LOST: A GRANDE CAGADA DO ÚLTIMO CAPÍTULO
31/05/2010
LOST: A GRANDE CAGADA DO ÚLTIMO CAPÍTULO
O texto sobre o último capítulo de LOST, e todo o encerramento da série, gerou uma porção de comentários, alguns deles negativos, o que merece debate mais pormenorizado. O tema sem dúvida é bobo, mas estamos aqui exatamente num blog de temática mocoronga e, portanto, foro adequado. Sigamos.
Mundo dos Mortos x Mundo Real
No último capítulo, e SOMENTE NELE, foi-nos apresentada a hipótese do limbo, ou seja, todos estariam mortos no universo em que o avião não caiu. Alguns falam em "purgatório", mas é preciso perdoar a ignorância alheia, pois tal circunstância presume "purgar" pecados e, como sabemos, alguns dos perdidos chegaram a cometer homicídios em tal universo.
É importante salientar que a narrativa, em LOST, mesmo se tratando de um seriado, é "linear". Em suma: o último capítulo deve obedecer àquilo estipulado pelo primeiro, ao menos quanto ao proposto pela última temporada. Seria um "limbo"? Ok, então recapitulemos uma cena importante do primeiro episódio dessa última etapa:
Agora, detalhe da mesma cena:
Não se trata de uma visão de fulano ou cicrano, mas de plano seqüencial mostrado exclusivamente ao telespectador. A função ÚNICA desse tipo de recurso narrativo é transmitir informações concretas, algo similar ao "off", fazendo com que "saibamos" mais do que as personagens. Ninguém ali, portanto, teria essa informação: "o avião de vocês não caiu e, mais ainda, existe uma ilha com estas e aquelas propriedades, e há tubarões gravados com a logomarca de uma tal Iniciativa Dharma blablabla".
NADA DISSO SERIA PLAUSÍVEL NUM MUNDO ONÍRICO, NUM LIMBO OU UNIVERSO CRIADO PELA COLETIVIDADE DOS SONHOS APÓS A MORTE DE TODOS ELES. Naquele momento, todos os roteiristas não tinham planejado coisa alguma nesse sentido. É mais do que óbvio. Estão aí os fatos.
Ao longo da temporada - e vale reiterar que são poucos dias numa narrativa LINEAR -, vários fatos acontecem CONTRARIANDO A DINÂMICA PROPOSTA NO CAPÍTULO FINAL. Uma série deles, por sinal. Vamos pela ordem, retrocedendo um pouco.
Como surgiu o "universo paralelo"? Por meio de uma teoria de Daniel Faraday, segundo a qual a explosão de uma Bomba H afundaria a ilha e não permitiria a queda do avião - e o que vemos é exatamente o avião sobrevoando o oceano, com a ilha submersa (ninguém mais vê isso, é um dado concreto - "real" na trama). Mas cria-se "duas" realidades.
Na outra, a "verdadeira", pasmem!, ELES SOBREVIVEM À EXPLOSÃO DE UMA BOMBA DE HIDROGÊNIO. A outra, depois vamos saber, é aquela em que todos estariam mortos (!!!). Mas tudo bem, estamos falando de uma série em que uma ilha sofre tremores se não for mantida determinada "rolha de pedra" no final de um "poço de luz" - que, por sua vez, gera uma queda d'água de origem inexplicável.
A questão aqui é apenas uma: demonstrar claramente que o último capítulo não condiz com a narrativa proposta ao longo da temporada. Não apenas "proposta", aliás, mas EFETIVAMENTE ESCRITA. Charlie e Claire estão no mesmo vôo, mas ele só tem o "piripaque da visão" num show, milagrosamente a avistando na platéia.
No início da temporada, atores sem contrato com a ABC ou envolvidos em outros projetos também não estavam no "avião que não caiu". Outros não estavam simplesmente porque os roteiristas não tinham a menor idéia de acabar como de fato acabaram (p.ex.: Libby). E mesmo quem NÃO estava no avião, vejam que graça!, na realidade paralela deu o ar da graça no aeroplano, como é o caso de Desmond Hume.
Mas, novamente, isso é bobagem.
Caso intrigante, mesmo, é o de Sayid Jarrah. Antes de inventarem a baboseira de "limbo" ou "terra dos mortos" ele conseguiu subverter talvez a mais complexa das "leis do céu" (e isso é uma façanha para um seriado que, até então, apenas passava por cima das leis da física): MATOU MORTOS! Quem não se lembra do episódio em que distribuiu pipocos e salvou a pele de Jim?
E as curiosidades quanto ao iraquiano não param por aí. No "mundo supostamente real" ele LITERALMENTE VENDEU A ALMA AO DIABO em troca da mulher de sua vida. Ela sempre foi a coisa mais importante de toda sua existência. Naquele que seria o "mundo inteligível" (platônico, hein?), o que acontece? Ele a vê e nem tchuns. Se fodeu, não era o último capítulo! Tiveram que buscar a Shannon (que não estava no vôo) na "Austrália do limbo" para que o habib passasse pela "epifania lostiana".
Há gente, alegando ter determinadas ligações sinápticas e polegares opositores, dizendo que chorou em cenas como essa. Patético. Comparar esse tipo de ridiculice narrativa com telenovelas é exagero, e uma ofensa aos novelistas, pois nenhuma trama televisiva é tão mal escrita em termos de lógica. O cara passa SEIS ANOS (sim, seis, pois a outra realidade prosseguia) chorando por uma mulher, mas tem epifania por outra de quem nem gostou direito e deu três beijinhos só no migué.
Os exemplos são infinitos e é até cansativo demonstrá-los um a um. É óbvio que, ao começar a sexta temporada, ninguém ali pensava em dar o fim que foi dado. Fizeram aquilo, agora está feito, paciência. Alguns gostaram, muitos detestaram, e uma multidão diz que gostou talvez porque adorariam ter gostado. Mais ou menos como quem torce para um time e, depois de um empate, alega que sua equipe "jogou melhor". Vai entender...
Enfim: o último capítulo não é uma obra isolada. Ele depende, obrigatoriamente, de todos os demais. Eles, juntos, compõem uma única narrativa e, nesse sentido, o texto integral é capenga, desconexo, bagunçado, estropiado. Sem os trilhões de furos desse roteiro furreca, poderia ser um final interessante, mas infelizmente foi uma decepção.
Fomos surpreendidos? Talvez. Mas da mesma forma que se pode surpreender a professora da quarta-série terminando uma redação com aquela coisa de "e, no fim, Joãozinho acordou e viu que tudo não passou de um sonho". Só que nas redações do primário não há clarões.
Sobre as Perguntas Sem Respostas
Houve quem comparasse LOST às obras que deixam algumas dúvidas no ar, como "Dom Casmurro". Nessas horas, o melhor é largar a argumentação e partir para a luta franca, o combate corpo-a-corpo ou meramente dar um pescotapa no interlocutor. Mas, tudo bem, não custa explicar a ABISSAL diferença entre casos tão díspares.
Em algumas obras, há o chamado FINAL EM ABERTO, quando muitas vezes o fascínio consiste exatamente num determinado ponto não esclarecido, SEM PREJUÍZO da grandeza de toda a narrativa. Em outras, há PEQUENAS PONTAS SOLTAS, que ficam a cargo da imaginação do leitor, espectador, telespectador etc. Mas, não custa nada lembrar, estamos aqui falando de um SERIADO DE TELEVISÃO, BASEADO EM MISTÉRIOS CRIADOS POR ELE PRÓPRIO.
Toda a narrativa de LOST sempre foi fundada em perguntas criadas pelos próprios roteiristas, toda a história da série foi edificada em teorias, questionamentos e todo tipo de dúvida que raramente ganhava alguma resposta. Levantar milhões de mistérios e responder apenas dez não é uma virtude do roteiro, mas um fracasso sem tamanho. Não é como conduzir um romance maravilhoso sem que saibamos se Capitu traiu ou não. É um fiasco, mesmo.
Prova disso, aliás, é quando resolvem explicar! Como Richard ganhou a imortalidade? Simples: Jacob deu um tapa em seu ombro, dizendo: "ah, isso eu posso conceder" - depois ganhando um cabelinho branco. Como alguém se torna protetor da ilha? Simples: toma um gole de água que se torna abençoada depois de um cafuné no recipiente (qualquer que seja).
Todas as demais 999 mil questões, porém, ficaram abertas. E, não, isso NÃO É uma virtude do seriado. Isso é falha gritante, é erro, é incompetência.
"Ah, mas na vida as coisas são assim..." - dizem alguns. Pois é, são mesmo. Porque a vida é a vida, e os seriados de mistério são os seriados de mistério. Na vida, por exemplo, não há manivelas que levam as pessoas para anos no passado e pro meio do deserto. E comparar LOST à vida, convenhamos, é até mais risível que fazer as analogias com grandes obras de arte.
No fim das contas, gostei mesmo do final de FlashForward. A série não ia tão bem assim, mas já que acabariam com o show, os roteiristas meteram a mão na massa e deram o encerramento mais casca-grossa dos últimos tempos, quase dizendo: "olhaí o que conseguimos fazer". Em LOST, o recado foi praticamente outro: "isso é o resultado do que NÃO conseguimos fazer".
E nem venham dizer que faço polêmica. Porque fazer polêmica e ser do contra, a bem da verdade, é dizer de cara limpa que o final da série foi "bom". Basta uma passada rápida pelos episódios da sexta temporada para perceber o óbvio: perderam a mão e improvisaram, fizeram cagada e saiu aquela lambança. Para piorar - e muito - não fecharam nem um décimo do roteiro.
Eu que não vou ficar batendo palma pra isso.
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transubstanciado por gravata às 31.05.10 | 14 comentários
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Comentários:
Olha só, no final das contas... Não tinham mesmo!
E realmente, se os roteiros de Flash Forward estivessem por trás da sexta temporada de Lost, as cabeças explodiriam da maneira correta.
PS: Bentinho era viado...gostava msmo era do Escobar...
PS2: Eu ate consigo aceitar as explicacoes "cientificas", de viagem no tempo e no espaco, rodas congeladas, bomba de hidrogenio alterando o futuro, engulo numa boa q varias civilizacoes tenham passado por la sem maiores explicacoes mas nada me deixa mais puto do q a parte Jacob/Esau/Samuel/MIB. Foda resumir a historia a 2 irmaos que nao sabem pq tao la, pq que tem que ficar la, pq 1 briga com outro e o q sobra ta cansado d ficar la resolve cagar a vida d 1 monte d gente.
(Gravz: Não é uma "necessidade", mas o fato de que todos podem falar da série. Tanto os fanáticos que adoram essas coisas quanto os outros, que não amaram o final. E, sim, podemos colocar em A Grande Família - embora seja difícil quando se baixa pela internê. E, agora que acabou LOST, os fãs podem ver Backyardigans, embora a trama seja mais complexa no começo)
Custei a crer q aquilo ali seria o final.
Então aquilo tudo foi um limbo? A hipótese mais manjada de todas? A teoria mais sem graça de todas?
Ah, fala sério.
Tb senti que os roteiristas levaram a história para um ponto onde não conseguiram mais juntar as pontas.
O seriado todo funcionou num nível de expectativa e mnistério, e o final mal parece que é do mesmo seriado, de tão sem nada que ficou.
Concordo com os teus pontos, sem sombra de dúvidas.
Até pensei em assistir as 6 temporadas novamente, achando q eu tinha me perdido no meio da série, mas nem isso não deu mais tesão.
(Gravz: Não era um limbo. Passou a ser APENAS no último capítulo. Mas aí foi barbeiragem, porque o último capítulo, na trama, não tem existência autônoma. Ele depende dos demais para compor uma narrativa. E, observando todos os outros, em especial o primeiro, nota-se que NÃO É LIMBO ALGUM. Inventaram aquilo na pressa e ficou uma bosta. Claro, um fanático por LOST engole qualquer coisa e não tem muito compromisso com qualquer coisa. E ainda chora. Não teve o cara que chorou com a cena da "rolha de pedra na ilha"? Pois é... Temos uma notícia para ele...)
Detalhe que essas pessoas são as mesmas que mergulharam em toda complexidade teórica para especular com mitologia,fisica-quantica,filosofia e tudo mais da trama.È isso ai foram convertidas pelo Jacob.
mas o que menos se via por ai eram teorias sobre "Será que Jack vai se encontrar na Vida?" ou "Será que Ben vai encontrar paz em sua alma?"....
rs realmente não vou ficar batendo palma pra isso.
Perguntinha: não rola um texto sobre o FINAL-ÉPICO-GRANDIOSO-FODÁSTICO de 24 horas?
Nos foruns daqui e de fora (do Brasil), o que vejo é que muita gente se sentiu enganada, sacaneada.
É mais ou menos como em uma locadora, colocar um filme religioso de propósito na seção de suspense.
Quem pegar esse filme com certeza vai se sentir enganado.
Me lembrei, não sei porque, de quando na 3º temporada o Desmond tem uma visão com a Claire sendo resgatada por um helicoptéro, mas para isso o Charlie precisava morrer.
Cade? esqueceram?
E a Charlote? serviu para que?
Diziam que já sabiam o final desde o começo, mas a verdade é que não sabiam porra nenhuma, o que é nítido na explicação porca de Adão e Eva.
Felizmente outro seriado "pseudo-cientifico-com milhões de mistérios" não vai aparecer tão cedo, por culpa da rejeição causada por Lost.
Conheço muita gente que está se desfazendo das caixas das temporadas passadas, já que as temporadas anteriores não tem nenhuma relação com o desfecho da série.
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