DOUTORES E DOUTORES
21/08/2010
DOUTORES E DOUTORES
Uma das coisas mais cafonas de ser advogado - e coisas cafonas não faltam na carreira jurídica - é essa coisa de chamar de doutor. Não gosto, acho chato, é risível. Mas não tem jeito: mesmo durante a faculdade há quem se trate dessa forma, uns a sério e outros por pirraça.
Daí, como sempre, surgem os soldados do Batalhão da Obviedade, sacando da manga aquela observação manjadíssima segundo a qual "doutor são os detentores de doutorado". Não, não são. Por mais que seja ridículo (e é) chamar advogado e médico dessa forma, o valor semântico originário remete à sabedoria e, no plano acadêmico, à capacidade de passar um ensinamento.
A palavra "doutor" deriva de "douto" e, nesse sentido de ensinar, é datada do séc. XIV. Nessa época, como se pode presumir, não havia a graduação acadêmica, mas já se tinha noção do significado de "sabedoria" e "ensinamento" - nesse caso, algo próximo de um preceptor, talvez, como Aristóteles ou Gamaliel, para ficar em dois exemplos históricos tradicionais (que não tinham 'doutorado' e eram pra lá de 'doutos').
Essa bobagem de chamar qualquer advogado e médico de doutor, aqui no Brasil, vem do fato de que as faculdades de direito e medicina foram as primeiras do país. Os jovens 'doutos' d'antanho eram assim chamados e, bom, o resto é história. Qualquer Zé Ruela vira doutor com um desses dois canudos nas mãos.
E somos mesmo um país mocorongo na adoção desses tratamentos, como deixa claro a palavra "senhor", usada no lugar de "você". A palavra usada como mais 'educada' é, na verdade, uma forma de tratar a pessoa em função de suas posses. "Senhor" é dono, proprietário. "Você", ao contrário, deriva de "Vossa Mercê" (vossemecê, vosmecê etc.), que seria a pessoa pelo que ela é.
Para completar o caldeirão imbecil, além de consagrarmos o sinal de respeito pelo "proprietário" em vez da pessoa por sua própria integridade, ainda por cima inventamos de trocar a segunda pela terceira conjugação verbal no uso do "você". Lambança máxima e quase inexplicável.
Por fim, nos dias de hoje é moleza ser doutor (direito/medicina) ou doutor (graduação acadêmica). Há faculdades em todas as esquinas, dessas que dando duas voltas no quarteirão já se passa no vestibular e, também, mestrados e doutorados a rodo. Se antes era ridículo brigar por isso, agora o motivo já se tornou folclórico.
Virou tema para blog, mesmo.
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transubstanciado por gravata às 21.08.10 | 8 comentários
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Comentários:
(Gravz: Sim, direito é brabeira, tô falando esses cursos mais zoados)
No caso de "doutor", infelizmente, a conotação de sabedoria é que está caindo em desuso. Isso porque qualquer Zé Mané se acha no direito de exigir ser chamado de doutor apenas pelo fato de ser graduado nas faculdades referidas. E nada mais.
Como você mesmo disse, "você" vem de "vossa mercê". "Vossa mercê" sintaticamente é algo que é do interlocutor mas não é ele em si. É algo que está de fora da conversa - terceira pessoa, pois. Idem para "Vossa majestade", "vossa excelência", "vossa santidade" etc etc.
Sem mistério
(Gravz: Sim, CLARO que é pronome de tratamento e não pessoal do caso reto, de modo que não segue a conjugação própria deste último. Mas o dado curioso - e mencionado no post - é o interlocutor ser tratado PELA TERCEIRA PESSOA. É um diálogo de bagunça sintática, algo como "sua pessoa vai" em vez de "tu vais", mas já consagrado ao longo dos anos. Em termos lingüísticos chega a ser até sofisticado, pois é uma síncope de "vossa mercê" e todo o uso da terceira pessoa verbal remete a uma grandiloqüência verbal, mas no fim é para facilitar porque não somos habituados às flexões e formas verbais da segunda pessoa- Em tempo: é "Sua Santidade"
)
(Gravz: E aí, salvo melhor juízo - preciso mesmo pesquisar -, é outra raiz, não a de preceptor. A discussão aqui é sobre o "douto", do conhecimento, que o detém e/ou seria capaz de transmiti-lo, e toda o debate disso decorrente)
Brincadeiras à parte, o verbete da wikipédia sobre doutorado é bem explicativo dessas origens.
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