AMIGOS: AME-OS E DEIXE-OS TERMINAR A RELAÇÃO
22/10/2010
AMIGOS: AME-OS E DEIXE-OS TERMINAR A RELAÇÃO
Pessoas são felizes quando se juntam e, quando a relação perde a razão de ser, voltam à felicidade quando se separam. A regra parece simples, na verdade é muito simples, mas muitas vezes a tornamos por demais complexa com nossa mania de meter o bedelho - seja por pura e simples intromissão ou atendendo ao pedido dos amigos quanto a dar conselhos.
Nosso instinto é sempre o mesmo, salvo raras exceções: FIQUEM JUNTOS! É isso que sempre dizemos, não adianta negar. Queremos que casais amigos não se separem, e amigos não querem que nos separemos, para que assim os "grupos de casais amigos" permaneçam como estão. É uma idéia coletiva de felicidade muito mais fincada no teatro público de suposta alegria que na realidade da tristeza legítima das relações íntimas.
Por que tão poucos, ou quase ninguém, os aconselha a separar? Por que essa "dica" é tão rara, mesmo diante da felicidade nítida percebida depois de tantas e tantas separações? - a partir das quais, aliás, é possível começar outros casos, romances, paixões e amores... Insisto nesse chute de que seja um "instinto", provavelmente algo covarde ou conformista, mas também pode ser a idéia errada que fazemos por ver o quadro "do lado de fora", mesmo conhecendo nossas relações por dentro, intimamente, e sabendo que há motivos bastantes - e bem reais - para dar fim a tudo.
Mas a idéia que temos de "conselho de amigo", quase sempre, é a de que é preciso "dar mais uma chance", muitas vezes subsidiando a opinião em premissas como "ainda há amor" ou "é possível reconstruir as coisas". São bobagens genéricas e inúteis, exatamente aquilo que se quer ouvir, e tudo que se pode dizer para não soltar o óbvio: "termina logo essa bagaça porque aparentemente a vaca já foi pro brejo faz tempo".
Há um problema aí, é verdade. O casal pode terminar a relação e, se um dos dois estiver menos inclinado a isso, o "conselheiro separatista" poderá ser visto como semeador de discórdia (pessoas são mesquinhas e covardes, escondem o fracasso da vida a dois e facilmente culpam algum outro). Também por isso, arrisco dizer, é melhor simplesmente usar alguma platitude discursiva quando nos perguntam o que fazer diante de crise amorosa terminal.
Afora tudo isso, já que cabe a cada casal decidi por si (ou a cada pessoa, dentro do casal), não deixa de ser curioso que tenhamos um instinto ou mania de sempre protestar pela continuidade, quando ousamos tomar algum partido em vez da neutralidade - raramente alguém, de forma clara, fala em favor da separação (exceto quando alguém trai ou comete falta gravíssima).
Daí, depois que finalmente resolvem separar e nota-se muita felicidade nos olhos da pessoa aconselhada a manter-se na relação, quem deu o conselho anterior não faz 'mea culpa', mas comemora a nova fase e muitas vezes a aplaude, até mesmo esquecendo que torceu muito em favor do contrário.
A atitude padrão, conosco ou com os outros, parece ser sempre a inércia. Ainda bem que a coragem vez por outra é aplaudida. E não adianta sofismar dizendo que 'coragem' é lutar por uma relação falida, pois seria puro exercício retórico. Difícil mesmo é continuá-la, quando é o caso, enfrentando de verdade os problemas reais. Em geral, toca-se de lado e empurra-se as coisas para debaixo do tapete, quase sempre adiando o problema. E nós, de fora, aconselhando a "dar mais uma chance" e "não terminar".
Como naquela analogia da água gelada, usada para os casamentos e relações, valendo agora no sentido de segurar os demais para que não saiam da piscina enquanto tentam com pequeno esforço fazer isso.
Talvez isso seja bom, no fim das contas.
Não sei até que ponto o mundo seria mais feliz sendo menos hipócrita. As pessoas são todas mentirosas, e a mentira coletiva talvez reflita uma necessidade existencial de toda a sociedade. Muitas verdades, e todas de uma vez, provavelmente não faria bem. Fiquemos assim, com nossa preguiça, inércia e pedidos de conselhos que são, na verdade, pessoas implorando para que ninguém lhes fale com sinceridade.
Ah, sim. Eu sou falso quando me perguntam sobre suas relações. Quem sabe disso é o próprio casal e não sou trouxa para bancar o "pivô" de separação alheia. Aconselho a todos que façam o mesmo. Cada um que cuide da sua vida. Conselho é bom e é muito bem pago quando se trata de consultoria. Conselho amoroso na vida sentimental das pessoas, acreditem, não presta. Soltem no máximo qualquer abstração neutra e mudem logo de assunto.
Sejam falsos. O mundo gosta assim e, quando alguém pergunta, é porque quer ouvir exatamente isso.
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transubstanciado por gravata às 22.10.10 | 9 comentários
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Comentários:
Tempão que não passo por aqui,mas ao ler no twitter,me chamou a atenção.
O fato de passar por esse processo me dá direito de concordar com você.Ninguém deve se intrometer,ou fazer 'o deixa disso' em uma relação.
Cansa,constrange e no final o casal se separa mesmo.Em alguns casos,a amizade 'conciliadora' vai para o espaço.Eu fiz assim com todos...rs.
Beijo!
Claro que precisamos de mentiras. Mentiras vitais, dizia o psicanalista Ernest Becker. Faz parte da nossa condição de humana: 'o criar sentidos'.
Eu compartilho da sua postura e, por vezes, não me contenho até com meu próprio companheiro. Várias e várias vezes ele me disse: 'Van, não era isso que eu queria ouvir. Acho que preferiria que vc estivesse mentindo'
A sinceridade dói e contribui ao desgaste do próprio relacionamento. E isso falando de um casal, não de uma pessoa de fora, de um amigo.
Quando desejamos conversar com um 'outro alguém', acredito que nem seja pra fazer dele um interlocutor dos nossos problemas, mas mais pra desabafar mesmo. Pra constatarmos que nossas mentiras são somente mais uma em meio à tantas.
Ó, juro que tem hora que desejo virar uma ermitona. Seria considerada uma louca varrida, mas pelo menos estaria sendo absolutamente sincera comigo e com os outros.
Quer me odiar depois? Odeie. Mas não dou conselhos que fodam minha consciência, ou não deixo de dar minha verdadeira opinião quando é pedida.
Quem me conhece já sabe que eu falo, se perguntou, aguenta!
A verdade dói, mas muito menos do que uma vida de mentira.
Já escutei verdades horríveis e superei. A gente precisa delas. O que não supero é ser enganada - nem por mim.
Eu gosto de fazer a minha conta na realacao que é muito simples: colocar ao lado as coisas negativa e positiva e vê qual é a maior. ...ahaha..
Amo meu marido e meu filho !!!
Um grande beijo Ekorren och Naten, träleksaker!!
Não vale a pena ser conselheiro sentimental de ninguém. Para isso, existem os profissionais, como voc~e bem citou!
Beijos, Gravz!
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