"NOME", ARNALDO ANTUNES

29/10/2010

"NOME", ARNALDO ANTUNES

Em 1993, recém-saído dos Titãs, Arnaldo Antunes lançou seu projeto "Nome", livro-vídeo-CD, com poemas musicados, músicas-poéticas ou videopoemas, ninguém tinha muita idéia - ou até hoje se tem - do que seria/é aquilo tudo. Eu, com dezessete anos incompletos, achei o máximo, gostei de verdade (ainda gosto). Acho que é seu melhor trabalho (faça-se justiça, o projeto é assinado também por Kiko Mistrorigo, Célia Catunda e Zaba Moreau).

As "coisas do Arnaldo", nos Titãs, eram sempre as mais diferentes, isso desde "Cabeça Dinossauro", como a canção "O Que", passando por "O Pulso" e evidências autorais mais explícitas no último álbum enquanto integrava o grupo, "Tudo ao Mesmo Tempo Agora". Havia, é claro, certo suspense sobre sua carreira-solo, mas ninguém duvidava de certo experimentalismo.

Se não me engano, a MTV lançou com exclusividade um especial de uma semana com os vídeos, além de entrevistas e outras curiosidades e, em seguida, livro-vídeo-CD estavam disponíveis para a rapaziada. Os de sempre elogiaram (de Caetano Veloso, Gilberto Gil a Washington Olivetto e Tuffi Duek - que estampou algumas frases em camisetas da Forum) e também os de sempre caíram matando (críticos em geral, jornalistas etc.).

E eu, novinho e sem entender nada, apenas gostei muito e ainda gosto. Não sei se entendo nada ou se é para que "entendamos" algo. Acho legal e bonito, não tenho vergonha de dizer isso, nem tenho vergonha de dizer que algumas coisas não entendo. Eu gosto, e minha relação com a arte em geral e a música em especial é essa: eu gosto e pronto (ou não gosto, e pronto também).

Aí vão algumas de minhas favoritas, com alguns comentários:

Nome
Faixa-título e também poema do livro, acho divertida pela forma com que converte poesia em rock, provavelmente fazendo caricatura de si próprio já que é/seria um poeta-roqueiro - e a melodia é bacana.

Entre
Gosto da idéia e dos dois poemas fundidos em duas melodias, além da participação de Péricles Cavalcanti.

Pessoa
É o "grande momento da poesia concreta", vamos dizer. Enquanto um poema aparece na tela, o próprio Arnaldo lê outra coisa, na verdade uma análise ora sintática ora morfológica do texto.

Imagem
Gosto do poema, da forma como foi 'musicado' e, novamente, ótima participação de Péricles Cavalcanti.

Pouco
Um verso, apenas, convertido de forma simples e cantado de maneira a sempre suprimir uma das palavras - que é completada pelo vídeo.

Diferente
Melodia difícil (ou "diferente", ou "chata", mesmo). Eu gosto porque fala de super-heróis e figuras extraordinárias do mundo da ficção. No vídeo, eles aparecem na tela; no CD, Arnaldo entoa cada nome, são eles: Jaspion, Spock, Cyborg, She-ra, Chewbacca, Wolverine, Mun-ra, ET, He-man, Jor-el, Mentor, Ewok, Thor, Condor, Namor, Arkon, Jyraia, Darth vader, Thanos, Yoda, Ajax, Urko, Lex luthor, Wizz-ra, Alien, Frankenstein, Gremlin, Ciclope, Warlock, Batrok, Fênix, Cheetara, Skywalker, O coisa, Changeman, Elektra, Erchamion.

Acordo
Seria uma espécie de HaiKai, mas não no sentido mais clássico e rigoroso (o legítimo teria as dezessete sílabas, temas da natureza etc.). Mas, enfim, são três versos e conexão entre eles, com uma montagem interessante no vídeo e melodia divertida.

Cultura
Esse poema é do livro anterior, "As Coisas", com definições lúdicas sobre alguns bichos e Marisa Monte participa da música - ela participa de outras duas: "Alta Noite" (gravada também em seu disco "Cor de Rosa") e "Direitinho". Essa, "Cultura", acho o máximo.

E é isso. Sei que muitos detestam, mas eu gosto demais de Arnaldo Antunes, principalmente de "Nome", seu primeiro disco, lançado como CD-vídeo-livro. Não sei se todos conheciam, mas vale dar uma olhada, sobretudo pelo fato de, já em 1993 ser algo "novo" mesmo comparando aos padrões atuais.

Gostando ou não de determinados músicos, poetas e afins, a arte precisa de quem cria e inventa, e não apenas de quem repete e adota alguns esquemas. De lá pra cá, infelizmente, muito pouco se criou. Fora que Arnaldo Antunes vinha da confortável posição de popstar de banda consagrada.

E as "novas gerações", infelizmente, hoje em dia são "novas" apenas na idade, não pelo que criam ou desenvolvem. Isso é triste.


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transubstanciado por gravata às 29.10.10 | 2 comentários



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Comentários:


Comentário de: Guilhermera

Testemunha ocular e auditiva de tal ensejo... Abraço

(Gravz: Opa! Guilhermera estava lá! :D)

PermalinkPermalink 30.10.10 @ 13:34



Comentário de: Expedito · http://www.twitter.com/expeditopaz

Lembro bem dos especiais da MTV na época, e a crítica, que já tinha má vontade com qualquer coisa vinda dos Titãs, caiu de pau com força no trabalho. Talvez se lançado hoje em dia fosse melhor aceito...

PermalinkPermalink 23.10.11 @ 02:13



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