PIADAS POLITICAMENTE CORRETAS
05/05/2010
PIADAS POLITICAMENTE CORRETAS
Para muita gente, hoje o mundo está "chato", pois não se pode fazer mais piadas de negros e gays, entre tantos outros tipos clássicos do anedotário d'antanho. Verdade. A depender do enredo do chiste, pode haver discriminação ou preconceito (não, não são a mesma coisa). Mas isso não significa que o mundo seja necessariamente um lugar mais chato.
Geralmente, quando é sobre piadas gays, a queixa é de héteros a respeito da proibição do sarro. E o mesmo vale sobre a bronca diante dos novos tempos, em que não se pode usar os negros como alvo de sátira: geralmente é um branco reclamando. Sim, claro, excepcionalmente algum integrante do "grupo-vítima" resolve apontar exageros. E, claro, HÁ exageros no patrulhamento.
Mas não custa ver as coisas por outro lado. E há muitos "outros lados". O mundo das piadas sempre foi restrito a meia dúzia de alvos, aqueles de sempre, criando alguns estereótipos curiosamente restritos ao mundo das anedotas, como "preto pinguço", "português burro" etc. Há uma série de categorias clássicas sobre as quais até se faz piadas, mas ninguém aceita quando são a elas identificadas.
Vejam o caso do corno. Há anedotas à mancheia, mas tentem fazer uma piada de corno IDENTIFICANDO-O NA RODA. Obviamente, sai briga. E há cornos a rodo nesse mundão, não é mesmo? Muitos, inclusive, querem ter o direito de fazer piada sobre "preto pinguço", mas, compreensivelmente, não toleram a idéia de virar alvo de chacota para todo um boteco caso todos saibam que a patroa sambou na vigota talvez de um negão.
O brocha (alguns escrevem "broxa"...) é outro caso sério. Ele quer a volta dos velhos tempos em que podia soltar um preconceitozinho sem ninguém olhar de lado ou receber reprimendas mais severas, mas não acha de bom-tom ver seus detalhes íntimos revelados. Mas, opa! Fazer piada de quem gosta de dar o cu e de quem não faz a piromba subir nem com reza brava, na boa, não é exatamente a mesma coisa? Não é zombar da intimidade alheia? Na verdade, no caso dos gays, não há defeito algum. O brocha, por sua vez, é um incompetente.
Num mundo REALMENTE LIBERADO PARA PIADAS, o corno seria zoado até a morte no boteco, o brocha teria sua intimidade revelada e ambos passariam pelas mais ridículas humilhações. Mas, claro, isso eles não querem - e não aceitam. Falam de "pretos pinguços" e "gays afetados" como se fosse algo impessoal, mas não é. Isso fere absurdamente todo e qualquer negro e, também, a intimidade dos gays.
Quando algum caboclo levanta muito bravamente a bandeira do humor ilimitado, dou um conselho: converse com a ex-mulher ou ex-namorada - com alguma sorte, ela estará num dia de mau humor. Veja a quantidade - óbvia - de hábitos ridículos, falhas esquisitas, manias nojentas e toda sorte de absurdos. Em seguida, caso não seja uma pessoa reclusa ou muito chata, pergunte se o dito-cujo aceita alternar "piada de preto" com revelações sobre sua intimidade mais secreta.
Tirando os excessos óbvios, muitas vezes o chamado "politicamente correto" não é bem uma patrulha que busca tolher o sagrado direito ao humor, a ser exercido por gênios censurados. É mais uma forma de assegurar mínimos direitos, como aquele à intimidade, além de alguns outros valores bem razoáveis.
Aliás, vocês já viram como "humoristas" são sempre os primeiros a perder a paciência em qualquer discussão mais séria? Imagine quando viram alvo de gozação pesada - para uma verdade bem inconveniente...
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transubstanciado por gravata às 05.05.10 | 4 comentários
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Comentários:
Seria utopia pensar que um dia todos seremos capazes de fazer e interpretar piadas apenas com humor sadio, isso nunca acontecerá, mas também acho estremanente perigoso adotar ireestritamente mecanismos auto-reguladores como hoje é o "politicamente correto", gerando uma sociedade que não se expressa pelo medo de ser julgada pelo próprio senso comum.
o que eu acho que faltou no teu texto - que achei bem bom, é falar das piadas sobre mulheres. porque nem bem é a piada de anedotário. há todo um novo modo de fazer graça com "particularidades" femininas que me enojam e ofendem. e eu não falo da fofoca, do veneninho, etc. falo de usar de um tipo de mulher pra ofender O GÊNERO TODO. e aí a coisa fede muito.
porque não se faz piada de negro na TV porque a justiça, óbvio, vai em cima. e não seria pra menos. não se faz de gays (as não razoáveis), ou raramente e com cuidado, pelo mesmo motivo. mas a publicidade tá cheia de exemplos de piadas de gênero. e o foda (se bem que se fosse, né?... seria... bom, xápralá
né?
Pior que a onda do politicamente correto, é a onda de que o politicamente incorreto já está manjado...
(Gravz: Claro que não. No texto coloco EXPRESSAMENTE que a homossexualidade não é um 'defeito', ao contrário de ser brocha. E, quando falo de ser negro, explico a adjetivação negativa sempre acompanhada nas anedotas. Quem tem três neurônios entendeu. Por óbvio, não é seu caso - ou, maliciosamente, fez o velho sofisma da falsa conclusão. Como eu dizer - sobre seu comentário: "ah, entendi, então você quer dizer que bombas atômicas não explodem debaixo d'água"... Por fim, não adianta fazer gracejos na hora de comentar, pois o IP fica registrado. Dica importante. Mande um abraço pros demais usuários Speedy aqui de SP... Que feio, hein?)
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