UNFOLLOW ANUNCIADO E POLÍTICA
26/04/2010
UNFOLLOW ANUNCIADO E POLÍTICA
Anunciar unfollow e block - ou comemorá-lo depois de feito - é provavelmente a coisa mais ridícula e infantil do Tuíter (e, convenhamos, a lista de possibilidades infantis por ali é quase infinita). Quando tais atos estão atrelados ao tema "política", porém, a coisa ganha ares ainda mais bizarros e convém analisar o fenômeno de forma pormenorizada.
Gosto muito de política, sempre gostei, mas, ao contrário da maioria apreciadora do tema, não entro nessa bobagem de condenar os que não gostam. Em primeiro lugar, ninguém pode ser tolhido quanto a seu direito de gostar do que bem entender e, por mais que "a política seja algo importantíssimo para nosso futuro", não dá para negar seu grau máximo de chatice. Se alguém dá unfollow em pessoas que falam de política e fazem isso por desgostar do tema, na boa, acho normal.
O ponto central, aqui, não são os que detestam o tópico e deixam de seguir quem enche o saco só falando disso, mas sim quem GOSTA (ou diz gostar), mas, ao mesmo tempo, ODEIA DEBATER com quem pensa de forma contrária. Em suma: eles fingem apreciar o bom debate, mas querem mesmo a velha ditadura do pensamento único. Não por acaso, são quase sempre os mesmos que defendem grandes mestres da democracia, como Fidel Castro, Hugo Chávez e até mesmo o bonitinho que manda e desmanda no Irã.
Em geral, usam como recurso primeiro a velha tática de imputar ao interlocutor a pecha de "troll", quando na verdade não suportam ouvir opiniões contrárias. Prova disso são os debates promovidos por essa turma, e qualquer frequentador de universidade já deve ter visto cartazes do gênero: "SIMPÓSIO SOBRE BLABLABLA COM AS PRESENÇAS DE FULANO, SICRANO E BELTRANO". Quem são eles? Todos do mesmo partido, defendendo as mesmas ideias.
Debate? Nada. São três, quatro ou cinco pessoas concordando entre si, para deleite da plateia que também concorda. Isso não é debate, mas sim igrejinha partidária. E repetem no Tuíter o mesmo vício ideológico, travestido de engajamento político. Estão equivocados e são obviamente bocós. Partidarismo é uma coisa, política é outra. Sectarismo é uma coisa, debate é outra. Discursar a convertidos é uma coisa, debater sob o risco de ouvir opiniões contrárias é outra - e costuma ser dolorosa.
Houve um tempo em que, para ser "reacionário", seria preciso no mínimo defender algumas bandeiras clássicas, a ver: ser contra o aborto, contra a legalização das drogas, contra direitos para os gays e lésbicas e transgêneros, contra restrição a armamentos etc. Hoje, para a pletora de militantes brasileiros - também os do Tuíter - basta ser contra o PT. E isso vale até mesmo quando o partido defende José Sarney. Sim, não é gozação. Quando surgiu o #forasarney, vários vociferavam dizendo que era coisa de "reacionários" - muitos deles com vínculos ministeriais ou ligados a emissoras públicas.
Não falei de Hugo Chávez e Fidel Castro de bobeira, não (embora, às vezes, seja preciso pedir licença para falar de uns e outros, pois alguns temas são monopolizados por estudiosos, assim como, para se declarar "de esquerda", é preciso pedir licença ao PT). Recentemente, Chávez disse que o Tuíter era coisa do diabo e defendeu a restrição da rede social em seu país e o governo cubano costuma prender adversários que cometem "crime de opinião".
Quem é contra isso, portanto, é obviamente FAVORÁVEL À DEMOCRACIA e, portanto, um libertário, um democrata, um progressista, não é mesmo? Menos no Brasil. A militância petista, usando esses casos concretos, chama de "reacionário" quem se opõe a esses governos, inclusive ao falar mal especificamente desses atos - e usam toda sorte de malabarismos retóricos.
Claro que isso não é a maioria esmagadora, mas também não formam minoria tão inexpressiva. Quando se fala mal de um ato arbitrário castrista, petistas retrucam com a invasão do Iraque, como se a endossássemos (?). E eles que contrataram o marketeiro do Obama para sua campanha, o mesmo Obama que legitimou o Governo de Honduras e ocupou o Haiti (dois atos que eles tanto repudiaram). Vai entender...
Mas a parte mais engraçada é a intolerância com opiniões contrárias, a profunda raiva dos que pensam de forma diferente. Para eles, vale xingar, puxar cabelo, dar canelada, soco abaixo da linha da cintura, enfim, vale tudo. Só não vale pensar de forma diferente. Dizem gostar de debate, mas é mentira. O "debate" que apreciam é aquele em que todos concordam entre si.
A liberdade de opinião que defendem é aquela dos países por eles admirados, nos quais os opositores vão pra cadeia, 'paredón', ou apanham nas ruas. Como não podem fazer isso, dão unfollow e bloqueiam. Depois anunciam, para regozijo de seu espírito democrático, comemorando entre os fiéis da mesma igrejinha partidária.
É ao mesmo tempo triste e engraçado. É patético.
Revisão: Hellen Guareschi
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transubstanciado por gravata às 26.04.10 | 11 comentários
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Comentários:
Me desculpem o uso da expressão, que odeio usar por ser apelativa, mas essas criaturas tendem a tranformarem-se em algo similar aos camisas pretas/marrom/verde, facistas no modo stalinista nojento de ser! Isso ñ é democracia e pra mim esse tipo de comportamento é tão criminoso como hornar uma suástica NAZISTA. Isso fere completamente os principios democráticos, e os ideais pelos quais muitos dos nossos avós e pais lutaram na 2ªGuerra! Fere toda a luta pelas "Diretas Já!", uma afronta aos q morreram na mão de militares extremistas!
Alguem deveria explicar com cuidado o que realmente significa os 3 ideais que geraram toda a luta democratica, ideais q tomaram o mundo em 1776 e até hj aparecem bandidos, vagabundos e aproveitadores deturpando-os em favor de seus interesses políticos!
Liberdade, Igualdade e Fraternidade!
Então, contra os inimigos históricos, puseram-se a defender os inimigos dos inimigos, na velha suposição de que os inimigos dos meus inimigos são meus amigos. E passaram a defender o que há de pior no mundo. Ideologicamente pararam no tempo.
E sim, todo petista é ignorante e não dá pra ter papo com essa gente. É virtualmente impossível conversar hehe!
Melhor seguir as vacas ou Maria, não?
(Gravz: 10 linhas sem parágrafo?)
Só lembrando um problema (e fazendo papel de advogado do diabo). Concordo com o texto mas discordo em um ponto (que, acredito, não cabe nesta discussão específica). Sou economista (bem formado, com título de doutor em excelente escola do país, não quero me gabar, só clareando algumas coisas). E Economia (igual Direito, Sociologia ou qualquer área) é uma disciplina bem complexa e difícil. Infelizmente, as pessoas conhecem muito pouco de teoria econômica. Pior, existe um senso comum errado por aí muito forte. Assim, quando se fala em debate sobre algum tema econômico com não-especialistas, fico com muita preguiça (e daria o tal do unfollow). Não porque só queira ouvir opiniões iguais a minha ou detestar o debate, mas porque, para debater, a pessoa tem que conhecer o tema e, infelizmente, na maioria dos debates, isto não ocorre.
Saudações
PS: Uma colega minha contava uma história ótima sobre estes debates. Ela falava sobre um personagem fictício que seria o melhor tocador de pandeiro que o mundo já conheceu. O cara seria um gênio tocando pandeiro. Assim, devido a isto, ele era convidado para mesas redondas sobre energia nuclear, debates sobre o sistema prisional, ciclo de palestras sobre a política externa brasileira e por aí vai.
(Gravz: Economista do diabo! Não roube minha profissão!)
Como já diria o pessoal lá de casa: falou pouco, mas falou bonito!
Com certeza, burrice política é pior que alienação política - mas a fronteira é tão tênue...
Agora que o debate ideológico inteligente e democrático é algo em extinção neste país é um fato, censura e ataques desmotivados à inteligencia alheia estão tomando o lugar que deveria ser do debate. Triste constatação.
Concordo contigo, mas vc - na minha modesta opinião- faz a mesma coisa no IM a favor do PSDB...
Como eu queria um blog neutro!
Abs
(Gravz: Eu tenho opinião e uso o blog para publicá-la. Não sou jornalista, não estou vinculado a qualquer veículo nem nada do tipo. A idéia de blog pessoal, para mim, é exatamente essa - mais ou menos como a de uma coluna em publicação. Escrevo o que penso e tá tudo aí. Neutralidade existe no sentido de que não há vínculos empresariais. E só)
