (não ganhou nenhum, curiosamente... - e olha que já tinha armado presepada xenófoba na década de 1990).
Disse que a Grã-Bretanha havia "perdido sua identidade" por causa do "elevado nível de imigrantes". Alegou que não poderia viver em uma Inglaterra "perdida para uma explosão de imigrantes" que seria "só uma lembrança agora" (na ocasião, morava em Roma). Prosseguiu: "Outros países mantiveram sua identidade básica, mas me parece que a Inglaterra jogou a dela fora".
E disse mais: "A mudança na Inglaterra é tão rápida, comparada com as mudanças de qualquer outro país. Se você andar por Knightsbridge em qualquer hora e dia da semana, você não vai ouvir um sotaque inglês. Você vai ouvir todos os sotaques que existem sob o sol, exceto o sotaque britãnico. A identidade britânica é muito atraente. Eu cresci dentro dela e acho-a rara e divertida".
Neste ano, talvez para dissipar quaisquer dúvidas, o líder da célebre banda d'antanho alegou que os chineses seriam uma subespécie, em razão do fato de que maltratam animais (ele gosta dos bichos, não tanto quanto de indianos e nativos do extremo-oriente, como se vê).
Vila Madalena não vestiu a camisa de Mumbai. Baixo Augusta deu de ombros para Beijing. Nem toda xenofobia será castigada.
Essa proteção aos ídolos lembra um pouco aquele caso do Polanski, quando chegou a ser defendido - sim, DEFENDIDO - pelo fato de ter toda uma obra e de haver "todo um contexto" (sei lá o que é isso, mas foi o que disseram). E alguns desses blogs, por sinal, desceram a marreta na menina que xingou os nordestinos (talvez porque, para tais escribas, o crime de opinião seja mais grave que estuprar uma garota de 13 anos). Morrisey também passou batido.
Se a menina tivesse gravado discos ou feito filmes, eu e alguns outros seguramente não a perdoaríamos, mas toda uma multidão provavelmente teria silenciado ou até mesmo saído em sua defesa. Nesses casos, como dizem, HÁ TODO UM CONTEXTO.
É mole?
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transubstanciado por gravata às 04.11.10 | 5 comentários
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Comentários:
Se eu disser qualquer coisa além, será chover no molhado.
"Apenas" concordo e me revolto tanto quanto você!
Abraço!
(Gravz: Você tem certeza de que foi corretamente alfabetizado? Leia o texto com atenção, por favor. Está lá, com boa clareza, minha CONDENAÇÃO do ato, em vários graus e instâncias. E, mais ainda, TAMBÉM condeno outros, bem mais graves. Preconceito, discriminação e xenofobia, para mim, são graves INDEPENDENTEMENTE da nacionalidade, do nacionalismo, do ufanismo e demais babaquices. Daí vc fala em "cumplicidade" e até "CONIVÊNCIA"? Ah, cara, na boa? VAI TOMAR NO CU)
enquanto que aqueles da laia "são paulo para os paulistas" (wtf)vão se condoer pela desproporção que o caso tomou.ela só esta se expressando, afina de contas.
mayara petruso é o proprio jesus cristo. no pior sentido do termo.
Eu concordo que o caso do cantor é tão grave quanto. Mas discordo que seja mais grave (também acho que há casos mais graves, só não considerei este, especificamente).
Talvez 'grave' não seja a melhor palavra na diferenciação dos dois casos. Comum seria melhor. A Europa e os europeus tem muito mais casos (até porque falo do continente e não apenas da Inglaterra) de xenofobia que o Brasil.
Aqui temos uma questão cultural que vem, em minha opinião, muito mais do preconceito de classe (pobres x ricos, sem conotações marxistas, por favor) do que de territótio mesmo.
A questão Sul e Sudeste x NE acaba sendo um pouco isso. Existe, por exemplo, uma certa xenofobia por parte do Sul com o SE e não vejo, eu pelo menos, a raiva e ódio tão presentes como no caso da menina ignorante.
Acho que o fato toma proporções maiores também pela proximidade regional e pela proximidade com um assunto tão presente como as eleições...
Abraços
(Gravz: A Europa tem uma tradição de preconceito, e é impossível falar disso sem citar nazistas, neonazistas etc. Verdade. O Brasil, porém, não fica tão longe, servindo de base também neonazistas daqui - que existem! - e movimentos fascistas e correlatos do início do século passado. Além disso, há organizações separatistas e toda sorte de preconceitos e discriminações, expressas e veladas. Ainda bem, por muita sorte nossa, essas pessoas compõem uma fração minoritária da população. Mas não vejo, afinal, como mensurar a "gravidade" pelo fato de algo ser mais ou menos "freqüente" numa ou noutra região. È como dizer que uma mulher apedrejada no Brasil seria mais digna de atenção que aquela do Irã. Para mim, os dois casos são graves - porque são casos IDÊNTICOS. Então, por que o do Morrisey é mais sério? Simples: ele é um FORMADOR DE OPINIÃO, a estudante no tuíter é uma pobre-coitada. Além disso, ele cometeu a xenofobia, em caráter público, por TRÊS VEZES - ela, somente uma [o que é gravíssimo e imperdoável, sem dúvida]. Temos aí, portanto, uma amplitude maior e mais repetições - além dele ser, ao menos teoricamente, alguém de mais esclarecimento e "intelectualmente" mais bem posto perante a sociedade. Tudo isso, na minha opinião, torna o que o cara fez MUITO mais grave. Não que a garota tenha feito algo SEM gravidade. É gravíssimo ainda e ela MERECE ser punida, espero mesmo que seja. O centro do texto - e é disso que falo o tempo todo - resume-se a uma única coisa: PESSOAS QUE IGNORAM COISAS GRAVÍSSIMAS PARA FAZER HISTERIA DIANTE DE OUTRAS DE REPERCUSSÃO NO TUÍTER. Pegou, agora?)
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